«Meios de progressão»

É o progresso
     

      «Foram sete dias a percorrer quase ininterruptamente 900km [sic], quase sempre fora da estrada e recorrendo à orientação. A pé, de BTT e de canoa (sem desdenhar de outros meios de progressão, como os patins e a natação, por exemplo), 59 equipas (de quatro elementos) lançaram-se a caminho para conquistar o Campeonato Mundial de Corridas de Aventura 2009, que este ano decorreu em Portugal» («Helly Hansen, uma equipa de resistentes de nível mundial», A. M. P., Público, 15.11.2009, p. 35). Não sei, mas a expressão «meios de progressão» parece ter origem militar. O Dicionário Houaiss apenas regista as locuções «progressão aritmética», «progressão geométrica» e «progressão harmónica».

[Post 2815]

«Anóxia» e «anoxia»

Diga lá, João

      «O bebé que morreu no útero da mãe em Portalegre terá sido vitimado por alterações na circulação sanguínea que apontam para mais um caso de morte fetal súbita. O relatório da autópsia é inconclusivo quanto às causas que provocaram aquelas alterações (anoxia aguda)» («Autópsia revela que feto de Portalegre foi vítima de morte súbita», Natália Faria, Público, 17.11.2009, p. 9). O vocábulo tanto se pode escrever anoxia como anóxia — não podemos é lê-lo da mesma maneira. Gostava de saber que palavra estava escrita no guião que João Adelino Faria, o pivô da RTPN, leu ontem no À Noite, as Notícias. A forma que mais se encontra é anoxia, mera variação prosódica de anóxia, que nada tem que ver, em termos de etimologia, com vocábulos terminados em -ia, como anorexia.

[Post 2814]

Género de «tesão» II

Rijezas gramaticais     


      Na sua crónica de hoje, Miguel Esteves Cardoso também fala da campanha da Junta da Extremadura, e remata assim o seu texto: «A puberdade leva à loucura hormonal e, mesmo que não ensinasse nada de novo aos loucos e às loucas adolescentes, pelo menos o carácter oficial da campanha contribuirá para remover qualquer culpabilidade — e mesmo um pouco daquela constante tesão» («Mãos à obra», Público, 17.11.2009, p. 40). Pode dar jeito imaginar que o vocábulo «tesão» é do género feminino — mas não é. Vimo-lo aqui.


[Post 2813]

Léxico: «tabaco picado»

Mar picado? E tabaco?

      «Se a receita fiscal tende, este ano, a ser inferior, assim como os cigarros introduzidos no consumo, por que razão acredita a Tabaqueira que o mercado está a estabilizar? Porque, e também como diz o presidente da Associação de Grossistas de Tabaco do Sul, João Passos, “2009 foi um ano atípico”: “Os Governos não puderam pôr em prática a gula fiscal relativa ao tabaco, até porque havia uma grande diferença entre Portugal e Espanha no que toca ao preço do tabaco”, afirma. Acrescenta que o impacte da crise se nota “numa maior flutuação semanal”: “No fim do mês, as nossas vendas são 10 por cento inferiores ao início, mas há deslocalização para os picados [tabaco de enrolar], que duplicaram as vendas. “O comércio de tabaco picado aumentou 100 por cento”, diz, explicando que, em vez de deixarem de fumar, os consumidores optam, por exemplo, pelo tabaco de enrolar, por ser mais barato» («Crise económica leva fumadores a optar pelos cigarros de enrolar», Maria João Lopes, Público, 16.11.2009, p. 8). Alguns dicionários, como Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, registam que picar é «cortar em pequenos bocados (alimentos)», mas é claro que não se aplica apenas a alimentos.


[Post 2812]

Formatação de texto

«Eu ainda sou do tempo...»

      Clara Pinto Correia, que tem 56 livros publicados, comparou, no programa Os Dias do Futuro, como era escrever antes e como é agora: «Hoje em dia espera-se de nós que a gente entregue o romance à editora num instantinho, já todo formatado, com as imagens lá inseridas, com as legendas postas, com as notas de rodapé já todas muito bonitinhas... […] nós temos de trabalhar que nem uns cães.» Com 56 livros publicados, já devia saber que quase toda — repito: quase toda — a formatação é trabalho inútil. Pior: vai dar mais trabalho ao paginador. A meio da conversa, ia jurar que ouvi um «prontos», mas pronto.

[Post 2811]

Tradução: «massive offensive»

Somos todos padeiros

      Admito: nem sempre é possível deixar de incluir alguma «massa» na tradução do omnipresente «massive» inglês. Mas poucas vezes. Vejamos este exemplo de um dos melhores tradutores portugueses: «A guerra tinha então entrado num segundo ano horrível, com três quartos de milhão de soldados da China comunista e da Coreia do Norte a desencadear constantes ofensivas em massa e as forças das Nações Unidas, encabeçadas pelos Estados Unidos, a responder desencadeando contra-ofensivas em massa depois de sofrerem pesadas baixas» (Indignação, Philip Roth. Tradução de Francisco Agarez e revisão de Clara Joana Vitorino. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009, p. 35). No original há-de estar massive offensives e massive counteroffensives.

[Post 2810]

Sobre «Amish»

Essa é que é essa

      «No Spectator de 7 de Novembro, Sarah Churchwell chamava a atenção para a moda dos romances Amish e das virgens castas da série Twilight» («Antes assim», Miguel Esteves Cardoso, Público, 15.11.2009, p. 37). Pois é, mas numa notícia («Atirador mata três alunas numa escola amish dos Estados Unidos») do mesmíssimo Público de 3 de Outubro de 2006, assinada pela jornalista Isabel Leiria, lia-se: «A escola tinha apenas uma sala, frequentada por 27 alunos, do 1.º ao 8.º ano, da comunidade amish — cristãos evangélicos que vivem da forma mais simples e austera possível.» Se não está aportuguesado, não deveremos escrever como Miguel Esteves Cardoso — com maiúscula inicial, porque se trata de um adjectivo próprio, categoria que não existe na nossa gramática? No texto citado por Miguel Esteves Cardoso, a autora usou quinze vezes a palavra, sempre, naturalmente, com maiúscula.

[Post 2809]

Rectificação de erros no «Diário da República»

Não havia papel que chegasse

      José Manuel Meirim, docente de Informação e Documentação Jurídicas da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, escreve hoje no Público sobre erros e rectificação de erros no Diário da República e da lei que disciplina as rectificações. «Trata-se da Lei n.º 74/98, de 11 de Novembro, já objecto de alterações, a última das quais concretizada pela Lei n.º 42/2007, de 24 de Agosto. No n.º 1 do artigo 5.º afirma-se que as rectificações são admissíveis exclusivamente para correcção de lapsos gramaticais, ortográficos, de cálculo ou de natureza análoga ou para correcção de erros materiais provenientes de divergências entre o texto original e o texto de qualquer diploma publicado na 1.ª série do Diário da República» («A legislação a que (não) temos direito», José Manuel Meirim, Público, 15.11.2009, p. 37). Alguma vez terá sido publicada uma rectificação relativa ao erro legis artis, por exemplo? Duvido.


[Post 2808]

Arquivo do blogue