Registos de língua

Falemos em changana

      O último texto do provedor dos leitores do Diário de Notícias, Mário Bettencourt Resendes, foi inteiramente dedicado, a propósito da reclamação de um leitor, ao registo de língua. Eis um excerto do texto: «O provedor pensa, mesmo assim, que cabe a um jornal que se reclama de “referência” ou de “qualidade” uma atitude de rigor e exigência neste domínio. Ou seja, uma coisa é a transcrição, em discurso directo, de palavras de terceiros que podem ser relevantes para o conteúdo de uma matéria noticiosa, outra, assaz diferente, é a incorporação, no texto do jornalista, de termos que, embora utilizados em algum “português coloquial”, não cumprem os requisitos mínimos de elegância (que não é antónimo de simplicidade) que se esperam de um jornal “bem escrito”» («Uma lição de português», 30.05.2009). Recentemente, lia-se, a respeito do chefe inglês Jamie Oliver, na Notícias Sábado: «Segundo a Reuters, o mediático mestre cuca assinou contrato com a cadeia norte-americana ABC para um reality show nas cidades mais afectadas pela obesidade» («Mestre cuca muda gordos da América», 23.05.2009, p. 14). Certo, é na secção «Gente». Vejam então um exemplo de excesso de informalidade no outrora seriíssimo diário: «Mandou matar marido e leva 19 anos de prisão» (Amadeu Araújo, Diário de Notícias, 14.05.2009, p. 21). Andam distraídos ou é o novo estilo?

Uma acepção de «locação»

Pois então

      «Passámos o dia de ontem a visitar “pontos turísticos” e algumas possíveis locações para o filme: o Grande Hotel da Huíla, o Cristo-Rei, a serpenteante estrada da serra da Leba, a fenda da Tundavala» (As Mulheres do Meu Pai, José Eduardo Agualusa. Revisão de Fernanda Abreu. 3.ª edição. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 81). A palavra é portuguesa, «locação», sem dúvida, mas a acepção é inglesa. Location é um termo da área do cinema e designa os exteriores, o local fora dos estúdios onde se realiza uma filmagem. Claro que, como sucede com «restaurador» (a propósito do qual um anónimo comentou que «nem é uma palavra nova, é uma apropriação natural de significante para um significado»), a integração no léxico é mais fácil, pois que se trata de acrescentar acepções a vocábulos preexistentes. Em todo o caso, os lexicógrafos devem levar sempre em consideração a frequência de uso destas acepções, antes de as integrarem nos dicionários descritivos. Tanto em relação a «restaurador» como a «locação», o seu pouco uso levaria à sua não inclusão.

Ferramentas (I)


Ferramentas de carpinteiro

      Uma vez por semana, e durante 22 semanas, publicarei aqui uma reprodução de desenhos de ferramentas que encontrei num manual que me foi oferecido por um amigo (a lembrar Jan Potocki, só o facto de o meu amigo também ser soldado, pelo que poderia ser o Manuscrito Encontrado em Mirandela). Não há qualquer referência à autoria, mas o meu amigo afirma que foi editado pelo extinto Fundo de Fomento à Habitação. As duas páginas acima mostram as seguintes ferramentas de carpinteiro: graminho, galgadeira, suta, esquadro, meia-esquadria, compasso, cintel, lápis de carpinteiro, serra de carpinteiro, serrote de ponta, serrote de samblar (e não «sambrar»), serrote de traçar (com imagem comparativa do pormenor dos dentes) caixa de meias-esquadrias e espera. Apresento a definição de alguns, os menos comuns, termos. Graminho: instrumento para traçar linhas paralelas a pequena distância das arestas das peças de madeira. Galgadeira: instrumento com que se riscam, nos lados das tábuas, traços ou vincos paralelos aos mesmos. Suta: esquadro de peças móveis para traçar ângulos de qualquer medida. Cintel: instrumento que substitui o compasso, para traçar círculos de grande raio. Espera: peça de ferro ou madeira que serve para impedir o movimento em determinado sentido de certos objectos, ferramentas, por exemplo.


Sobrenome duplo

Que Churchill nos ajude


      «À medida que Mary fazia mais perguntas, Helen amealhava mais ponto: um marido contabilista numa empresa da City, uma velha mansão, um sobrenome duplo, um potro na cavalariça» (Adultério para Principiantes, Sarah Duncan. Tradução de Ana Mendes Lopes, com revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Porto: Asa Editores, 2006, p. 18). A personagem chama-se Helen Weedon-Smith. Analisemos a questão recorrendo a um sobrenome semelhante, por exemplo o dos duques de Marlborough, Spencer-Churchill. George Spencer (1766–1840), 5.° duque de Marlborough, obteve uma licença da Coroa para poder acrescentar o sobrenome Churchill ao sobrenome da família, Spencer, passando a assinar George Spencer-Churchill. Ora, o que sucede é que a segunda filha do primeiro duque de Marlborough, Lady Anne Churchill, se tinha casado com Charles Spencer, 3.° conde de Sunderland (1674–1722). Com a licença real, Spencer-Churchill passou a valer como um só sobrenome — é um apelido composto. O sobrenome Weedon-Smith terá, provavelmente, a mesma génese. À face da lei portuguesa (que reflecte, já aqui o dissemos, regras gramaticais), o conceito de sobrenome duplo designa uma realidade diferente. Sobrenome duplo — um apelido da mãe e um apelido do pai — quase todos os cidadãos portugueses têm, o que se recomenda até para diminuir as probabilidades de homonímia.

Léxico: «butô»

Do Japão

      «O seu último álbum contém várias referências à dança — a começar pela capa, foto do mestre japonês do butô Kazuo Ohno — mas o bailarino que surgiu em palco ensaiou movimentos teatralizados e exteriores, longe da dimensão enxuta e interiorizada do butô e, principalmente, da música de Antony» («A nova natureza de Antony», Vítor Belanciano, Público/P2, 16.05.2009, p. 14). O termo «butô» designa uma dança contemporânea japonesa que combina teatro e mímica. A palavra tem origem em bu, «dança, mover-se com elegância» e toh, «passo, pisar».

Léxico: «chicoronho»

Tribu branca da Huíla


      «Vêem-se muitos brancos da terra, aqui chamados chicoronhos, corruptela irónica para “senhor colono”» (As Mulheres do Meu Pai, José Eduardo Agualusa. Revisão de Fernanda Abreu. 3.ª edição. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 81). A palavra, que eu desconhecia, e designa mais propriamente os descendentes dos colonos madeirenses que se tinham estabelecido nas Terras Altas da Huíla na década de 1880, está registada em alguns dicionários, e até na MorDebe. Henrique Galvão (História do nosso tempo. João de Almeida (sua obra e acção). Lisboa: AGC, 1931, p. 353) chamava-lhes a «tribu branca da Huíla».

Locuções toponímicas

O mundo ainda não sabe

      «Ao nível diplomático, a principal meta seria a de ser reconhecida como uma potência nuclear internacional e obrigar os Estados Unidos a dialogar directamente com Pyongyang, em vez de negociarem no quadro do grupo dos seis (EUA, China, Rússia, Japão e as duas Correias), cujas negociações para a desnuclearização da península coreana estão paradas» («O mundo ainda não sabe como vai parar a Coreia do Norte», Miguel Gaspar, Público, 27.05.2009, p. 18). Já se sabe (mas boa parte dos jornalistas ignora) que se deve empregar a minúscula «nos substantivos que significam acidentes geográficos, tais como arquipélago, baía, cabo, ilha, mar, monte, península, rio, serra, vale e tantos outros, quando seguidos de designações que os especificam toponimicamente», como se lê na página 337 do Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves. Pergunto a mim mesmo é se península coreana não se integra nas excepções que o autor apresenta de seguida: «Há combinações vocabulares que não se integram no preceito anterior, porque, apesar de baseadas em palavras designativas de acidentes geográficos, formam no seu conjunto locuções toponímicas e, consequentemente, não dispensam a maiúscula inicial naqueles elementos: Grandes Lagos, Península Ibérica […], etc. Além disso, como é sabido, há combinações similares que formam, não simplesmente locuções, mas verdadeiros compostos toponímicos, e que, com maior razão ainda, não podem dispensar a maiúscula nos elementos básicos: Costa do Ouro, Monte Redondo, Serra de El-Rei, etc.» (pp. 338-39).

Actualização em 14.1.2010

      «Estendendo-se pelo calcanhar meridional da Península Arábica e albergando 23,8 milhões de pessoas, o Iémen é um dos países mais pobres do Médio Oriente» («O aliado mais frágil», Andrew Lee Butters, Visão, n.º 880, 14.1.2010, p. 60).

Léxico: «precariado»


Nova classe social



      Foi automático: mal me ocorreu a palavra «alumprar», veio-me à mente a palavra «lumpemproletariado» e, de seguida, o neologismo precariado (de precari(edade) + (prolet)ariado). «Mayday é a chamada via rádio para emergência ou ajuda (deriva do francês m’aidez). A expressão deu nome ao movimento/ideia/marcha contra a precariedade laboral, que em 2001, em Milão, ocorreu pela primeira vez no dia 1 de Maio, Dia Internacional do Trabalhador. Em 2007, chegou a Lisboa e, neste ano, ao Porto. A nível internacional, já passa por Toronto, Helsínquia ou Tóquio, entre muitas outras cidades. Por cá, o grito de guerra será “o precariado dá luta”» («‘O precariado dá luta’», Bernardo Aguiar, Tabu, 24.04.2009, p. 17).


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