«Através de»

Escrever difícil


      «Through Galton, Quételet’s work infused the biological sciences.» «Através de Galton, o trabalho de Quételet penetrou nas ciências biológicas.» Agora já ninguém liga, mas Vasco Botelho de Amaral ainda se viu obrigado a referir que este vício de linguagem, hoje tão insuspeito, que consiste no emprego desta locução preposicional a reger nome de pessoas ou a indicar meio: «Esta mania do através tenho-a notado em muita gente que fala e escreve difícil» (A Bem da Língua Portuguesa. Lisboa: Edição da Revista de Portugal, 1943. p. 225). E ainda há (há sempre) pior, que é a omissão da preposição de, o que constitui um galicismo sintáctico, erro que vejo frequentemente em autores brasileiros. «J’ai reçu un coup d’épée dans la poitrine et un coup de dague à travers le bras» (Alexandre Dumas (pai), A Rainha Margot). A língua evolui, nós é que nem por isso.

«Squeegee men»

Imagem: http://graphics8.nytimes.com/

Se alguém souber


      Dei por mim, há dias, a admirar a criatividade dos anglo-saxónicos, que têm um léxico imenso, variadíssimo. Estão a ver os romenos (sim, também os haverá portugueses e de outras nacionalidades) que nos querem lavar, à viva força, o pára-brisas quando paramos num semáforo? Temos acaso um nome específico (não injurioso, claro) para eles? Que eu saiba, não. Mas talvez os Brasileiros tenham. No âmbito da lusofonia, poderá haver. A língua inglesa tem um nome para esses lavadores de pára-brisas: squeegee men (ou women). Há-de ser porque espremem as esponjas e os trapos com que lavam os vidros e não por nos extorquirem, espremerem, dinheiro (duas acepções de to squeeze). Mas temos, bem nossos, os kefrôs.

Tradução: «ilusión»

Deixem-se de ilusões


      Podemos pôr Matigol, o médio sportinguista, a dizer que tem muita ilusão por chegar ao Benfica, mas isso é espanholismo. Em traduções é comum ver esse falso cognato mal traduzido. Traduzido por falsos tradutores, digamos. De espanhol para português temos, não se esqueçam, um pouco mais de 10 milhões de tradutores. No contexto, ilusión é «alegria, satisfação». E a propósito, porque é que a maioria da imprensa usa aspas a envolver a alcunha do jogador? Desde quando é que se usam aspas nas alcunhas e nos cognomes? Não me façam rir. Ainda percebo, apesar de também ser incorrecto, porque é que põem aspas nas alcunhas estrangeiras — “El Conejo”. Já erram é quando escrevem com minúsculas iniciais: “el conejo”. (Há muitos autores com aspite aguda, moléstia que passam para os revisores: já aqui dei o exemplo de Maria Filomena Mónica grafar o nome de estabelecimentos comerciais entre aspas: «Finalmente, convidou-me para tomar chá, no dia seguinte, no “Covered Market”. […] Foi assim que me encontrei no que viria a ser o meu local preferido, o café “Brown’s”, não o restaurante que, no final dos anos 70, surgiu em Woodstock Road, mas o local esquálido, situado no Mercado Coberto, onde se cruzavam camionistas, estudantes e mendigos» (Bilhete de Identidade, Alêtheia Editores, 4.ª ed., Lisboa, 2006, p. 261)). Agora, com a morte de Michael Jackson, voltou, era inevitável, o apodo por que há muito era conhecido. O pior é que muitas vezes é mal grafado, e com a agravante de não ser um nome estrangeiro. O Diário de Notícias, porém, grafa-o correctamente: «Na última segunda-feira, um tribunal de Los Angeles confiou temporariamente a guarda dos filhos do Rei da Pop à mãe, Katherine Jackson» («Michael Jackson deixou o pai sem herança», Davide Pinheiro, Diário de Notícias, 1.07.2009, p. 44).

Ortografia: «inter-religioso»

Muito bons são eles

      «As vítimas serão amanhã homenageadas numa cerimónia interreligiosa, em Paris, na qual estará o Presidente Nicolas Sarkozy» («Jovem sobrevive à tragédia no Índico», Susana Salvador, Diário de Notícias, 1.07.2009, p. 5). Nem no âmbito do Acordo Ortográfico de 1945 nem — embora, para o caso, pouco interessasse, e só o refiro para me antecipar a qualquer objecção — no âmbito do Acordo Ortográfico de 1990 se escreve sem hífen, erro que vejo com alguma frequência. Segundo as futuras regras ortográficas, o hífen apenas se usa nas formações com o prefixo inter- quando combinado com elementos iniciados por r: inter-racial, inter-radical, inter-resistente, inter-regional, inter-rei, inter-relação, inter-resistente…

À volta do Twitter

Perguntem à Maria José

      «Nessa altura já os “twitteiros” deverão estar a postos com o seu computador nas galerias da AR para, através da rede informática local, poderem comentar em directo o último debate da XVII legislatura» («Deputado organiza visita à AR através do Twitter», Público, 1.07.2009, p. 6). Ah, mas isto é um lamentável retrocesso. Deviam estar, neste momento, a escrever descomplexadamente «tuiteiros»*. Porquê, perguntam? Eis a razão: «Ainda não eram 15 horas e já as bancadas e as galerias estavam bastante povoadas — lá em cima, convidados e alunos de escolas procuravam os seus lugares; cá em baixo, os deputados entretinham-se a teclar nos computadores embutidos em cada lugar (alguns “tuítavam”, outros espreitavam as edições on-line dos jornais, outros ainda aproveitavam para ler e-mails; de facto, não é fácil ter privacidade com aqueles ecrãs)» («Kavafis, Sófocles e o avô de Lello no Parlamento», Maria José Oliveira, Público, 26.03.2009, p. 10).

* A palavra foneticamente mais aproximada que temos é «tuitivo». É muito usada no âmbito do Direito do Trabalho brasileiro, dizendo-se que o princípio tuitivo é um traço típico, essencial, deste ramo do Direito. Tuitivo é um adjectivo que vem do latim (tuĭtus, «defendido», particípio passado de tuēri, «defender; proteger» +-ivo) e significa que protege, ampara ou defende; próprio para defender. Em espanhol também existe o adjectivo «tuitivo», que se usava antigamente na locução potestad tuitiva, que era a do poder real, aplicada no amparo dos súbditos a quem eram feitos agravos pelos juízes eclesiásticos.

«Descarrilar-se»?


Escrita infernal

      «Um verdadeiro Inferno. Foi desta forma que a maioria dos sobreviventes descreveu a tragédia que ontem de madrugada se abateu sobre a localidade de Viarregio, no norte de Itália, quando um comboio carregado de gás se descarrilou e explodiu, matando pelo menos 16 pessoas» («Explosão de gás mata 16», Ricardo Ramos, Correio da Manhã, 1.07.2009, p. 31). A sério? No Diário de Notícias lia-se que as testemunhas diziam que tinha sido um «inferno». O mesmíssimo Diário de Notícias, em texto da autoria de Hugo Coelho, «Material degradado explica acidente do comboio com GPL» (1.07.2009, p. 24), afirmava que Viarregio se situa no Noroeste de Itália. Vendo bem, Viarregio, na região da Toscana (e no Correio da Manhã escrevem Toscânia), fica na Itália Central. Não quero infernar o jornalista, mas sempre lhe digo que aquele «se descarrilou» (que se repete na legenda do mapa) está erradíssimo, pois o verbo não é pronominal. Descarrilar também é, nem de propósito, fazer ou dizer disparates.

Qualquer-coisa-chefe

Cabecilhas

      «Tiago era chefe-escuteiro há cinco anos, e as autoridades vão agora tentar recolher relatos de crianças e visualizar fotos do computador, pois suspeitam de que o universitário há muito praticava o crime de pedofilia» («Escuteiro-chefe violava mais novos», Domingos G. Serrinha, Correio da Manhã, 1.07.2009, p. 32). «Chefe-escuteiro»? Nem pensar! Aliás, no próprio título lê-se a forma correcta escuteiro-chefe, só espero é que não tenha sido por lapso, pois na mesma edição aparece, noutra notícia, chefe de escuteiros: «Continua sem dar sinal de vida à família o jovem chefe de escuteiros que desapareceu no domingo de madrugada, na zona de Alcântara, em Lisboa» («“Filho, volta rápido e bem, por favor!”», Magali Pinto, Correio da Manhã, 1.07.2009, p. 14).
      «Hermínio Frias é o inspector-chefe da 1.ª secção da Brigada de Homicídios, estando à frente desta há mais de um ano» («Suspeitos de Cascais sem ligação aos crimes», Ana Mafalda Inácio, Diário de Notícias, 14.3.2008, p. 22). «Mário Lemos Pires (então coronel) assumiu o cargo de governador e comandante-chefe de Timor-Leste a 14 de Novembro de 1974» («Morreu o último governador de Timor», Diário de Notícias, 23.05.2009, p. 16). «Zugibe, ex-patologista-chefe do Instituto de Medicina Legal de Nova Iorque, desmente várias teorias clássicas, algumas delas no filme A Paixão de Cristo (na foto): Jesus só carregou o tronco horizontal da Cruz e não a totalidade e só a parte de trás do seu corpo foi açoitada» («Autópsia revela causa da morte de Cristo», Destak/Sábado, 28.2.2008, p. 6).

Siglas e acrónimos (II)

Quase JEsUS

      Já aqui estranhei as siglas e acrónimos de instituições recentes. Vejam estes exemplos: «O Instituto da Construção e Imobiliário (InCI), organismo público que ficou responsável pela execução do Código dos Contratos Públicos, e pela criação de um portal, onde devem ser publicitados todos os ajustes directos e derrapagens, em nome da transparência e do rigor no uso dos dinheiros públicos, não está a conseguir, neste mesmo portal, dar o melhor exemplo» («Portal para a transparência das obras públicas adjudicado sem concurso», Luísa Pinto, Público, 29.06.2009). «O GEsOS [Gabinete de Estudos sobre a Ordem de Santiago] tem como objectivos promover a investigação historiográfica na área das Ordens Militares, divulgar o património histórico, documental e edificado das Ordens Militares e fomentar o apoio à edição e publicação de trabalhos de investigação nesta área» («Património cultural», Palmela É o Futuro, destacável do Diário de Notícias, 30.06.2009, p. 10). Desde quando é que partículas como de, sobre e outras têm expressão na composição da sigla? AdP para Águas de Portugal ou BdP para Banco de Portugal é ridículo.



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