Léxico: «madeira de lei»

Talvez os antiquários


      «O Instituto Brasileiro de [sic] Meio Ambiente [IBAMA] estuda inserir no Google Earth um programa para rastrear a origem da madeira da sua sala, até à floresta, o percurso do móvel pronto, até ao tronco. A casa e o mobiliário de muitos defensores da Amazónia contribuiu [sic] para a agonia da floresta. Sem falar das bibliotecas, erguidas com madeira de lei, antes só permitida aos monarcas portugueses» («Amazónia. A esperança nunca se abate», Norma Couri, Visão, n.º 878, 31.12.2009, p. 67).
      A locução madeira de lei é desconhecida do falante português e não está registada nos dicionários editados em Portugal, com excepção do Dicionário Houaiss, que regista que é a «madeira resistente à acção do tempo, ao clima, às intempéries».

[Post 3083]

Nomes de povos e etnias

Pronunciável, se faz favor


      «O exército tailandês começou, no domingo, 27, a repatriar para o Laos os elementos da etnia hmong que se refugiaram no país, alguns há mais de 30 anos. Banguecoque estabeleceu com o Laos um acordo de repatriamento de mais de 8 mil hmongs, iniciando-se a operação pelo encerramento de um campo com 4 mil, na província de Phetchabun» («Etnia hmong expulsa», Visão, n.º 878, 31.12.2009, p. 62).
      É isto que eu advogo e pratico. O povo chama-se hmong ou h’mong; logo, dois elementos são os hmongs. Quero eu lá saber como se pluraliza numa língua que me é completamente estranha. Neste caso, se elogio a pluralização, deploro a escolha da variante do gentílico, pois vejo que existe o muito mais pronunciável mong.

[Post 3082]

«Incumbente»: acepção inglesa

Fica a incumbência


      «Para as próximas eleições intercalares de Novembro, a estratégia do Tea Party é desafiar — e derrotar — todos os chamados “incumbentes”, quer eles sejam democratas ou republicanos. É precisamente neste último caso que a sua influência poderá ter consequências imprevisíveis: muitos dos concorrentes conservadores mainstream poderão ser preteridos por candidatos radicais, que inevitavelmente conduzirão o partido para um extremo» («Controvérsias e deserções ameaçam a grande conferência do Tea Party», Rita Siza, Público, 1.2.2010, p. 13).
      As aspas não são salvatério suficiente. Na língua portuguesa, o vocábulo incumbente não tem a acepção usada na frase citada. Nos Estados Unidos, incumbent, em contexto político, refere o actual titular de um cargo. Assim, the incumbent President é o actual presidente. Incumbe à jornalista explicar convenientemente o que escreve.

[Post 3081]

Porque/por que

Questões comezinhas, hã?


      «Com uma presença relativamente discreta na sociedade americana, os chamados “teabaggers” (a designação porque são conhecidos os entusiastas da causa, sem tradução em português) tornaram-se crescentemente visíveis ao longo do ano de 2009, tendo chegado a dominar o noticiário no pico do Verão, com a sua marcha sobre Washington em protesto contra o plano de reforma do sistema de saúde em debate no Congresso» («Controvérsias e deserções ameaçam a grande conferência do Tea Party», Rita Siza, Público, 1.2.2010, p. 12).
      Este é um erro muito comum — mas imperdoável num jornalista —, a confusão entre a conjunção porque e a preposição por com o pronome relativo que, equivalente a pelo qual, pela qual, pelos quais, pelas quais.

[Post 3080]

Elemento de formação «anti-»

Anticristo


      «O sucesso da primeira grande conferência nacional do movimento conservador anti-Governo conhecido como “Tea Party” está seriamente em causa, depois de uma série de controvérsias e deserções de última hora terem desfeito o alinhamento de oradores convidados para animar o evento, que arranca na próxima quinta-feira, em Nashville no Tennessee» («Controvérsias e deserções ameaçam a grande conferência do Tea Party», Rita Siza, Público, 1.2.2010, p. 12).
      Nem por acaso, o último post de ontem era sobre o elemento de formação anti-, habitualmente desconsiderado por quem escreve — e mesmo por quem, os revisores, tem como única incumbência emendar os erros de quem escreve. Neste caso, o que se passa é que os acordos ortográficos não regulam o uso deste elemento de formação com nomes próprios. Assim, para não descaracterizar o nome próprio, usa-se, seja qual for a letra por que começa o segundo elemento, o hífen. Escrevemos, assim, anti-Cavaco. Mas escrevemos Anticristo. Para contornar a questão, até porque nos últimos dez anos se tem abusado claramente desta construção, a jornalista deveria ter optado por outra redacção. Por exemplo: «contra o Governo».

[Post 3079]

Elemento de formação «anti-»


Perplexidades


      «Animador [Daniel Bensaïd (1946-2010)] das revistas Critique Communiste e Contre-Temps [sic], lançara-se em 2009 na criação de mais uma força política, o Novo Partido Anti-Capitalista, em substituição da entretanto extinta Liga Comunista Revolucionária» («O filósofo vermelho», E. C., Visão, n.º 880, 14.1.2010, p. 20).
      «Anti-capitalista»? Não é assim em português — e não é, vê-se, por influência do francês. O elemento de formação anti- (e o copydesk — porque grafam copyDesk? — da revista Visão tem obrigação de sabê-lo) aglutina-se com o elemento seguinte, excepto quando este tem vida própria e começa por h, i, r ou s, separando-se, neste caso, por hífen. Anticapitalista, pois.

[Post 3078]

Homília/homilia

Corria o ano de 2007


      «Folheadas as mais de 400 páginas do volume no qual o bispo do Funchal reuniu as suas homílias, mensagens e entrevistas de dois anos à frente da diocese, não se encontram denúncias nem sobressaltos com a carga e o simbolismo das proferidas pelo cónego Manuel Martins» («Em nome do Pai, do filho e de... Jardim?», Miguel Carvalho, Visão, n.º 880, 14.1.2010, p. 44).
      E quatro vezes assim escreve Miguel Carvalho — e bem. Como teria escrito bem se tivesse escrito homilia. São variantes, e se esta última é mais usada, tanto na oralidade como na escrita, nada temos a criticar. Na maior parte dos casos, a opção por uma ou por outra deriva somente do gosto pessoal. Há mais variantes prosódicas, como se sabe. Clítoris e clitóris, por exemplo. (Que até tem outra variante, se bem que não prosódica: clitóride.) Algumas variantes não estão registadas nos dicionários, e é pena. Num texto, «Prazeres da língua — 3 (com a devida vénia ao canal, o Odisseia)», publicado por Valupi em Janeiro de 2007 no blogue Aspirina B, podia ler-se: «Falamos de um documentário científico acerca do clítoris. Ou do clitóris, como se grafa no livro A História Íntima do Orgasmo, de Jonathan Margolis, em tradução de Fernando Dias Antunes.» Não se vislumbra — ou será que se vislumbra? — uma ponta de crítica ou de ironia no reparo de Valupi. Fui eu o revisor daquela obra e optei por deixar a acentuação por que Fernando Dias Antunes se decidira — tanto mais que é, ainda hoje, a que me parece ser mais usada.

[Post 3077]

Aportuguesamento: «coltão»

Mistura de minerais


      «A guerra civil na República Democrática do Congo é, em grande medida, uma luta pelos recursos naturais do país. A ONU estima que o tráfico desta matéria-prima, usada nos telemóveis e na indústria espacial, tenha valido mais de 750 milhões de dólares, entre 2000 e 2004, aos cofres do Governo» («Coltão», Visão 880, 14.1.2010, p. 55).
      Actualmente, ainda nenhum dicionário regista este aportuguesamento — coltão —, que é, contudo, já usado em textos de vária natureza. Em alguns dicionários pode ler-se que coltan é a designação coloquial africana para uma mistura de dois minerais, columbita e tantalita, e que em português se diz columbita-tantalita. Demasiado comprido. Prefiro coltão.


[Post 3076]

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