Ferramentas (III)


Ferramentas de carpinteiro



      Pela terceira semana, cá estamos com mais uma imagem de ferramentas de carpinteiro: plaina, rebote, garlopa, guilherme, cepo de rasto curvo. Na página da direita, temos ferramentas de aço: garlopa, plaina, guilherme, ferros de topos, corteché ou corta-chefe (e não «cortché»), ferro de cantos, plaina de rasto curvo, evasiadora (?), serrote e grampo. Vamos à definição dos mais desconhecidos. Rebote ou rabote: plaina grande de carpinteiro, semelhante à garlopa, mas mais curta e sem punho, com caixa ou cepo paralelepipédico, de arestas vivas e rasto desempenado. Garlopa: plaina grande (jack plane ou jointer plane, em inglês). Nas ferramentas de caixa, como a garlopa e o rebote, geralmente o ferro é duplo ou de capa. Se o rasto da garlopa (que não se vê na da imagem) é guarnecido por uma chapa de latão, toma o nome de garlopa calçada. Guilherme: utensílio de carpinteiro semelhante a uma pequena plaina, com cepo de pouca espessura, para fazer os filetes das junturas das tábuas (grooving plane, em inglês). Corteché: espécie de plaina com duas pegas laterais recurvadas e arredondadas com um orifício em cada extremidade, também chamada raspadeira-plaina (e draw knife em inglês). Pode ter diferentes ferros: rectos, côncavos, convexos, estriados, etc. O vocábulo evasiadora nunca antes o tinha visto, mas há-de ter algo que ver com o francês évaser, «dilatar; alargar; abrir».


Uso do hífen

Critério?

      «Para inverter o declínio das populações do abutre-do-egipto estão a ser tomadas diversas medidas» («Um voo cada vez mais raro no céu de Portugal», Mariana Correia de Barros, Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 63). «Os tratadores de felinos escondem diariamente entre seis a sete quilos de carne nas árvores do recinto onde estão dois tigres da Sumatra, desafiando-os a procurar o seu alimento. A ideia é dificultar o acesso dos animais ao alimento, para que mantenham o exercício físico» («Dois mil animais de 360 espécies no Zoo de Lisboa», Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 63). Na mesma página, a incongruência faz impressão. Não há no Diário de Notícias quem lance um olhar competente para todo o jornal e detecte esta falta de critério.

Uma acepção de «ascendência»

Com propriedade, mas…

«No séc. XVIII, Portugal assistiu simultaneamente à ascendência máxima do clã mas também à sua queda mais violenta. […] Caso raro de constante ascendência social e económica, a família Távora teve uma política de casamentos restritiva à alta nobreza» («O drama dos Távoras», Rita Roby Gançalves, Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 61). Num texto em que se fala de linhagens, não é muito prudente usar o vocábulo «ascendência» — que também significa, é verdade, «acto de ascender, de se elevar» — nesta acepção. Seria melhor ter-se usado o sinónimo «ascensão».

Erros jornalísticos

Arre, que é de mais!

      «Tendo em conta que as peças de mobiliário do castelo já haviam sido vendidas em leilão (no total foram arrebatados por um valor de dez milhões de euros), o príncipe Walid tornou-se “apenas” dono de uma propriedade com 1500 m2» («Castelo dos Bruni vendido a saudita», Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 33). O jornalista sabia que era arre-qualquer-coisa. Arreatados? Arrebanhados? Arrebentados? Arredados? Arrefanhados? Arreganhados? Não, não. Arrebatados, é isso. Mas arrebatado é levado pelos ares, transportado em êxtase; extorquido, tirado; roubado. Mas num leilão… Nos leilões, os bens licitados são arrecadados ou arrematados. Pobre Diário de Notícias, pobres leitores…

Uso do itálico

Gostava de perceber

      «E com a Guardia Civil todo o cuidado era pouco» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura. Revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 10). «E ela teve a certeza do seu estado quinze dias mais tarde, exactamente na altura em que o patrão estava prestes a receber a visita do snr. Graf, importador de Hamburgo, que tinha grandes negócios de abastecimento da Wehrmacht com as conservas de peixe portuguesas» (idem, ibidem, p. 246). De revisor para revisor: se Wehrmacht não está em itálico, porque é que Guardia Civil está? Já por aqui passou uma questão em tudo, excepto nos exemplos, igual.

O substantivo «ex»

Que fue y ha dejado de serlo


      «Não faltam nas livrarias exemplos de vinganças pessoais, apoiadas em “revelações” especulativas e assinadas por antigos mordomos, amantes traídas ou amigos desavindos, ávidos de um ajuste de conta que humilhe o ‘ex-’ na praça pública» («O lado negro do senhor cem milhões», José Mário Silva, Actual, 23.05.2009, p. 40).
      Caro José Mário: liberte o pobre ex das aspas e do hífen, coitado, não vê que ele é pequeno mas não precisa desses amparos? Costuma dizer-se, eu próprio já o disse, que a realidade vai muito à frente dos lexicógrafos. O que nunca se diz é que eles são aflitivamente conservadores, e por isso lentos a reagir. Há quanto tempo é que o prefixo «ex» passou a ser também, e de pleno direito, um substantivo? Também para os Brasileiros ex é, nesta acepção de ex-marido/namorado/companheiro, um substantivo. Como para os Espanhóis, já com acolhimento no Diccionario de la Real Academia Española (DRAE): «Persona que ha dejado de ser cónyuge o pareja sentimental de otra.» O que afirmei em relação a «ex» aplica-se, mutatis mutandis, a «vice», com a diferença de que este elemento se autonomizou há menos tempo.
      A consulta ao DRAE deixou-me a cismar. Não há dúvida de que, etimologicamente, «ex» provém da preposição latina ex. Em espanhol, contudo, «ex» não é, como em português, «prefixo que exprime a ideia de separação, extracção, afastamento e significa aquilo que alguém foi mas já não é, quando seguido de nome que indique estado ou profissão e esteja a ele ligado por hífen (ex-marido, ex-ministro)» (na formulação do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora), mas adjectivo. «Que fue y ha dejado de serlo. Ex ministro, ex marido.» (Já tinha pensado nisto, Fernando?) Somente quando exprime as ideias de «fora, mais afastado» ou a indicar privação (ou quando não acrescenta nenhum significado especial, como em «exclamar» ou «exornar», por exemplo) é que é prefixo.

Actualização em 25.07.2009

      Ainda não há novidades: «O número de vinganças conjugais tem crescido de tal forma que já é possível traçar preferências de actuação consoante o género: as mulheres ateiam fogo aos carros dos ‘ex’, “que é onde dói mais aos homens” e “os homens incendeiam as casas com que elas ficaram após as partilhas do divórcio ou onde vivem com o namorado”, diz a PJ» («PJ deteve 17 suspeitos de incêndios urbanos», Raquel Moleiro, Expresso, 25.07.2009, p. 15). Mas, na mesma edição deste jornal, lê-se: «Autarca de Caminha expulsou o seu ex-vice de reunião» («Só volta quem gosta da presidente», Ricardo Jorge Pinto, Expresso, 25.07.2009, p. 17).

«Web» ou «web»?

Imagem: http://www.hebertphp.net/

Digam lá, excelências




      «A web e o passa-palavra, os vírus e os outsourcings, a long tail e outros factores relacionados com os social media significam que toda a gente (todas as pessoas, todos nós, os seis mil milhões) têm mais poder do que nunca» (Tribos, Seth Godin. Tradução de Rosário Nunes. Lisboa: Lua de Papel, 2008, p. 38). «A Web põe as pessoas em contacto» (idem, ibidem, p. 96). É, mais uma infausta vez, a incongruência que espanta. Como sabem, uso e recomendo Internet e Multibanco, e, agora que se fala neste vocábulo, Web. A propósito, estou mortinho por ouvir o que se vai dizer na próxima emissão do programa Páginas de Português. Segundo se lê no Ciberdúvidas, uma das questões é sobre se «será possível arranjarmos palavras portuguesas para designar “twitter” e “facebook”». Já agora, porque não substituir também Google, Internet e outras que tais? Com tantos problemas que a língua apresenta, dão prioridade a estas magnas questões…

«Dezenas de milhares»

Ai esta cabeça

      «Encontrei milhares (talvez dezenas de milhar) de pessoas com grandes ideias» (Tribos, Seth Godin. Tradução de Rosário Nunes. Lisboa: Lua de Papel, 2008, p. 42). «Poucas horas depois de um produto ser anunciado, a notícia chegava a milhões e até a dezenas de milhares de utilizadores — tudo via digital, tudo online» (idem, ibidem, p. 51). Mais um caso de incongruência, mas que serve para referir o erro de concordância.
      Em 2003, era Estrela Serrano provedora do leitor no Diário de Notícias (cargo que desempenhou entre 2001 e 2004), uma leitora abordou esta questão, afirmando: «Leio somente as notícias que me interessam — e muitas vezes na diagonal. E mesmo assim, encontrei três erros: “centenas de milhares” — quando deveria estar “centenas de milhar”; “Á margem da exposição” — quando deveria estar “À margem da exposição”; “a maioria das pessoas que fuma se encontram” — quando deveria estar “a maioria das pessoas que fuma se encontra”.» Concluiu então a provedora: «Vejamos: a leitora tem razão, não apenas na identificação e correcção dos três erros que aponta mas, também, na referência que faz à responsabilidade dos meios de comunicação social na difusão da língua portuguesa.» Claro que a leitora não tinha razão. Não tinha, pelo menos, razão em relação a todas as questões, e a provedora deveria ter tido mais cuidado. Já aqui aflorei a questão das «dezenas de milhares».

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