«Coibir de»

Não te coíbas de escrever

      «Mais pragmático e directo, na cerimónia, foi o director nacional da PSP, superintendente chefe Oliveira Pereira, que nem se coibiu em sair do palanque para ajudar na organização do desfile» («PSP apresentou novos ‘agentes voadores’», Licínio Lima, Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 18). Licínio Lima queria escrever superintendente-chefe. À semelhança, já aqui o vimos recentemente, de comandante-chefe, economista-chefe, enfermeiro-chefe, escuteiro-chefe, inspector-chefe, patologista-chefe… O que me levou a escrever, contudo, foi aquele «coibiu em». Na verdade, a regência do verbo não é essa, mas coibir de. Não é preciso reinventar, transgredindo, a língua todos os dias, basta estudar e ler.

Léxico: «sniper»

Atirador especial

      Não chega dizerem que são atiradores especiais: têm de usar o anglicismo «sniper». Sniper, spotter No Diário de Notícias pelo menos não se esqueceram de explicar o termo: «Os três atiradores especiais (snipers) chamados a intervir no assalto ao BES de Campolide, a 7 de Agosto de 2008, em que um dos assaltantes foi abatido e outro ficou ferido, foram ontem condecorados pelo Ministério da Administração Interna no decorrer do 142.º aniversário da PSP» («‘Snipers’ presentes no BES foram condecorados», Licínio Lima, Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 18). No Correio da Manhã, pelo contrário, acham (mas perguntem mesmo só na redacção, se querem uma prova de quão errados estão) que não é preciso explicar nada: «O Prémio de Segurança Pública foi entregue aos três snipers da Unidade Especial de Polícia que dispararam contra Wellington Nazaré e Nilson Souza, não causando qualquer ferimento nos reféns» («Snipers do BES condecorados», João Tavares, Correio da Manhã, 3.07.2009, p. 14).

Léxico: «paramotor»

Agora sim

      «Ao mesmo tempo, sobre o Centro Cultural de Belém, mostravam-se os seis paramotores pilotados por elementos da PSP» («PSP apresentou novos ‘agentes voadores’», Licínio Lima, Diário de Notícias, 3.07.2009, p. 18). Ainda pensei que fosse criação vocabular do jornalista, mas, como vêem, o texto não foi escrito por Daniel Lam. Confirmei no Correio da Manhã: «Agora, a PSP também vai andar pelos ares, com a criação de uma equipa de paramotores» («Polícias no ar a combater o crime», João Tavares, Correio da Manhã, 3.07.2009, p. 14). O paramotor, apesar da sua ligeireza, é uma aeronave pessoal que usa uma asa de parapente e um motor montado numa estrutura leve. Ao contrário do parapente, o paramotor não precisa de desnível para descolar.

Sobre «tutela»

Pois é

      Insensivelmente, deixou de se dizer, pelo menos com a frequência de antigamente, ministro da tutela, passando a usar-se, mais laconicamente, tutela. Na televisão, na rádio e nos jornais. Ministro da tutela é a designação do ministro relativamente às questões da área da sua pasta. Assim, o ministro da tutela dos assuntos relacionados com a imigração, por exemplo, é o ministro da Administração Interna (ou do Interior, como se dizia, e, a meu ver bem, antes). Tutela, sem mais, é, omitindo os sentidos figurados, a autoridade legal sobre uma pessoa menor ou interdita ou a sujeição ou obediência técnica ou administrativa, imposta legalmente a um organismo ou uma região. Valha este exemplo, tão bom ou tão mau como outro de qualquer jornal, do Correio da Manhã: «Ao final da tarde, a tutela anunciava mais um caso: um homem que regressou de Palma de Maiorca» («Autoridades não informam turistas», Alexandre M. Silva, Correio da Manhã, 1.07.2009, p. 17). Antes não se refere nunca o ministro da Saúde, mas sim o Ministério da Saúde.

Contra o Acordo de Londres

Pense bem

      Creio que os signatários da petição contra o chamado Acordo de Londres têm — temos, acabei de a subscrever — razão: quando se propala tanto a necessidade de impor a língua portuguesa no mundo e nas instâncias internacionais, seria incoerente que o Governo português, ainda por cima no término da legislatura, subscrevesse este acordo, de adesão, note-se, facultativa. Se queremos copiar os outros países, copiemos então a posição de Espanha, Itália, Grécia, República Checa, Polónia e outros, que não vão aderir. Em resumo, o que está em causa é o seguinte: quem pretenda actualmente validar uma patente europeia em Portugal tem de apresentar a tradução para português. Com o Acordo de Londres, deixa de existir a obrigatoriedade de tradução, passando a vigorar em Portugal as patentes apresentadas em inglês, francês ou alemão. Estão também envolvidas questões económicas, mas, para o que nos interessa, os interesses da língua portuguesa serão postos em causa. Se concorda com a posição dos signatários da petição (que, infelizmente, tem alguns erros, o que é tanto mais lamentável quanto nela se fala da defesa da língua), assine-a aqui.

«Através de»

Escrever difícil


      «Through Galton, Quételet’s work infused the biological sciences.» «Através de Galton, o trabalho de Quételet penetrou nas ciências biológicas.» Agora já ninguém liga, mas Vasco Botelho de Amaral ainda se viu obrigado a referir que este vício de linguagem, hoje tão insuspeito, que consiste no emprego desta locução preposicional a reger nome de pessoas ou a indicar meio: «Esta mania do através tenho-a notado em muita gente que fala e escreve difícil» (A Bem da Língua Portuguesa. Lisboa: Edição da Revista de Portugal, 1943. p. 225). E ainda há (há sempre) pior, que é a omissão da preposição de, o que constitui um galicismo sintáctico, erro que vejo frequentemente em autores brasileiros. «J’ai reçu un coup d’épée dans la poitrine et un coup de dague à travers le bras» (Alexandre Dumas (pai), A Rainha Margot). A língua evolui, nós é que nem por isso.

«Squeegee men»

Imagem: http://graphics8.nytimes.com/

Se alguém souber


      Dei por mim, há dias, a admirar a criatividade dos anglo-saxónicos, que têm um léxico imenso, variadíssimo. Estão a ver os romenos (sim, também os haverá portugueses e de outras nacionalidades) que nos querem lavar, à viva força, o pára-brisas quando paramos num semáforo? Temos acaso um nome específico (não injurioso, claro) para eles? Que eu saiba, não. Mas talvez os Brasileiros tenham. No âmbito da lusofonia, poderá haver. A língua inglesa tem um nome para esses lavadores de pára-brisas: squeegee men (ou women). Há-de ser porque espremem as esponjas e os trapos com que lavam os vidros e não por nos extorquirem, espremerem, dinheiro (duas acepções de to squeeze). Mas temos, bem nossos, os kefrôs.

Tradução: «ilusión»

Deixem-se de ilusões


      Podemos pôr Matigol, o médio sportinguista, a dizer que tem muita ilusão por chegar ao Benfica, mas isso é espanholismo. Em traduções é comum ver esse falso cognato mal traduzido. Traduzido por falsos tradutores, digamos. De espanhol para português temos, não se esqueçam, um pouco mais de 10 milhões de tradutores. No contexto, ilusión é «alegria, satisfação». E a propósito, porque é que a maioria da imprensa usa aspas a envolver a alcunha do jogador? Desde quando é que se usam aspas nas alcunhas e nos cognomes? Não me façam rir. Ainda percebo, apesar de também ser incorrecto, porque é que põem aspas nas alcunhas estrangeiras — “El Conejo”. Já erram é quando escrevem com minúsculas iniciais: “el conejo”. (Há muitos autores com aspite aguda, moléstia que passam para os revisores: já aqui dei o exemplo de Maria Filomena Mónica grafar o nome de estabelecimentos comerciais entre aspas: «Finalmente, convidou-me para tomar chá, no dia seguinte, no “Covered Market”. […] Foi assim que me encontrei no que viria a ser o meu local preferido, o café “Brown’s”, não o restaurante que, no final dos anos 70, surgiu em Woodstock Road, mas o local esquálido, situado no Mercado Coberto, onde se cruzavam camionistas, estudantes e mendigos» (Bilhete de Identidade, Alêtheia Editores, 4.ª ed., Lisboa, 2006, p. 261)). Agora, com a morte de Michael Jackson, voltou, era inevitável, o apodo por que há muito era conhecido. O pior é que muitas vezes é mal grafado, e com a agravante de não ser um nome estrangeiro. O Diário de Notícias, porém, grafa-o correctamente: «Na última segunda-feira, um tribunal de Los Angeles confiou temporariamente a guarda dos filhos do Rei da Pop à mãe, Katherine Jackson» («Michael Jackson deixou o pai sem herança», Davide Pinheiro, Diário de Notícias, 1.07.2009, p. 44).

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