Léxico: «femicídio»


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E vão 45

      Nem na minha lista figurava. «O departamento de psicologia da Polícia Judiciária está a estudar um novo tipo de crime. Os investigadores chamam-lhe femicídio e definem-no como todo o homicídio nas relações íntimas. A UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta) já pediu ao Governo para introduzir o conceito no Código Penal» («Morte em relações íntimas pode vir a ser considerada “femicídio”», Sónia Simões, Diário de Notícias, 25.11.2009, p. 3).


[Post 2847]

Actualização em 1.5.2010

      No Público de hoje, foi usada a variante feminicídio: «Segundo o relatório elaborado pela Universidade Internacional de Valência e pelo Instituto Centro Rainha Sofia (ICRS), entre 2000 e 2006 os casos de feminicídios, a designação das Nações Unidas para a violência contra as mulheres, diminuiu na generalidade dos países do Sul do continente europeu e aumentou nalguns do Norte e do Centro, como a Áustria e em algumas das antigas repúblicas comunistas» («Mais violência contra as mulheres no Centro e Norte da Europa do que no Sul», Nuno Ribeiro, 1.5.2010, Público, p. 18).


Léxico: «sobreembalagem»

O excesso de vazio

      «“A sobreembalagem [espaço vazio entre a embalagem e o produto] e vários tipos de material são falhas comuns na concepção das embalagens”, o que, além de consumir muitas matérias-primas, dificulta a separação doméstica e a reciclagem, conclui um estudo da DECO PROTESTE ao impacto ambiental de 14 produtos embalados» («DECO alerta para abuso na sobreembalagem e diversidade de materiais», Jornal de Notícias, 24.11.2009). Li a notícia em vários meios, no jornal Metro, no sítio da Rádio Renascença, da TVI, e só no JN se ensaiou uma tentativa de definição — e está errada. Vejamos. O elemento de formação de palavras sobre- tem origem latina (super) e exprime a ideia de além de, posição superior, por cima, demasiado, como em «sobreexcelência», «sobreexaltação», «sobreexcitação»... (No sítio da Rádio Renascença, lê-se «sobre-embalagem», o que é incorrecto.) No caso, transmite claramente a ideia de excesso, pelo que a definição «espaço vazio entre a embalagem e o produto» não tem pés nem cabeça.

[Post 2846]

Conceito: «dífono»

Di quê?

      Andava aqui às voltas com os conceitos de digrama (que alguns borra-botas escrevem «diagrama») e de dígrafo para uma crónica que estou a escrever, e eis que encontro o conceito de dífono: o grafema que representa dois sons. Na língua portuguesa só temos um, que é o x quando usado com valor de /cs/, como nos vocábulos «complexo», «reflexo», «sexo», «táxi».
[Post 2845]

Ortografia: «ponto-morto»

Mecânica

      É como diz, caro M. L.: se se escreve marcha-atrás (e agora já penso que devemos grafá-la assim), então também devemos escrever ponto-morto. É como registam vários dicionários e como se vê na imprensa: «As posições são P, R, N, D, S e L. As primeiras quatro são comuns: travado (P), marcha-atrás (R), ponto-morto (N), e condução normal, em frente (D). Quanto ao S, é para uma circulação mais rápida, quando a economia de combustível não é importante, enquanto que o L serve para as subidas íngremes, como as mudanças ‘baixas’ de um jipe ou veículo pesado» («Pela ecologia», Emanuel Costa, Tabu, 3.07.2009, p. 58).

[Post 2844]

Ortografia: «sem-papéis» II

De certeza que não

      «O Presidente Nicolas Sarkozy rejeitou ontem a regularização maciça de imigrantes ilegais — que podem ser 400 mil em França. O debate foi relançado pela greve dos “sem-papéis” que trabalham em empresas francesas, que decorre desde 12 de Outubro, e pelo anúncio do ministro da Imigração, Eric Besson, de que iria preparar uma lei que previa o encerramento das firmas que empregassem imigrantes ilegais» («Governo quer punir patrões que empregam “sem-papéis”», Clara Barata, Público, 25.11.2009, p. 17). Será mesmo preciso copiarem-se no pior?

[Post 2843]

Tradução: «francité»


Que é isso?

      Éric Besson, o ministro da Imigração e da Identidade Nacional francês, quer agora saber o que é ser francês. «O ambiente nos media, percebe-se bem, não é favorável a este debate, que é recusado pela esquerda. Mas muitos intelectuais e académicos têm oferecido um contributo que passa mais por arrasar os motivos do debate do que por oferecer ideias para definir a “francidade” (“francité”, como se diz em vários textos publicados, num tom mais ou menos jocoso)» («Definir o que é ser francês servirá apenas para cortar na imigração?», Clara Barata, Público, 25.11.2009, p. 16).

[Post 2842]

Aportuguesamento: «paparaço»

Em 2019

      Lá para os lados de Sintra, nasceu uma nova palavra: melhor, foi aportuguesada uma palavra que lemos todos os dias: «Nessas revistas tenho descoberto o ritmo iô-iô. Para aparecer, a pessoa engorda e é apanhada por um paparaço. Depois, aparece e jura que vai emagrecer. Emagrece e aparece, pela 3.ª vez. Emagrece de mais e reaparece, como anorética, pela 4.ª» («Um pânico feliz», Miguel Esteves Cardoso, Público, 25.11.2009, p. 43). De paparazzo, paparaço. Assim, já podemos ter um plural regular — paparaços —, e não a estupidez *paparazzis. Vai pegar? Falamos daqui a dez anos. (Mas é anoréctica ou anoréxica, como já aqui vimos.)

[Post 2841]

Semântica: «fenómeno»

Veja bem

      Uma leitora, professora de Português reformada, diz-se indignada por ter ouvido na Antena 1 que o PSD quer constituir uma comissão parlamentar eventual para acompanhar o fenómeno da corrupção. «Fenómeno, tanto quanto sei», argumenta, «só se aplica à Natureza; a corrupção é um acto voluntário do Homem.» Lamento contrariá-la, mas uma das acepções do vocábulo «fénomeno» aplica-se inteiramente no contexto: «tudo o que a nossa consciência ou os nossos sentidos podem apreender».

[Post 2840]

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