Sobre «redingote»

Imagem: http://www.theaussiecoat.com.au/

Redingotes e contradanças



      O vocábulo trincheira também me deixou a reflectir em como são ínvios os caminhos do aportuguesamento dos estrangeirismos. Se neste caso se traduziu simplesmente o primeiro elemento da locução, trench coat, já em riding-coat aglutinaram-se os dois elementos, redingote, fazendo perder ao leitor a noção de que se trata originalmente de um composto. Como acontece também no vocábulo contradança, no qual é quase impossível descortinar o étimo country-dance.

«Guarda-prisional»? (II)

Tens aqui o prémio

Podia pensar-se que o universo dos meus leitores seria bem particular, todo circunspecção e saber ponderado, por particular ser o objecto dele. Contudo, se tenho leitores que já me enviaram livros de três continentes, fazem comentários pertinentes e suprem as deficiências dos meus textos, tenho outros que vêm aqui reiteradamente cuspir na sopa. Também tenho, é claro, todos devemos ter, maluquinhos que deixam os seus dejectos mentais. Como tenho os que se querem armar em minhas némesis, mas não têm estaleca nem persistência na maldade. Um da laia sopista/chupista, sempre acobertada pelo anonimato cobarde e irresponsável, deixou aqui ao texto «Divagações» o comentário: «Boa dissertação, excelente mesmo! Mas deve haver comprimidos para isso!» Mas já em 1919, na sua Gramática Histórica Portuguesa José Joaquim Nunes (1859–1932) escrevia: «A palavra guarda, que se juxtapõe a vários nomes, é umas vezes substantivo, outras verbo, e como tal toma ou não o sinal de plural; pertence à primeira categoria, quando a palavra que se lhe segue é adjectivo, considera-se como fazendo parte da segunda, se precede um substantivo; estão no 1.º caso estes nomes: guarda-nobre, guarda-real, guarda-municipal, guarda-campestre, guarda-florestal, guarda-nacional etc.» (p. 232). No etc. resolvem-se muitas incoerências ortográficas, tal como esta de não se escrever com hífen guarda prisional.

Pontuação

Os intocáveis

«Tudo o que podia fazer era, ou cancelar a viagem, ou aguardar que os deuses lhe fossem finalmente propícios» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura. Revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 163). De quem são aquelas vírgulas, do autor ou da revisora? É que não estão correctas. É mau que sejam do autor, pior se a revisora as deixou passar e péssimo se esta as acrescentou. Embora, e sem ofensa, pelo conhecimento que tenho do trabalho de muitos revisores quando se trata de texto de autor português, me incline a pensar que a habitual subserviência daqueles se sobrepõe ao sentido crítico.

Ferramentas (III)


Ferramentas de carpinteiro



      Pela terceira semana, cá estamos com mais uma imagem de ferramentas de carpinteiro: plaina, rebote, garlopa, guilherme, cepo de rasto curvo. Na página da direita, temos ferramentas de aço: garlopa, plaina, guilherme, ferros de topos, corteché ou corta-chefe (e não «cortché»), ferro de cantos, plaina de rasto curvo, evasiadora (?), serrote e grampo. Vamos à definição dos mais desconhecidos. Rebote ou rabote: plaina grande de carpinteiro, semelhante à garlopa, mas mais curta e sem punho, com caixa ou cepo paralelepipédico, de arestas vivas e rasto desempenado. Garlopa: plaina grande (jack plane ou jointer plane, em inglês). Nas ferramentas de caixa, como a garlopa e o rebote, geralmente o ferro é duplo ou de capa. Se o rasto da garlopa (que não se vê na da imagem) é guarnecido por uma chapa de latão, toma o nome de garlopa calçada. Guilherme: utensílio de carpinteiro semelhante a uma pequena plaina, com cepo de pouca espessura, para fazer os filetes das junturas das tábuas (grooving plane, em inglês). Corteché: espécie de plaina com duas pegas laterais recurvadas e arredondadas com um orifício em cada extremidade, também chamada raspadeira-plaina (e draw knife em inglês). Pode ter diferentes ferros: rectos, côncavos, convexos, estriados, etc. O vocábulo evasiadora nunca antes o tinha visto, mas há-de ter algo que ver com o francês évaser, «dilatar; alargar; abrir».


Uso do hífen

Critério?

      «Para inverter o declínio das populações do abutre-do-egipto estão a ser tomadas diversas medidas» («Um voo cada vez mais raro no céu de Portugal», Mariana Correia de Barros, Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 63). «Os tratadores de felinos escondem diariamente entre seis a sete quilos de carne nas árvores do recinto onde estão dois tigres da Sumatra, desafiando-os a procurar o seu alimento. A ideia é dificultar o acesso dos animais ao alimento, para que mantenham o exercício físico» («Dois mil animais de 360 espécies no Zoo de Lisboa», Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 63). Na mesma página, a incongruência faz impressão. Não há no Diário de Notícias quem lance um olhar competente para todo o jornal e detecte esta falta de critério.

Uma acepção de «ascendência»

Com propriedade, mas…

«No séc. XVIII, Portugal assistiu simultaneamente à ascendência máxima do clã mas também à sua queda mais violenta. […] Caso raro de constante ascendência social e económica, a família Távora teve uma política de casamentos restritiva à alta nobreza» («O drama dos Távoras», Rita Roby Gançalves, Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 61). Num texto em que se fala de linhagens, não é muito prudente usar o vocábulo «ascendência» — que também significa, é verdade, «acto de ascender, de se elevar» — nesta acepção. Seria melhor ter-se usado o sinónimo «ascensão».

Erros jornalísticos

Arre, que é de mais!

      «Tendo em conta que as peças de mobiliário do castelo já haviam sido vendidas em leilão (no total foram arrebatados por um valor de dez milhões de euros), o príncipe Walid tornou-se “apenas” dono de uma propriedade com 1500 m2» («Castelo dos Bruni vendido a saudita», Diário de Notícias, 31.05.2009, p. 33). O jornalista sabia que era arre-qualquer-coisa. Arreatados? Arrebanhados? Arrebentados? Arredados? Arrefanhados? Arreganhados? Não, não. Arrebatados, é isso. Mas arrebatado é levado pelos ares, transportado em êxtase; extorquido, tirado; roubado. Mas num leilão… Nos leilões, os bens licitados são arrecadados ou arrematados. Pobre Diário de Notícias, pobres leitores…

Uso do itálico

Gostava de perceber

      «E com a Guardia Civil todo o cuidado era pouco» (Morte no Retrovisor, Vasco Graça Moura. Revisão de Manuela Ramos. Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 10). «E ela teve a certeza do seu estado quinze dias mais tarde, exactamente na altura em que o patrão estava prestes a receber a visita do snr. Graf, importador de Hamburgo, que tinha grandes negócios de abastecimento da Wehrmacht com as conservas de peixe portuguesas» (idem, ibidem, p. 246). De revisor para revisor: se Wehrmacht não está em itálico, porque é que Guardia Civil está? Já por aqui passou uma questão em tudo, excepto nos exemplos, igual.

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