Topónimo: Pedralvas


Apressados

      Já aqui disse que da janela da minha sala vejo Monsanto. Alguns jornalistas de aviário dizem que é «o Monsanto». Agora, com o caso das cinco crianças do externato de Lisboa que contraíram gripe A, ouve-se com grande frequência, na rádio e na televisão, que o colégio se situa na Pedralva. Aqui em Benfica são as Pedralvas, e só jornalistas desleixados não verificam o que escrevem. Tomou o nome da antiga Quinta das Pedralvas, doada pela proprietária no início da década de 1970 à Câmara Municipal de Lisboa com a condição de os terrenos serem utilizados para habitação e fins sociais. A habitação está à vista, quanto aos fins sociais, só se forem as hortas arrasadas pelas retroescavadoras para construírem a CRIL.
      Curiosamente, são dois casos de topónimos compostos por aglutinação: monte + santo e pedra + alvas, respectivamente. Em Minas Gerais, no Brasil, é que há um município chamado Pedralva. Até 1941, chamava-se Pedra Branca de Santa Catarina, pois na serra que divide este município do de Natércia abundam pedras muito brancas.

Ortografia: «calças-tubo»

Ver-se em calças pardas

      «Ele [Pep Guardiola] gosta de usar cabelo curto — aconselhável a quem cedo chegam as “entradas” — calças-tubo e gravata fininha, tudo de cores sóbrias que revelam a paixão pela vida mas sobretudo pela elegância e pelo comedimento» («Hugo Boss, Armani e gravatas fininhas», Leonor Moreira, Notícias Sábado, 6.06.2009, p. 28). É mais provável terem já lido sem hífen, «calças tubo», mas correcto é com hífen. Calças-tubo são as calças justas em baixo. Foi na década de 1960 que o estilista francês, engenheiro civil de formação, André Courrèges (n. 1923) lançou esta moda feminina, o pantalon tube, depois adoptada também pelos homens. O inglês ficou a perder, pois é mais longa a expressão: tube-shaped trousers. E a propósito deste estilista também ter usado o corte em viés (isto é, contra o fio do tecido) nas calças, lembrei-me das calças de ganga com costuras torcidas: «E é o caso da Levi’s Engineered Jeans, um modelo da conhecida marca de calças de ganga com as costuras torcidas (twisted), que se inspirou no estilo suburbano do “Black Label Bicycle Club” (organização internacional de praticantes de saltos e duelos com bicicletas)» («Calças das costuras tortas promovem arte», P. B., Diário de Notícias, 26.05.2009, p. 47).

Concordância

Não ouviu mal, não

      A expressão era human decision making, que o tradutor entendeu traduzir por «tomada de decisões humanas». Faz lembrar a expressão (deturpada diariamente, ainda anteontem a ouvi na Antena 1, por político e jornalistas) «armas de arremesso político». Como analisou com perspicácia Adriana Freire Nogueira no seu A Senhora Sócrates, «arremesso é o determinativo de armas e são elas que indicam o género e o número do eventual adjectivo ou o número do verbo». «Portanto, se haveria de haver uma concordância era com armas e não com arremesso.» Logo, armas de arremesso políticas. Logo, tomada de decisões humana. E, noutra ordem, para ver como está correcto: armas políticas de arremesso e tomada humana de decisões.

«Arrebatar», de novo

O licitador arrebatado

      «“The successful bidder can be proud to know that the 1973 Airbag Chevy Impala appeared on national television and at government hearings, and served as a catalyst for encouraging the mass adoption of airbags that have saved countless lives”» («Bonhams Brings World’s First Production “Airbag” Car to Greenwich in June», in www.bonhams.com). Como é que acham que na imprensa portuguesa se traduziu aquele bidder usando um verbo? Arrebatar, muito bem, já pensam como alguns jornalistas — mal. «“Por outro lado, quem arrebatar este artigo tornar-se-á o proprietário de um veículo que apareceu na televisão e foi o tema de debates governamentais, bem como um dos catalisadores da adopção dos airbags pela generalidade dos produtores automóveis”» («Um automóvel que marcou a história», Luís Filipe Rodrigues, Notícias Sábado, 6.06.2009, p. 70). A tontice está a alastrar.

O elemento «contra-»

É mais UNC

      «Dois agentes da PSP de Lisboa foram presos na última semana pela Unidade Contra-Terrorismo da Judiciária, suspeitos de terem roubado dez quilos de ouro a um empresário, na zona de Queluz, e 230 mil euros em dinheiro, em Braga, a um construtor civil» («PSP presos por roubo de ouro e dinheiro», H. M., Correio da Manhã, 5.07.2009, p. 14). Bem, em francês sim: Réseaux de coordination du contre-terrorisme et d’information sur la santé (RCCIS). Já aqui sugeri mais de uma vez: se a designação é incorrecta, devemos corrigi-la. Neste caso, o elemento de formação de palavras contra- solda-se ao elemento seguinte, como em «contratorpedeiro», por exemplo. Na página da Internet da Polícia Judiciária lá está: «A Unidade Nacional Contra-Terrorismo, designada abreviadamente pela sigla UNCT». E a propósito: raramente vejo bem escrito o advérbio contranatura: ora aparece grafado «contra-natura» (como neste texto de Daniel Oliveira) ora «contra natura». O primeiro, já vimos, é incorrecto; o segundo é puro latim, e, sendo assim, grafe-se em itálico. Contra natura é expressão latina que significa «contra a Natureza». Voltando à PJ, devia ser Unidade de Contraterrorismo ou Unidade contra o Terrorismo, porventura melhor português. E ainda melhor: Unidade de Combate ao Terrorismo.

Actualização em 15.11.2009

      «McChrystal assumiu o comando em 2003, no início da guerra no Iraque, e quando o país entrou numa espiral de violência sectária e atentados a unidade liderou as operações de contraterrorismo, em colaboração com a CIA e outras agências de informação» («McChrystal, o guerreiro furtivo que quer ganhar o Afeganistão», Ana Fonseca Pereira, Público, 15.11.2009, p. 18).

«Exonerating evidence»

À falta de melhor     


      «Mesmo sem assumir possíveis processos, Rogério Alves deixa entender o que pode acontecer no futuro, ao avisar que “não foram encontrados indícios incriminatórios contra os McCann, o que levou ao encerramento do processo pelo Procurador-Geral da República, portanto os que afirmam o contrário devem estar agora pensar em como salvar a face”» («Investigação ao desaparecimento “dificilmente” será reaberta», Pedro Vilela Marques, Diário de Notícias, 4.08.2008). Corresponde ao inglês incriminating evidence. É questão simples e a sua frequência de uso é elevada. E o antónimo, exonerating evidence, como se diz em português? Se se tratar de uma tradução e os termos ocorrerem juntos («exonerating and incriminating evidences»), melhor será traduzir por «indícios a favor e (indícios) contra».

Léxico: «meleira»

Bons vírus

      «Com um investimento de 200 mil euros, foi ontem inaugurada a primeira central meleira da Beira Baixa» («Nova central meleira», Correio da Manhã, 5.07.2009, p. 27). A indústria situa-se em Queixoperra, no concelho de Mação. Sabiam que há em Mação cerca de 11 mil colmeias, com uma produção média de mel de 20 a 25 quilos cada? E sabiam que o adjectivo «meleiro» não está registado em nenhum dicionário? Como substantivo, sim, meleiro, o vendedor de mel, está registado. E sabiam que ao prego de pau para pregar o fundo dos cortiços e até para segurar a costura lateral, quando falta a verga de vime, se dá o nome de bio? Em Trás-os-Montes, porque na Beira Baixa dá-se-lhe o nome de vírus, e são feitos de madeira de esteva, por ser muito rija.

«Focus group» = grupo de discussão


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      Também acho, caro Francisco C., que a expressão «grupo de foco», tão usada em certas áreas, e que pretende traduzir o inglês focus group, pouco diz ao leitor médio (conceito, já o disse aqui uma vez, que deve mais ao conceito jurídico do que à abstracção, l’homme moyen, do matemático belga Quételet [1796–1874]). Mesmo «grupo-foco», considerado mais correcto por alguns, não diz grande coisa. O foco português é muito diverso do focus inglês. Focus group traduzir-se-á bem por grupo de discussão. É verdade que dizemos que algo está em foco quando está em evidência ou em discussão. Em contrapartida, não dizemos que alguém é o foco das atenções (to be the focus of attention), mas sim que é o centro das atenções. Como também não pedimos a ninguém para se focar no trabalho (focus on work), antes para se concentrar no trabalho. Há muitas acepções iguais, naturalmente, tanto mais que o étimo de focus e de «foco» é o mesmo. Assim, dizemos foco sísmico querendo significar a zona do interior da Terra onde se origina um sismo, isto é, o hipocentro (de que falámos aqui), e em inglês diz-se the focus of an earthquake. De acordo com o étimo, foco anda à volta de luz e fogo, ainda que metaforicamente. Assim, ao local de um forno onde se põe a matéria combustível dá-se o nome de foco, assim como à parte do cachimbo onde se queima o tabaco, também conhecida por fornilho.

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