Ortografia: «gás pimenta»

Mostarda, pimenta...

      «Dois agentes ficaram feridos e um civil teve de ser manietado com recurso a gás pimenta» («Carro-patrulha apedrejado», M. C., Correio da Manhã, 16.09.2009, p. 13). Pois é, mas no dia 11 escreveram assim: «Durante a operação policial, a 13 de Maio deste ano, as equipas da 5.ª Esquadra de Investigação Criminal da PSP apreenderam a um dos suspeitos uma pistola da marca Taurus, calibre 6,35 mm, uma lata de gás-pimenta e um par de matracas em madeira com corrente de metal» («Seguranças do K batem e roubam», Henrique Machado, Correio da Manhã, 11.09.2009, p. 8). O Dicionário Houaiss regista gás de mostarda. Habitualmente, porém, lê-se gás mostarda. Por analogia, escrever-se-á então gás (de) pimenta.

Léxico: «gravata»

Tira de tecido que…

      «“O que ia atrás de mim fez-me uma gravata. O outro roubou-me logo a carteira e as chaves do carro”, recordou o taxista. Os dois ladrões saíram do carro e desapareceram num canavial. A GNR de Vialonga tomou conta da ocorrência, tendo José Marques necessitado de receber tratamento hospitalar» («“Um susto enorme”, Miguel Curado, Correio da Manhã, 16.09.2009, p. 13). Não são muitos os dicionários que registam esta acepção de «gravata». O sublime Dicionário Houaiss fá-lo: «golpe em que o atacante, posicionando-se atrás do adversário ou da vítima, lhe cinge o pescoço com o braço, sufocando-o».

Pontuação

Inimputáveis gramaticais

      «Fernando Pessoa é a partir de hoje tesouro nacional por determinação do Ministério da Cultura que publicou ontem em Diário da República o decreto-lei que assim designa o espólio do poeta de ‘Mensagem’» («Fernando Pessoa é tesouro nacional», Dina Gusmão, Correio da Manhã, 15.09.2009, p. 40). Para o Correio da Manhã, há vários Ministérios da Cultura. Uns declaram o espólio de Fernando Pessoa tesouro nacional, os outros sabe Deus o que fazem. Sim, tem razão, caro leitor, o fecho deste texto tem de ser este: será que os revisores entendem? Os jornalistas bem sabemos que não.

Concordância

Esmiuçar as faltas

      «Nos estúdios da SIC, Ricardo Araújo Pereira, em tom jocoso, foi avisando. Estava ali para entrevistar o primeiro-ministro José Sócrates, “não para o hostilizar”. Guardava o confronto para “os professores e os enfermeiros”. Mas na primeira entrevista de 11 minutos do ‘Esmiúça os Sufrágios’, ontem à noite na SIC, não faltou perguntas “marotas”» (“Gosto do humor ‘non sense’ deles”», Eugénia Ribeiro, Correio da Manhã, 15.09.2009, p. 43). Na notícia, faltaram os conhecimentos gramaticais. Falta sempre qualquer coisa.

Pontuação


Só um mas alegre

      Para o Correio da Manhã, a Juventude Social-Democrata (e o hífen, rapazes?) só tem um membro — e nem sequer é o presidente: «A versão original é de António Variações, mas a adaptação já vem das Europeias e é da autoria do militante da ‘Jota’, António Padez» («Variações na campanha», Correio da Manhã, 15.09.2009, p. 28). Será que os revisores entendem? Os jornalistas bem sabemos que não.

Léxico: «muar»

Ornejam mas não mordem


      Paulo Portas andou pelo Minho em campanha eleitoral. «Em Ponte de Lima, acompanhado de Daniel Campelo, Portas afirmou: “Só no CDS é que é possível o som de uma campanha ser tão natural e tão perto do trabalho, o muar das vacas”» («Cativar os agricultores», Correio da Manhã, 15.09.2009, p. 26). Até acredito que o líder do CDS tenha dito isso para se mostrar próximo e entendido. A estrita obrigação do repórter, ao transcrever as declarações de Paulo Portas, era corrigir o erro. Sim, o vocábulo existe — mas designa a voz dos equídeos, especialmente do burro. Muar é soltar zurros, azurrar, ornear, ornejar…

Crescente e crescendo

Broken music


      Na colectânea de intervenções de Manuela Ferreira Leite que a Antena 1 passou antes da entrevista que a líder do PSD acabou de dar a Maria Flor Pedroso, apareceu a possível futura primeira-ministra de Portugal a afirmar que o Dr. Alberto João Jardim tem vindo a ter «votações cada vez mais crescentes». Não bastava, ao «bom povo da Madeira», que as votações fossem «crescentes», tinham de ser «cada vez mais crescentes».
      E por falar em crescente. Recentemente, o revisor antibrasileiro chamou-me a atenção para um destaque de uma peça. «Veja: está aqui “em crescimento”, mas habitualmente os jornalistas escrevem “em crescendo”. Em vez de um nome, um verbo!» (E escrevem mesmo: «“Ela tem melhorado muito e tem-no mostrado. Todo o seu jogo foi em crescendo”, concluiu a francesa sobre a vitória de Vesnina.») Bem, nem o étimo era um verbo, pois em italiano também é um substantivo masculino invariável, com o mesmo significado («Graduale intensificazione del suono, passaggio dal piano al forte.»), e isto logo no início do século XIX. Com revisores assim, talvez não precisemos de ser castigados com maus jornalistas.

«Correr atrás do prejuízo» I

Só prejuízo

      Sim, também me divirto (se não é crime). Por exemplo, quando leio a expressão correr atrás do prejuízo, tão do agrado dos jornalistas desportivos: «A equipa do Sporting não está a fazer um bom início de época e mais uma vez sentiu muito a pressão de ter de ganhar, pois está a correr atrás do prejuízo.» João Batista Gomes, na página 52 da sua obra O Humor do Português (Manaus: Linguativa, 2007), não tem dúvidas: «É expressão popular e sem sentido. Por uma questão de bom senso, não se deve “correr atrás de prejuízo”. Deve-se correr atrás de vantagem, atrás de emprego, atrás de mulheres (dependendo do preparo físico).» J. Milton Gonçalves não deixa de a citar na obra Gafes Esportivas (São Paulo: IBRASA, 2006). Para ser brando, só digo que me parece expressão bem estulta.

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