Ortografia: «alto-responsável»

Vamos uniformizar

«E contou como os atentados foram planeados por Zaki-ur-Rehman, um alto-responsável do grupo paquistanês Lashlar-e-Toiba (LeT), como foi recrutado e passou meses em campos de treino para aprender a disparar, e como, tal como outros terroristas, aprendeu hindi com um homem chamado Abu Jindal» («Suspeito de Bombaim declara-se culpado», Francisca Gorjão Henriques, Público, 21.07.2009, p. 17). Alto-responsável, à semelhança de alto-comissário e alto-representante. Nem todos os jornais estão a grafar assim: «O presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, rejeitou o programa de governo do Hamas, afirmou ontem um alto responsável palestiniano» (Correio da Manhã, 12.3.2006, p. 40).

Sobre «lapidação»

Mas quais diamantes?!

«Um eventual regresso ao país teria como resultado ser acusada de adultério, logo, ser condenada à flagelação e à morte por lapidação, de acordo com a Charia (lei islâmica)» («Londres dá asilo a princesa saudita», L. R., Diário de Notícias, 21.07.2009, p. 25). Sim, as pessoas vão aprendendo, mas como o termo «lapidação» é comummente usado noutra área completamente diferente, prefiro a redacção de Jorge Heitor, no Público: «Uma vez aqui, solicitou asilo, para não vir a ser chicoteada nem lapidada (apedrejada até à morte)» («Princesa saudita recebeu asilo no Reino Unido para não ser morta à pedrada», Jorge Heitor, Público, 21.07.2009, p. 19).

Léxico: «tubo-ladrão»

O bom ladrão

«Desidério Silva [presidente da Câmara Municipal de Albufeira] salientou que, apesar de a ruptura se ter verificado ao domingo, “foi possível mobilizar cinco limpa-fossas, a trabalhar em permanência, impedindo que o efluente chegasse à praia”. Por outro lado, acrescentou, na zona existe um [sic] “um tubo-ladrão, que desagua a cerca de 50 metros da costa — uma válvula de escape para o mar”» («Praias de Olhos de Água e Maria Luísa, no concelho de Albufeira, interditas a banhos», Idálio Revês, Público, 21.07.2009, p. 27). As banheiras, os lavatórios, os aquários, os frigoríficos, por exemplo, costumam ter um tubo-ladrão. É como que uma válvula de escape, a que se deu este nome bem sugestivo, que os dicionários ignoram. A designação também é usada correntemente no Brasil.

Verbo «haver»

Acontece

      A emissão de anteontem do programa A História Devida, na Antena 1, teve como convidado o escritor e guionista João Tordo, de que já aqui falei duas vezes. E devia ter falado uma terceira, para elogiar a humildade com que uma vez o ouvi falar do trabalho do editor (embora se tenha esquecido dos revisores). E fez bem em dizer bem, pois se escrever como fala, editores e revisores têm muito que fazer. Anteontem, lá escapou um «haverão»: «[…] porque acho que haverão poucos portugueses que tenham tentado fazer este curso em Nova Iorque de Escrita Criativa […]». Se tivesse sido a empregada aqui do condomínio (a tal que dizia ter uma dor «asiática»), com a 4.ª classe mal tirada, não era de surpreender — mas um escritor? Curiosamente, a história, ambientada em Nova Iorque, de João Tordo que foi lida no início do programa tem como personagem um «afro-americano grande e desajeitado».

Léxico: «andragogia»

Não havia necessidade

«As sessões constituíram um acto raro e positivo de andragogia política. Este termo apela para a educação do ser humano adulto, uma vez que pedagogia etimologicamente se refira apenas a crianças» («Andragogia das jotas», D. Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lisboa, Correio da Manhã, 17.07.2009, p. 2). Embora tenha sido um professor alemão, Alexander Kapp, a forjar em 1833 o termo, foi o pedagogo (ou andragogo?) norte-americano Malcom Knowles (1913−1997) quem divulgou o termo andragogia (a partir de andros, «homem», e agogus, «conduzir, guiar; educar»).

Plural de «sabe-tudo»

Essa é que é essa

Um leitor, afirmando que nem nos dicionários (para sermos precisos, o Dicionário Houaiss — mas é dos poucos — regista-a, dizendo-a invariável) nem na Internet encontra solução, quer saber qual o plural de sabe-tudo. Ainda acrescenta: «E porque será que neste caso os dicionários se calam?» Não há-de ser, suponho, pela complexidade da questão. Sendo composto por duas palavras invariáveis (verbo + pronome indefinido), nenhum elemento pluraliza. Logo, o sabe-tudo/os sabe-tudo. Em inglês diz-se know-it-all ou know-all; em espanhol, sabelotodo (que, pese embora pluralizar em sabelotodos, é comummente usado como sendo invariável).

Sobre «afro-americano»

Imagem: http://www.boston.com/

Comparemos



      «Nascido a 19 de Outubro de 1936, numa família de 17 filhos, na América de Franklin D. Roosevelt, o afro-americano serviu duas vezes na Marinha antes de terminar o curso no Seminário Teológico Baptista de Nashville» («O conselheiro rebelde de Martin Luther King», Diário de Notícias, 26.12.2008, p. 37). «Num segundo, este afro-americano casado, com dois filhos, viu-se pai de 14 crianças» («Ele acredita que é o pai, ela nega», Diário de Notícias, 26.02.2009, p. 25). «Afro-americana vai liderar saúde pública nos EUA» (Diário de Notícias, 14.07.2009, p. 52). Na tradução de livros não me surpreende o uso do termo «afro-americano», mas já é diferente na imprensa. Foi o termo que a vaga do politicamente correcto impôs nos Estados Unidos. É uma convenção a tentar substituir outra convenção. Tenho é sérias dúvidas de que todos os leitores, em Portugal, entendam exactamente do que se trata. De resto, como definem o termo os dicionários de língua portuguesa? O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora afirma que «afro-americano» é o «que diz respeito a americano de ascendência africana». Deve ser por isso que Maria Teresa Thierstein Simões-Ferreira Heinz, mulher do ex-candidato democrata à Casa Branca John Kerry, por ter nascido em Moçambique, se definiu como afro-americana. Veja-se este texto meu sobre o uso equívoco da palavra «africano».

Cores (II)

Por ordem

Amorado adj. Da cor da amora.
Anil m. A cor azul.│adj. De cor azul; da cor do anil.
Calibado adj. Diz-se do animal ou de qualquer das suas partes que seja da cor do aço.
Cárdeo adj. De cor de cardo, lívida, arroxeada.
Cróceo adj. Poét. Que tem cor de açafrão; amarelo, dourado.
Garço adj. De cor verde-azulada; esverdeado.
Glauco adj. Verde-mar; esverdeado.
Gris m. A cor cinzenta.
Groselha adj. Que tem a cor da groselha, vermelho-acerejado.
Gualdo m. Amarelo, amarelado. O m. q. gualde.
Havana adj. Castanho-claro.
Isabel adj. De cor amarelo-esbranquiçada.
Miniano adj. De cor vermelha muito viva.
Múrice adj. Poét. Púrpura.
Níveo adj. Que tem o aspecto, a brancura da neve.
Ostrino adj. Que tem a cor ou a natureza da púrpura.
Pagiço adj. Diz-se de uma cor parecida com a da palha seca.
Rom m. Espécie de tinta amarela.
Rosura f. Cor-de-rosa, cor rosada.
Ruivo adj. Amarelo-avermelhado; vermelho-escuro; louro-avermelhado.
Rútilo adj. Poét. Afogueado; da cor do ouro muito viva.
Zabelo adj. Tirante a amarelo-claro.
Zinzolino adj. e m. Designativo e designação de uma cor roxa, tirante a vermelho.

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