Urais ou Urales?


Ah, isso!...

      «Os líderes das quatro maiores economias emergentes vão dar sinal ao mundo da vontade crescente de se fazerem ouvir em uníssono, numa reunião ao mais alto nível hoje na cidade de Iekaterinburg, nos Urales russos» («Brasil, Rússia, Índia e China vão afinar a uma só voz nos Urales», Dulce Furtado, Público, 16.06.2009, p. 16). Este título do Público foi vilipendiado, de uma forma geral com frases cheias de erros, em toda a Internet. Contudo, esta variante, Urales, vai-se encontrando por aqui e por ali: «Já ninguém tem ou cultiva um sentimento de pertença, ao mesmo tempo afectiva e intelectual, a essa realidade matricial que se estende do Atlântico aos Urales» («Euroanalfabetos», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 13.05.2009). Em relação a esta matéria, concordo com F. V. Peixoto da Fonseca, que escreveu: «A forma correcta é Urales, embora, pelo menos antigamente (quando eu era muito novo) correntemente se usasse Urais, como ainda prefere o Prof. José Pedro Machado, no Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa. Assentando a palavra no singular Ural (através do francês Oural, de origem russa), sou de opinião que o plural não deve ser Urais, por não se tratar de termo vernáculo, como tal e tais, qual e quais, animal e animais, etc., com plural etimológico, em que o -l- latino intervocálico caiu por evolução fonética, visto estar entre vogais.»
      Já não me lembro como se escrevia na Vida Soviética (que eu lia com tanta avidez como lia a revista da John Deere, fiquei especialista teórico em forragens, ou as obras e adaptações de Adolfo Simões Müller), mas ia jurar que era Urales, o que seria natural, e foi a forma que sempre preferi. Argumentar-se que em espanhol é que é Urales é um completo disparate. Diria antes que também é a forma usada em espanhol, o que é diferente.

Actualização em 15.05.2010


      «Eram conhecidos pela palavra siberiana chaman e, no século XVIII, foram encontrados pelos exploradores por toda a parte desde os Urales a Tchuktchi, no Extremo Oriente» (A Filha de Rasputine, Robert Alexander. Tradução de Óscar Mascarenhas. Lisboa: Círculo de Leitores, 2007, p. 232).

«Incrementar de» e outras coisas

A queda dum anjo

      Um leitor pede a minha opinião sobre duas frases na mais recente crónica do Nuno Crato no jornal Expresso. Ei-las: «Dissemos ainda que a expressão ‘passeio aleatório’ designa um conceito científico importante, cujo seu estudo tem ocupado matemáticos, físicos e outros cientistas.» «Em cada momento, a variável X — a posição do cavalheiro — é incrementada ou subtraída de uma unidade, conforme dê um passo em frente ou a trás.»
      A construção «cujo seu» não tem quase nada que se lhe aponte — só que o pronome relativo cujo seguido do pronome possessivo adjunto seu é assaz anómalo. E de notório sabor arcaizante. Nuno Crato parece Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda a falar no Parlamento. «Um dia, porém, quando elle saia da festividade de S. Sebastião, cujo mordomo era, deteve-se no adro, onde o rodearam os mais graudos lavradores da sua freguezia e das visinhas.» E mais: a vírgula antes de «cujo» está incorrecta, já que a oração introduzida por este pronome, sendo inequivocamente uma relativa explicativa, não precisa de pontuação, dado o valor adjectival de «cujo».
      «Incrementada ou subtraída de» é também construção incorrecta, como já vimos aqui a propósito da construção paralela «aumentar em/de»: «Rodrigo de Sá Nogueira, na obra Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem (Lisboa: Clássica Editora, 4.ª ed., 1995, p. 65), escreve: “Outra construção condenável é: ‘aumentar em 50%’. — Leite de Vasconcelos, Lições de Filologia Portuguesa, p. 374 (2.ª ed.), diz: “b) Várias preposições: Preposição de. Erros: aumentar de um metro, e mais velho de um decénio, por aumentar um metro, e mais velho um decénio, ou um decénio mais velho; peço-lhe de vir por peço-lhe que venha…”»
      Quanto, finalmente, ao advérbio, só posso crer que foi lapso, pois que se escreve «um passo em frente ou atrás».

Interjeição «aha»

Aha, apanhei-vos!

      O agá não se aspira, aprendemos na escola primária. Conheci uma velhota, ex-professora de Inglês, entretanto já falecida, que pronunciava o agá do meu nome, o que desencadeava sempre em mim um sorriso prestes a rebentar em riso, que ela atribuía à minha simpatia. Ultimamente, porém, graças aos filmes, começou a usar-se a interjeição inglesa habitualmente grafada aha. «Aha, interjection, Middle English: Depending on manner of utterance, used to express surprise, pleasure, irony, derision, mockery, contempt, or triumph» (Intel Threading Building Blocks, James Reinders. Cambridge, MA: O’Reilly Media, 2007, p. 177). Sobre a pronúncia não há dúvidas: ouço sempre os falantes portugueses, que também terão aprendido, como eu, que o agá não se aspira, aspirarem o agá. Experimentem agora não ler o agá, e dir-me-ão se ainda estamos perante a mesma interjeição. Mas como se escreve em português? Vejamos: «“Como é que se chama aquela mulher que vem na minha direcção? Ora bem, vamos lá a ver… Ah, ha! SUSIE!”» (Onde Deixei os Meus Óculos?, Martha Weinman Lear. Tradução de Jorge Beleza. Porto: Porto Editora/Ideias de Ler, 2008, p. 232). «Ah, ha»? Como é que uma interjeição, aha (às vezes também grafada a-ha), se transforma, numa mitose fónico-gráfica, em duas interjeições, têm a bondade de me explicar? Só vislumbro uma solução: grafar à inglesa, pois que também pronunciamos à inglesa.

Actualização em 16.07.2009
      Eis uma tradução em que surge a interjeição: «Aha! — os livros não voam por sua livre vontade — quem os arranjou?» (Frederico, o Grande, Nancy Mitford. Tradução de Cecília Rego Pinheiro. Lisboa: Edições Cotovia/Os Livros da Raposa, 2008, p. 47).

Actualização em 16.11.2009

      E numa crónica jornalística: «A primeira resposta é: aha! O primeiro-ministro não pode querer ser uma pessoa normal (para processar jornalistas) e uma pessoa especial (para ter regras privilegiadas em escutas) ao mesmo tempo. Isso não está na lei, mas está na moral da República; ao contrário das antigas monarquias, a República não dá privilégios gratuitos; com esses privilégios tem de vir uma reserva especial de comportamento, quer ela esteja descrita na lei ou não»(«De Sócrates a Maquiavel», Rui Tavares, Público, 16.11.2009, p. 40).

Se há «tai», para quê «thai»?

Somos portugueses

      «De ascendência portuguesa [Pathorn Srikaranonda de Sequeira], é hoje director da banda pessoal do rei da Tailândia. Entre as suas obras conta-se uma oratória baseada em palavras de Camões. Nos seus planos está uma ópera em português e em ‘thai’» («Evocar ecos da História através da música», Nuno Galopim, Diário de Notícias/DN Gente, 11.07.2009, p. 9). Nuno Galopim anda há semanas a arreliar-nos (a foder-nos o juízo, talvez dissesse — diria? — Miguel Esteves Cardoso) com o «thai». Claro que, sem nunca primar pela defesa acurada do idioma pátrio, também não escreve Thailândia, como, em coerência, devia fazer. Veja o Houaiss: «tai adj.s.m. LING 1 diz-se de ou família de línguas do grupo tibeto-birmanas faladas no Sudeste Asiático (Sul da China, Laos, Tailândia e Myanmar) 1.1 diz-se de ou língua oficial da Tailândia, a mais importante desse grupo; tailandês.»

Léxico: «criptomnésia»

Boa desculpa


      «Segundo, porque não há dúvida de que o plágio não intencional existe. Há até uma palavra para isso: criptomnésia. Uma palavra fantástica. O leitor poderá conhecê-la. Eu não conhecia até a ter encontrado no meu fiel Webster’s:Criptomnésia: surgimento de imagens da memória na consciência que não são reconhecidas enquanto tal, parecendo criações originais”» (Onde Deixei os Meus Óculos?, Martha Weinman Lear. Tradução de Jorge Beleza. Porto: Porto Editora/Ideias de Ler, 2008, p. 108). Então eu recorro ao meu fiel Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado: «Criptomnésia, s. f. Faculdade em virtude da qual se conservam no espírito, despercebidas, noções que depois se podem revelar; memória inconsciente.» Também se lhe dá o nome de memória implícita. Alguns casos de suposto plágio poderão dever-se, na realidade, à criptomnésia (Martha Weinman Lear refere mesmo um caso de autocriptomnésia). Há imensos estudos sobre a criptomnésia. Há até estudos de criptomnésia social. Pesquisem, é um mundo que se abre.

«Ao mesmo tempo em que»?

Falta de ouvido

      «“A árvore celebra o maior criminoso da história da humanidade. Nós não precisamos de um símbolo nazi mesmo no centro de Jaslo”, precisou [Maria Kurovska, presidente da Câmara de Jaslo] a um jornal polaco, ao mesmo tempo em que um dos vereadores da câmara municipal da cidade, Krzystof Czelusnik, saiu em defesa da dita árvore» («Ameaçada árvore que foi plantada para Adolf Hitler», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 9.07.2009, p. 26). Podia ser, mas não é assim: se dizemos, e bem, no tempo em que os animais falavam, não devemos dizer, porque está mal, ao mesmo tempo em que uns acertam, outros erram. É um erro frequentíssimo, que parece resultar da confusão entre a estrutura das duas locuções, tanto mais que ambas exprimem uma relação temporal.

Tradução: «coroner» (I)

Imagem: http://doctorbulldog.wordpress.com/

Inspecção de si mesmo


      «Há muitos anos escrevi um perfil para o The New York Times Magazine sobre o homem que era então o coroner-chefe de Nova Iorque, o lendário Milton Helpern» (Onde Deixei os Meus Óculos?, Martha Weinman Lear. Porto: Porto Editora/Ideias de Ler, 2008. Tradução de Jorge Beleza, p. 50). Embora muitas vezes se afigure ser a única solução, ficar metade da palavra em inglês e metade em português não me parece boa ideia, e já aqui o disse mais de uma vez. Na obra citada ainda há mais: entre a palavra «coroner» e o hífen ainda há uma chamada de nota de pé de página (o que não consigo reproduzir aqui, por limitações do Blogger). Nesta, o tradutor escreve que «coroner» é o «magistrado encarregado de investigar casos de morte suspeita». Um reparo: não teria sido preferível escrever «chief-coroner», cargo que de facto existe? Assim, a nota de rodapé teria a redacção ligeiramente alterada. Quanto à nota: não sei se magistrado explica bem esta figura do sistema legal norte-americano. (O Dicionário Inglês-Português da Porto Editora regista apenas para coroner: «juiz de instrução».) Vejamos. Em 1950, por exemplo, dos 70 coroners que havia no Wisconsin, 33 eram morticians, isto é, agentes funerários. Talvez seja melhor dizer que coroner é o funcionário público, habitualmente eleito, que investiga todas as mortes que se suspeitem não sejam naturais. Por outro lado, se é verdade que Milton Helpern (1902―1977) aparece muitas vezes referido como coroner, o certo é que Nova Iorque aboliu este sistema em 1915 (e já tinha sido abolido no século XIX noutros Estados), instituindo em seu lugar o de medical examiner, e para exercer este é preciso ser-se, pelo menos em princípio, médico, patologista ou médico-legista. E Milton Helpern era licenciado em Medicina. É que o medical examiner faz autópsias (palavra, a propósito, bem infeliz, pois que significa «olhar-se a si próprio». Ora, na autópsia não olhamos para nós próprios. Melhor será dizer «necropsia»). Milton Helpern, uma autoridade mundial, tornou-se chief medical examiner em 1954. O cargo de coroner, que tinha sido criado no sistema legal inglês em 1194, foi levado para a América. Não, não me enganei: é do tempo pré-normando. Originalmente, designava-se por custos placitorum coronæ, e daqui proveio, através de crowners, o vocábulo coroner.


«Showneral»?

Funeral da língua

      «Os milhares de fãs que acorreram à Baixa de Los Angeles levaram a peito o tema de showneral anunciado desde a véspera: vestidos de luto, os que privilegiavam um sóbrio tributo, ou, os que mais investiram na vertente do show, imitando o ídolo, com óculos espelhados e casacos de couro vermelho» («Um showneral para dizer adeus a Jackson», Rita Siza, Público, 8.07.2009, p. 23). Creio que foi na imprensa brasileira que li a amálgama pela primeira vez. Catarina Carvalho teve mais juízo (não há-de ser por acaso que é subdirectora do Diário de Notícias) e escreveu: «A morte de Michael Jackson está a ser uma das mais mediáticas dos últimos anos. Teve direito a especulações policiais, histeria de fãs, e até um espectáculo-funeral» («Michael Jackson, um caso de estudo de exploração familiar», Catarina Carvalho, Diário de Notícias, 11.07.2009, p. 8).

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