Sobrenome duplo

Que Churchill nos ajude


      «À medida que Mary fazia mais perguntas, Helen amealhava mais ponto: um marido contabilista numa empresa da City, uma velha mansão, um sobrenome duplo, um potro na cavalariça» (Adultério para Principiantes, Sarah Duncan. Tradução de Ana Mendes Lopes, com revisão da tradução de Ana Maria Chaves. Porto: Asa Editores, 2006, p. 18). A personagem chama-se Helen Weedon-Smith. Analisemos a questão recorrendo a um sobrenome semelhante, por exemplo o dos duques de Marlborough, Spencer-Churchill. George Spencer (1766–1840), 5.° duque de Marlborough, obteve uma licença da Coroa para poder acrescentar o sobrenome Churchill ao sobrenome da família, Spencer, passando a assinar George Spencer-Churchill. Ora, o que sucede é que a segunda filha do primeiro duque de Marlborough, Lady Anne Churchill, se tinha casado com Charles Spencer, 3.° conde de Sunderland (1674–1722). Com a licença real, Spencer-Churchill passou a valer como um só sobrenome — é um apelido composto. O sobrenome Weedon-Smith terá, provavelmente, a mesma génese. À face da lei portuguesa (que reflecte, já aqui o dissemos, regras gramaticais), o conceito de sobrenome duplo designa uma realidade diferente. Sobrenome duplo — um apelido da mãe e um apelido do pai — quase todos os cidadãos portugueses têm, o que se recomenda até para diminuir as probabilidades de homonímia.

Léxico: «butô»

Do Japão

      «O seu último álbum contém várias referências à dança — a começar pela capa, foto do mestre japonês do butô Kazuo Ohno — mas o bailarino que surgiu em palco ensaiou movimentos teatralizados e exteriores, longe da dimensão enxuta e interiorizada do butô e, principalmente, da música de Antony» («A nova natureza de Antony», Vítor Belanciano, Público/P2, 16.05.2009, p. 14). O termo «butô» designa uma dança contemporânea japonesa que combina teatro e mímica. A palavra tem origem em bu, «dança, mover-se com elegância» e toh, «passo, pisar».

Léxico: «chicoronho»

Tribu branca da Huíla


      «Vêem-se muitos brancos da terra, aqui chamados chicoronhos, corruptela irónica para “senhor colono”» (As Mulheres do Meu Pai, José Eduardo Agualusa. Revisão de Fernanda Abreu. 3.ª edição. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2007, p. 81). A palavra, que eu desconhecia, e designa mais propriamente os descendentes dos colonos madeirenses que se tinham estabelecido nas Terras Altas da Huíla na década de 1880, está registada em alguns dicionários, e até na MorDebe. Henrique Galvão (História do nosso tempo. João de Almeida (sua obra e acção). Lisboa: AGC, 1931, p. 353) chamava-lhes a «tribu branca da Huíla».

Locuções toponímicas

O mundo ainda não sabe

      «Ao nível diplomático, a principal meta seria a de ser reconhecida como uma potência nuclear internacional e obrigar os Estados Unidos a dialogar directamente com Pyongyang, em vez de negociarem no quadro do grupo dos seis (EUA, China, Rússia, Japão e as duas Correias), cujas negociações para a desnuclearização da península coreana estão paradas» («O mundo ainda não sabe como vai parar a Coreia do Norte», Miguel Gaspar, Público, 27.05.2009, p. 18). Já se sabe (mas boa parte dos jornalistas ignora) que se deve empregar a minúscula «nos substantivos que significam acidentes geográficos, tais como arquipélago, baía, cabo, ilha, mar, monte, península, rio, serra, vale e tantos outros, quando seguidos de designações que os especificam toponimicamente», como se lê na página 337 do Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves. Pergunto a mim mesmo é se península coreana não se integra nas excepções que o autor apresenta de seguida: «Há combinações vocabulares que não se integram no preceito anterior, porque, apesar de baseadas em palavras designativas de acidentes geográficos, formam no seu conjunto locuções toponímicas e, consequentemente, não dispensam a maiúscula inicial naqueles elementos: Grandes Lagos, Península Ibérica […], etc. Além disso, como é sabido, há combinações similares que formam, não simplesmente locuções, mas verdadeiros compostos toponímicos, e que, com maior razão ainda, não podem dispensar a maiúscula nos elementos básicos: Costa do Ouro, Monte Redondo, Serra de El-Rei, etc.» (pp. 338-39).

Actualização em 14.1.2010

      «Estendendo-se pelo calcanhar meridional da Península Arábica e albergando 23,8 milhões de pessoas, o Iémen é um dos países mais pobres do Médio Oriente» («O aliado mais frágil», Andrew Lee Butters, Visão, n.º 880, 14.1.2010, p. 60).

Léxico: «precariado»


Nova classe social



      Foi automático: mal me ocorreu a palavra «alumprar», veio-me à mente a palavra «lumpemproletariado» e, de seguida, o neologismo precariado (de precari(edade) + (prolet)ariado). «Mayday é a chamada via rádio para emergência ou ajuda (deriva do francês m’aidez). A expressão deu nome ao movimento/ideia/marcha contra a precariedade laboral, que em 2001, em Milão, ocorreu pela primeira vez no dia 1 de Maio, Dia Internacional do Trabalhador. Em 2007, chegou a Lisboa e, neste ano, ao Porto. A nível internacional, já passa por Toronto, Helsínquia ou Tóquio, entre muitas outras cidades. Por cá, o grito de guerra será “o precariado dá luta”» («‘O precariado dá luta’», Bernardo Aguiar, Tabu, 24.04.2009, p. 17).


Léxico: «arremprar»

«Arrempra-se»

Li no Destak e arrepiei-me: «Em tempos de crise há que ser imaginativo. Foi com essa premissa em mente que a Sociedade Gestora da Alta de Lisboa (SGAL) criou o conceito imobiliário de “arremprar”, ou seja, conjuga o arrendamento com a possibilidade de comprar o imóvel até ao 60.º mês de contrato» («Em tempo de crise ‘arremprar’ uma casa na Alta de Lisboa», Inês Santinhos Gonçalves, Destak, 27.05.2009, p. 2). É um neologismo rebarbativo, é certo, mas em termos gramaticais de formação irrepreensível: é mais uma amálgama: arre(ndar) + (co)mprar. E já temos sorte não lhes ter saído alumprar, que soaria muito mais sinistro.

Sobre «restaurador»

Conservação e restauro

Já tínhamos restauração na acepção, que eu detesto particularmente, de sector de actividade relacionado com a exploração de restaurantes e outros estabelecimentos afins, do francês restauration. Agora, Miguel Esteves Cardoso foi mais longe: foi buscar ao francês restaurateur a acepção de pessoa que tem um restaurante («personne qui tient un restaurant; traiteur chez lequel on trouve des aliments servis par portions et dont l’espèce et le prix sont indiqués sur une sorte de pancarte», in TLFI) e traduziu-a: eis aí restaurador: «Daí que diga já: são estúpidas (e perdulárias) as pessoas que comem robalos, sargos e douradas antes de Setembro. E são maus os restauradores que os recomendam» («As novidades do peixe», Miguel Esteves Cardoso, Público, 27.05.2009, p. 39). A juntarem-se a D. João IV e ao Restaurador Olex, temos agora milhares de restauradores pelo País fora. Só por uma dessas coincidências raras é que algum será formado pela Escola Superior de Artes Decorativas (ESAD) da Fundação Ricardo do Espírito Santo Silva.

«Há anos atrás»…

Poupem-nos

«Há semanas atrás, no início do novo ano, Malcolm enviou-me um mensageiro com uma peça de seda verde, bordada a ouro, e potes de especiarias e perfumes, juntamente com um pedido da minha mão em casamento» (Lady Macbeth, Susan Fraser King. Tradução de Maria José Santos e revisão de Duarte Camacho. Lisboa: Bertrand Editora, 2009, p. 15). Independentemente de considerações sobre a correcção gramatical desta construção, verdadeira praga dos últimos anos, a que poucos se mostram imunes, parece-me inequívoco que é deselegante. Até, como se vê, em obras revistas ela surge. Recentemente, Ferreira Fernandes assestou-lhe o seu olhar de jornalista sensível à língua: «Há uns anos (há tantos que ainda não se dizia “há uns anos atrás”), eu e uns maduros fomos a Barcelona prestar homenagem ao nosso prazer» («Se o futebol não é um prazer, para que serve?», Notícias Sábado, 9.05.2009, p. 4).

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