Revisor filológico

Que revisores são esses que...

      Acabo de saber pelo jornal O Figueirense que hoje à tarde, no Casino Figueira, António Bettencourt, que é o revisor filológico da obra, apresentará o último romance de António Lobo Antunes, Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar. Já tinha lido no diário i um artigo de Luís Leal Miranda («António Lobo Antunes: Anatomia de um romance», i, 1.10.2009) em que se falava da função deste revisor: «Para preservar a vontade do autor, todos os livros são passados a pente fino por um revisor filológico — de seu nome António Bettencourt. A função deste último par de olhos é verificar que todas as frases, parágrafos e páginas correspondem à última vontade do seu criador.» Bem, a minha função é mais a de verificar que todas as frases, parágrafos e páginas correspondem às regras gramaticais. A minha conversa é com a gramática e com os dicionários. Com quem conversa o revisor filológico?

[Post 2851]

Sobre «incestuário»

Hitler e as vírgulas

      O original diz: «So he was ready to assume that promising children when found in low, nondescript families could be “incestuaries.” The word in German, as he coined it, was Inzestuarier. He did not like the more common term of such disgrace, Blutschande (blood-scandal), or as it is sometimes employed in polite circles, Dramatik des Blutes (blood-drama).» E o tradutor verteu assim: «Assim, estava pronto a assumir que as crianças promissoras, quando oriundas de famílias inferiores e indeterminadas, podiam ser “incestuárias”. A palavra em alemão, tal como ele a cunhou, era Inzestuarier. Ele não gostava do termo mais comum para desgraças destas, Blutschande, (escândalo de sangue), ou, como é por vezes empregue nos círculos educados, Dramatik des Blutes, (drama de sangue)» (O Fantasma de Hitler, Norman Mailer. Tradução de Octávio Gameiro e revisão de João Vidigal. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 15). Incestuoso também a língua inglesa tem (incestuous). Naturalmente, a uma palavra cunhada tem de se fazer corresponder outra invenção. (Só um reparo, colega revisor: as vírgulas antes dos parênteses de abertura servem para quê?)

[Post 2850]

Léxico: «subtexto»

Fica a ideia     


      «Penso que todos os que estávamos presentes conhecíamos o subtexto subjacente a estes comentários» (O Fantasma de Hitler, Norman Mailer. Tradução de Octávio Gameiro e revisão de João Vidigal. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 18). Ainda recentemente usei também o vocábulo «subtexto» para designar o conjunto das didascálias de uma peça dramática. E onde pára ele, nos dicionários? Em lado nenhum, os dicionários gerais não o registam. Com os vocábulos que faltam nos dicionários, eu fazia um dicionário.

[Post 2849]

Pronúncia do verbo «adquirir»

Distintos

      O advogado Magalhães e Silva, que foi candidato a bastonário da Ordem dos Advogados nas últimas eleições, foi ontem convidado de Mário Crespo no Jornal das 9, na Sic Notícias. Por duas vezes, pronunciou claramente o u do verbo adquirir. É, em toda a minha vida, a segunda pessoa a quem o ouço fazer. A outra também é da área do Direito: o Prof. Pedro Romano Martinez.
[Post 2848]

Léxico: «femicídio»


Imagem: 4.bp.blogspot.com/


E vão 45

      Nem na minha lista figurava. «O departamento de psicologia da Polícia Judiciária está a estudar um novo tipo de crime. Os investigadores chamam-lhe femicídio e definem-no como todo o homicídio nas relações íntimas. A UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) já pediu ao Governo para introduzir o conceito no Código Penal» («Morte em relações íntimas pode vir a ser considerada “femicídio”», Sónia Simões, Diário de Notícias, 25.11.2009, p. 3).


[Post 2847]

Actualização em 1.5.2010

      No Público de hoje, foi usada a variante feminicídio: «Segundo o relatório elaborado pela Universidade Internacional de Valência e pelo Instituto Centro Rainha Sofia (ICRS), entre 2000 e 2006 os casos de feminicídios, a designação das Nações Unidas para a violência contra as mulheres, diminuiu na generalidade dos países do Sul do continente europeu e aumentou nalguns do Norte e do Centro, como a Áustria e em algumas das antigas repúblicas comunistas» («Mais violência contra as mulheres no Centro e Norte da Europa do que no Sul», Nuno Ribeiro, 1.5.2010, Público, p. 18).


Léxico: «sobreembalagem»

O excesso de vazio

      «“A sobreembalagem [espaço vazio entre a embalagem e o produto] e vários tipos de material são falhas comuns na concepção das embalagens”, o que, além de consumir muitas matérias-primas, dificulta a separação doméstica e a reciclagem, conclui um estudo da DECO PROTESTE ao impacto ambiental de 14 produtos embalados» («DECO alerta para abuso na sobreembalagem e diversidade de materiais», Jornal de Notícias, 24.11.2009). Li a notícia em vários meios, no jornal Metro, no sítio da Rádio Renascença, da TVI, e só no JN se ensaiou uma tentativa de definição — e está errada. Vejamos. O elemento de formação de palavras sobre- tem origem latina (super) e exprime a ideia de além de, posição superior, por cima, demasiado, como em «sobreexcelência», «sobreexaltação», «sobreexcitação»... (No sítio da Rádio Renascença, lê-se «sobre-embalagem», o que é incorrecto.) No caso, transmite claramente a ideia de excesso, pelo que a definição «espaço vazio entre a embalagem e o produto» não tem pés nem cabeça.

[Post 2846]

Conceito: «dífono»

Di quê?

      Andava aqui às voltas com os conceitos de digrama (que alguns borra-botas escrevem «diagrama») e de dígrafo para uma crónica que estou a escrever, e eis que encontro o conceito de dífono: o grafema que representa dois sons. Na língua portuguesa só temos um, que é o x quando usado com valor de /cs/, como nos vocábulos «complexo», «reflexo», «sexo», «táxi».
[Post 2845]

Ortografia: «ponto-morto»

Mecânica

      É como diz, caro M. L.: se se escreve marcha-atrás (e agora já penso que devemos grafá-la assim), então também devemos escrever ponto-morto. É como registam vários dicionários e como se vê na imprensa: «As posições são P, R, N, D, S e L. As primeiras quatro são comuns: travado (P), marcha-atrás (R), ponto-morto (N), e condução normal, em frente (D). Quanto ao S, é para uma circulação mais rápida, quando a economia de combustível não é importante, enquanto que o L serve para as subidas íngremes, como as mudanças ‘baixas’ de um jipe ou veículo pesado» («Pela ecologia», Emanuel Costa, Tabu, 3.07.2009, p. 58).

[Post 2844]

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