Léxico: «biodigestor»

Vai-se vendo


      «Os Estados Unidos não querem desperdiçar esta energia e têm já biodigestores anaeróbicos um pouco por todo o lado. Estes capturam o biogás do estrume e usam-no para produzir energia» («Gases da pecuária já são minimizados», Bruno Abreu, Diário de Notícias, 20.12.2009, p. 34).
      Tanto quanto pude verificar, não está registado em nenhum dicionário. O VOLP da Academia Brasileira de Letras, porém, acolhe-o.

[Post 2999]

Ortografia: «alentejanização»

Ainda hoje


      «É o grande choque cultural do ano novo. Tornar-se-ão os alentejanos mais cubanos ou os cubanos mais alentejanos? Contra qualquer outro povo, eu apostaria na vitória dos cubanos. Mas ninguém passa algum tempo no Alentejo sem sucumbir a uma profunda alentejenização» («A Cuba alentejana», Miguel Esteves Cardoso, Público, 11.1.2010, p. 31).
      Vejamos. A palavra deveria ter sido formada por alentejano+ização (à semelhança, por exemplo, de africanização, que provém de africano+ização). Logo, nunca daria *alentejenização, mas alentejanização.

[Post 2998]

Pleonasmo

Ainda pior


      «E, no ano passado, em pleno escândalo das despesas dos deputados, indignou-se com as notícias de que ela e o marido gastaram, em quatro anos, 30 mil libras em despesas de alimentação e receberam o reembolso de 160 mil libras gastas com o empréstimo da casa» («O primeiro-ministro, a mulher e o amante dela abrem crise na Irlanda do Norte», Ana Fonseca Pereira, Público, 10.1.2010, p. 12).
      «Gastaram em despesas»? Mais um pleonasmo grosseiro. Bastava mudar o verbo, e é o que se espera de um profissional da comunicação social. Depois de escrever, leia em voz alta.

[Post 2997]

Ortografia: «espanholês»

Ignorância


      «À saída dos consultórios a opinião dos utentes é de agrado por voltarem a ter médico de família e por perceberem “muito bem” o “espanholez” dos médicos cubanos. “Até me apalpou da cabeça aos pés”, confidenciou no meio de uma barulhenta gargalhada Maria C.» («Alentejanos têm reacção inusitada: “Calma, doutora”», Carlos Dias, Público, 10.1.2010, p. 11).
      Pois é, o vocábulo não está registado nos dicionários, nem precisamos de tal. Basta sabermos isto: não existe na língua portuguesa o sufixo de adjectivalização -ez. Ignorar este dado é que originou o erro. E os revisores estão de folga aos fins-de-semana...

[Post 2996]

Modificador realizante e chavões

Sim, senhora ministra


      Entrevistada ontem por Mário Crespo na Edição da Noite na Sic Notícias, a ministra da Educação, uma escritora, lançou mão do adjectivo «importante» como uma verdadeira muleta: «Eu trabalhei com ela [Maria de Lourdes Rodrigues, ex-ministra da Educação]. Foi ela que lançou o Plano Nacional de Leitura e senti que tinha condições muito importantes para desenvolver aquele projecto.»
      Mais do que qualificar positivamente as «condições» ou denotar conhecimento da semântica argumentativa de Ducrot, e nomeadamente do modificador realizante, releva antes e simplesmente do pouco à-vontade a falar com os meios de comunicação. E, enfim, uma infausta escolha de vocabulário.

[Post 2995]

Regência verbal

Conversa de café


      «Teve “um problema de droga”. Esteve preso. Saiu da cadeia. Apaixonou-se. Juntou-se à namorada — já lá vão sete anos. Tornou a receber. Desde Maio, bolsa, passe, senhas de almoço» («Rendimento Social de Reinserção. Aprender pode ajudar, mas não faz milagres», Ana Cristina Pereira, P2/Público, 9.1.2010, p. 7).
      Esta forma reflexa do verbo juntar (e ajuntar), de uso popular, significa, como se sabe, amasiar-se, amancebar-se. O problema também é, não vale a pena fingirmos, de registo de linguagem, pois parece a transcrição de uma conversa de café com os entrevistados, com a jornalista a «encarar de frente» Paulo, o «avermelhado homem de 42 anos», a beber um favaios (derivação imprópria, senhora jornalista). Mas quero abordar outra questão. Será mesmo «juntar-se a»? É verdade que o Dicionário Houaiss só em relação à acepção pôr(-se) junto, unir(-se) [coisas diversas ou uma coisa a outra(s)]; reunir(-se) recomenda o uso da preposição com para indicar companhia, mas eu estenderia a recomendação à acepção usada no texto.

[Post 2994]

Pleonasmos

Então?


      «A professora Ana Luísa tenta apagar a memória que tanta revolta causa em Vítor: “As pessoas têm de mostrar empenho, responsabilidade.” O homem de cabelos curtos, pele curtida, encara-a de frente: “É sempre bom aprender mais qualquer coisa. Não digo é que fazer o curso de jardinagem me faça usufruir dessa arte”» («Rendimento Social de Reinserção. Aprender pode ajudar, mas não faz milagres», Ana Cristina Pereira, P2/Público, 9.1.2010, pp. 6-7).
      Nem todos os pleonasmos — até as gramáticas o dizem, porque há sempre implicantes que não sabem distinguir — conspurcam a língua. Não é o caso deste. Como é que a jornalista Ana Cristina Pereira queria que se encarasse seja o que for: de esguelha? Às avessas? Vá lá, mais cuidado a escrever.

[Post 2993]

Ortografia: «subsidiodependente»

Vão-se escoando os anos


      «Há quem fale de subsídiodependentes. E quem defenda que é preciso acabar com o estereótipo do beneficiário preguiçoso. Há mais de 380 mil pessoas a receber uma prestação destinada a atenuar a pobreza. Sete mil estão em formação, com os olhos no mercado de trabalho. Vítor, ex-ajudante de construção civil, está a aprender jardinagem» («Rendimento Social de Reinserção. Aprender pode ajudar, mas não faz milagres», Ana Cristina Pereira, P2/Público, 9.1.2010, p. 4).
      Já aqui o escrevi uma vez: nunca o acento gráfico (e a sílaba tónica) pode recuar para lá da pré-antepenúltima sílaba. E esta já é uma excepção à designada «janela de três sílabas». Já temos sorte que a jornalista não tenha usado hífen — *subsídio-dependente —, como se vê muito. Não tem, parece-me, qualquer dificuldade: segundo o Acordo Ortográfico de 1945, a regra geral na composição de palavras é a aglutinação dos seus componentes. Logo, eurozona, subsidiodependência, subsidiodependente...
      O Acordo Ortográfico de 1990 não veio mudar significativamente, nesta questão do emprego do hífen nos compostos, locuções e encadeamentos vocabulares, o que fora estatuído em 1945, e a própria Nota Explicativa do acordo o realça. O período de transição, contudo, é de seis anos, tempo que seria suficiente se entretanto fosse publicado o vocabulário ortográfico comum. Realço «comum», pois interpretações unilaterais, e muitas vezes ao arrepio do texto do acordo, já temos que cheguem.

[Post 2992]

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