Sobre «espoletar»


Deixem lá a espoleta

Com os seus espoletares e despoletares, muitos tradutores parecem militares frustrados. Porque é que não usam simplesmente um bom, e mais adequado, sinónimo? Na maioria das circunstâncias, prefiro àqueles os verbos desencadear ou provocar. «Era o terror daqueles que tinham de lidar com ele; fúrias incontroláveis eram espoletadas por comentários aparentemente inofensivos ou até por olhares» (Frederico, o Grande, Nancy Mitford. Lisboa: Edições Cotovia/Os Livros da Raposa, 2008. Tradução de Cecília Rego Pinheiro, p. 20). Como é que, ao fim de tantos anos de debate sobre a questão, falantes com tais credenciais ainda andam a patinar?

Tradução: «tabagie»

Fumo de palha

«O seu horário [de Frederico I da Prússia] era o de Luís XIV até à hora do sarau em Versalhes, altura em que ele retornava aos modos germânicos e mantinha uma tabagie, fechando-se numa pequena sala fumarenta para beber cerveja, com alguns amigos fumadores de cachimbo» (Frederico, o Grande, Nancy Mitford. Lisboa: Edições Cotovia/Os Livros da Raposa, 2008. Tradução de Cecília Rego Pinheiro, p. 17). Vejam como o Dicionário Francês-Português da Porto Editora traduz «tabagie»: «sala cheia de fumo». Parece-me que foram buscar o sentido pejorativo do vocábulo («Endroit, pièce où l’on fume beaucoup, où la fumée et l’odeur du tabac stagnent», in TLFI). Em português dir-se-ia mais adequadamente sala de fumo. Como se sabe, «fumo» também significa «tabaco».

Léxico: «porfiria»

Uma doença de reis

Ignoro se a probabilidade de o leitor conhecer alguma mulher de nome Porfíria é maior do que a de conhecer a doença porfiria, mas Leonard Mlodinow saberia. Fiquei recentemente a saber da sua existência numa biografia: «Infelizmente, o Rei Frederico Guilherme [1620−1688], em quem havia qualidades excelentes e que tanto fez pelo seu país, estava doente. Tal como Jorge III, tinha uma doença hereditária, predominante entre os descendentes de Maria, Rainha dos Escoceses, que leva a vítima à loucura com sofrimentos prolongados e terríveis. É actualmente conhecida como porfiria e consiste numa desordem do metabolismo; os sintomas são algumas das mais horríveis desgraças com as quais a humanidade é atormentada — gota, hemorróidas, enxaquecas, abcessos e furúnculos, e também dores de estômago aterradoras e inexplicáveis» (Frederico, o Grande, Nancy Mitford. Lisboa: Edições Cotovia/Os Livros da Raposa, 2008. Tradução de Cecília Rego Pinheiro, p. 20). Em francês diz-se porphyrie e em inglês, porphyria.

«Uigures» e «uígures»

Uigures e iogurtes

O Diário de Notícias grafa sempre, e creio que é a única publicação a fazê-lo, com acento agudo a palavra uígures. «A polícia chinesa matou ontem dois uígures em Urumqui, capital do Xinjiang, onde na semana passada pelo menos 180 pessoas morreram devido à violência étnica nesta província, a maior da China» («Polícia mata dois uígures na capital do Xinjiang», Diário de Notícias, 14.07.2009, p. 22). Todas as outras, a começar pelo Público, grafam sem acento: «Quatro uigures de Guantánamo transferidos para as Bermudas» (D. F., Público, 12.06.2009, p. 17). Também os dicionários grafam sem acento. O Diário de Notícias grafa uigur para o singular, e não uigure, como regista o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. É um termo que entrou recentemente no dia-a-dia noticioso, pelo que é natural que haja algumas confusões, como a do ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Bernard Kouchner, que numa entrevista à France Info, na semana passada, confundiu os uígures (ouïgours, em francês) com iogurtes (yoghourts, em francês).

«Às próprias custas»

João Marcelino, é consigo


      Pela primeira página do Diário de Notícias de hoje, ficámos a saber que os agentes da PSP e os militares da GNR estão a comprar coletes e algemas a prestações. Eis um excerto: «Os agentes da PSP e os militares da GNR estão a comprar, às próprias custas, equipamento básico de protecção pessoal que não é garantido pelos comandos.» Se erros deste calibre já vêm para a primeira página, o descalabro atingiu este outrora jornal de referência.



Verbo «convir»

Isto diz-lhe respeito, Raul

No programa de informação Este Sábado, na Antena 1, com Rosário Lira, o jornalista Raul Vaz, a propósito dos novos eurodeputados portugueses, disse: «Alguns prometem voltar cedo se o resultado das eleições for aquele que mais convir.» O verbo convir (e os verbos avir, convir, desavir, entrevir, intervir, provir, sobrevir…) conjuga-se como o verbo vir. Logo, o futuro imperfeito do conjuntivo é convier (convier, convieres, convier, conviermos, convierdes, convierem). Se todos temos de ter cuidado com a forma como escrevemos e falamos, muito mais cuidado terá de ter um jornalista. Espero que a dúvida não tenha que ver com o modo. O modo conjuntivo indica a eventualidade e a possibilidade, o que se adequa ao desconhecimento que se tem do futuro. Neste caso, o resultado das eleições. O erro talvez advenha do facto de o futuro imperfeito do conjuntivo e o infinitivo impessoal dos verbos irregulares, e este é-o, terem formas diferentes, ao contrário do que sucede com os verbos regulares, que têm formas idênticas naqueles tempos.

Sobre o Ocidente

Evidentemente

O filósofo Desidério Murcho perguntou anteontem se era só ele «ou o leitor também considera uma tolice que se fale sistematicamente do ocidente (às vezes até com maiúscula!), quando na verdade se quer falar apenas (de partes) da Europa e dos Estados Unidos da América, esquecendo-se 1) a África, que tem países mais ocidentais do que muitos países europeus, e 2) o Japão, que lá por estar no oriente é mais parecido com a Europa e os Estados Unidos do que muitos países africanos? Não seria melhor deixar de usar um termo geográfico quando temos em mente uma classificação política e económica e social e cultural?» («Tento na língua», 11.07.2009, aqui).
Decerto que a pergunta também é para mim, porque sou leitor do filósofo, e por isso vou responder. Não, não acho. E muito me apraz que não tenha depreciado desta vez a insuficiência da língua portuguesa. É que esta questão do Ocidente (ah, sim, com maiúscula, evidentemente) diz respeito a muitas línguas. Ocidente, no primeiro desvio que sofreu em relação à acepção puramente geográfica, começou por significar, por metonímia, a civilização e os povos que habitavam os países da Europa situados no Oeste do continente. Passou depois, em política internacional, a designar-se por Ocidente o conjunto que abrange os países capitalistas da Europa Ocidental e os Estados Unidos, por oposição aos países do Leste europeu, de economia socialista e à China Popular. Por vezes, surpreendemos o significado de Estado-membro da NATO (ou OTAN, se quiserem). A propósito de regime político, o Cambridge Advanced Learner’s Dictionary já apresenta a seguinte definição: «the West (COUNTRIES) noun [S] North America, those countries in Europe which did not have communist governments before the 1990s, and some other parts of the world». Ponha Desidério Murcho nestas some other parts of the world o Japão e demais países que se lhe afigurem ficar bem ali. E também deixo uma pergunta: e íamos substituir Ocidente por que termo menos controverso e adequado?

«Xixi» e «chichi»

Eu faço chichi


      «É como poder fazer xixi ou falar português depois de muito tempo. […] Falta fazer o elogio do sedentarismo. É o indesporto radical do nosso tempo. Define-nos. Delicia-nos. Sentamo-nos e sentimo-nos bem. Sentemo-nos pois» («O elogio do sentar», Miguel Esteves Cardoso, Público, 16.06.2009, p. 31). Alguns etimologistas de meia-tigela dir-nos-ão (lembrem-se dos Urales) que em espanhol é que é chichi — e é, mas em espanhol chichi é «vulva». Carlos Marinheiro, no Ciberdúvidas, assegura que «em Portugal escreve-se chichi, quando se trata de urina. No Brasil prefere-se, na mesma situação, xixi». Joseph M. Piel, nos Novos Ensaios de Etimologia Portuguesa, também escreve «chichi» e diz que é termo infantil. Em francês também se diz faire du (des) chichi(s), só que é outra coisa: é fazer cerimónia, ter modos afectados. E às pessoas afectadas, que em Portugal não temos, os Franceses (que alguns jornalistas, num assomo de parvoíce, dizem «gauleses») chamam gens à chichi. Curiosamente, os etimologistas franceses dão como étimo provável o redobro do radical onomatopaico tchitch, que exprime a ideia de pequenez.

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