Ascendência/descendência II

Sem abdicar de raciocinar

      Se se diz que alguém nasceu numa «prosperous, emancipated Jewish family of German descent», quem traduz não se pode deixar levar pelas palavras, abdicando de reflectir, e escrever «com descendência alemã», quando é precisamente o contrário — de ascendência alemã. Now we can descend to particulars (agora podemos tratar de pormenores): na frase, descent é substantivo e pode traduzir-se por «origens; raízes; ascendência». Se sabem, porque é que erram tanto, hã?
[Post 2895]

«Severo», anglicismo semântico II

E com disenteria?


      Uma estudante, Mariana Ferreira, perguntou ao Ciberdúvidas «se é errado traduzir a palavra inglesa severe para severo, como termo médico. Disseram-me que a tradução correcta é grave, e não severo». O consultor, Carlos Rocha, depois de citar dois dicionários que registam a palavra «grave» como tradução, ainda acrescentou: «Parece-me que a consulente tem de estar atenta à própria expressão em português. A tradução correcta não depende apenas da correspondência palavra a palavra; também decorre da sensibilidade de encontrar as compatibilidades lexicais mais correntes na língua de chegada, aqui, o português. Assim, o que se lê em inglês, sem o adjectivo em questão, verte-se em português como “com mais sinais clínicos, incluindo desidratação”. Em seguida, escolhe-se o adjectivo mais adequado, que, neste caso, se me afigura ser grave: “com mais sinais clínicos graves, incluindo desidratação grave”.» Quase perfeito, mas o remate do texto é desconcertante: «Com desidratação, não é impossível usar severa: “desidratação severa”.» Ora essa! «Com desidratação não é impossível»! E se for com disenteria, já é? Deve ser avaliado casuisticamente, imagino que me dirá. A disenteria é uma doença grave. Numa viagem à Europa, o físico Oppenheimer adoeceu com disenteria, tendo ficado a convalescer durante um ano inteiro, o que o terá impedido, segundo alguns estudiosos, de ter tido um papel ainda maior no campo da Física. Talvez não, porque a disenteria é «an infection of the intestines marked by severe diarrhea». E se a disenteria não for severa, é-o a diarreia. Algo ou alguém tem de ser severo aqui. Posso ser eu: não diga disparates, senhor consultor. Mesmo de forma críptica.

[Post 2894]

Tradução: «postdoctoral fellow»


Traduzir até ao fim


      E um certo físico veio depois para a Europa como «postdoctoral fellow». Tradução? O nosso tradutor acha que é «fellow de pós-doutoramento». É como o caso do dean of science, o tradutor acha que é intraduzível. Mas não. Postdoctoral fellow é bolseiro de pós-doutoramento, ou não? Ou será melhor vender os livros juntamente com um dicionário de inglês-português?


[Post 2893]

Tradução: «timing»

Cunctator e o tradutor

      «The timing was crucial», lia-se no original. O tradutor quis escapar ao anglicismo, e escreveu: «A temporização foi crucial.» Seria uma boa forma de fugir ao aparentemente inescapável anglicismo — se não estivesse errado. Então o tradutor usa uma palavra que não é de todos os dias e não consulta um dicionário? Temporização é, qualquer dicionário o regista, o acto ou efeito de temporizar; transigência; tolerância. Não podemos transigir com semelhante inépcia. Sim, a palavra está relacionada com o tempo, pois temporizar é retardar, atrasar, demorar, delongar, adiar. Enquanto escrevo, vem-me à mente o cognome Cunctator, atribuído ao general romano Quintus Fabius Maximus Verrucosus. Cunctator, «aquele que adia», porque foi essa a táctica que usou para deter o general cartaginês Aníbal Barca durante a Segunda Guerra Púnica, entre 218 e 201 a. C.

[Post 2892]



Tradução: «dean of science»

Decanato

      No campo da terminologia académica, muito fica por traduzir, pois alguns tradutores têm a convicção de que «não é exactamente o mesmo» se se usarem palavras na nossa língua. Agora, por exemplo, estou aqui a ler que um indivíduo era «dean of science na Universidade de Columbia». Pergunto-me, e pergunto aos académicos que frequentam estas paragens, se «deão de ciência» não diz o mesmo — mas melhor, pois é português. Se me objectarem que o leitor não sabe o que é «deão», contraponho que o leitor ainda sabe menos o que seja dean.
      Decano tem como étimo o vocábulo do latim tardio decanus, chefe de um grupo de dez. Tinha, originalmente, um sentido ligado ao de chefia, comando, direcção, presidência. Com o tempo, assumiu em várias línguas o sentido de «o mais velho (ou o mais antigo em termos de anos de serviço) dos membros de uma corporação ou classe», sem, contudo, ter perdido a denotação de chefe ou dirigente, como no uso que continua a fazer-se dos vocábulos «decano» e «deão» (este com três plurais: deãos, deães, deões), em certas universidades e órgãos eclesiásticos. Ao contrário do que se possa pensar, deão não se formou na língua: veio do francês antigo deien, e teve primeiramente a forma daião.


[Post 2891]

Tradução: «praticed»

Exercícios

      No original podia ler-se que «But as Michel Foucault noted, “Discipline produces subjected and praticed bodies, ‘docile’ bodies”», e o tradutor entendeu verter subjected and practiced por submetidos e rotinados. «Submetidos» vá que não vá, mas rotinados só no pior jornalismo desportivo encontro. Submissos e exercitados, deveria ter escrito. A frase pertence à obra Surveiller et punir, que Foucault (1926–1984) publicou em 1975.

[Post 2890]


Conjunção «porém»

Cartas ao director

      Entre as cartas ao director, rubrica fixa de todos os jornais, há-as edificantes e desedificantes e as que não adiantam nem atrasam, mas que os jornais, quem sabe se por incapacidade, decidem publicar. Cá está uma desta última espécie, assinada por Américo Ponces, de Coimbra: «Conta-se que o poeta Gomes Leal respondia ao reproche dos que o criticavam, por nem sempre respeitar a gramática, com a seguinte interrogação: ”Quem é que manda no que é meu, / É a gramática, ou sou eu…? Correndo o risco de ouvir qualquer coisa semelhante, atrevo-me ainda assim a comentar contigo, leitor amigo, uma frase que li há tempo, num livro muito badalado e que me soou mal. Ei-la: “Tudo acaba, porém, tudo tem o seu termo…” A minha dúvida é a seguinte: o que faz uma conjunção adversativa, “porém”, ali entalada entre duas vírgulas, no meio de duas afirmações que vão no mesmo sentido? Só encontro uma explicação. O autor narrador quis ter a certeza de que o estávamos a ler com atenção e não apenas por ler. Já agora, amigo leitor, para não perderes o teu tempo, sempre te digo, que o reproche existe mesmo, no nosso dicionário. Há-de ter sobrado das invasões francesas. Encontrei-o já, pelo menos, duas vezes. No Esaú e Jacó de Machado de Assis e em A Caverna de José Saramago» («Gomes Leal e a gramática», Público, 9.12.2009, p. 34).
      Qual é o problema da frase? Reescrevo-a, trocando a conjunção, e continuará a ter o mesmíssimo sentido, para ver se o leitor ainda afirma que está incorrecta: «Todavia, tudo acaba, tudo tem o seu termo…» Entretanto, chegarão às redacções cartas que poderiam contribuir para o esclarecimento de determinadas questões e os jornais recusam-se a publicá-las. Esta, com disparates e erros de pontuação, impingem-no-la com toda a desfaçatez.
[Post 2889]

Ortografia: «Tindufe»

Portugueses somos

      «Os conflitos armados no continente africano matam anualmente milhares de pessoas, tanto combatentes como civis; e obrigam milhões a procurar refúgio longe das suas terras. Os deslocados englobam tanto os sarauís acampados há décadas na região argelina de Tindouf como os naturais da República Centro-Africana, da República Democrática do Congo, da Somália e do Sudão.» Isto escreveu o jornalista, mas eu emendei para Tindufe. Correio do Minho, Visão e nos documentos em língua portuguesa do Parlamento Europeu escreve-se assim. Não somos uma colónia da França para escrever *Tindouf.

[Post 2888]

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