Aportuguesamento: «xerpa»

Porque não?

«À cabeça do grupo, Garcia desfia os segredos que o fizeram conquistar uma mão-cheia dos mais altos cumes dos Himalaias, de como prefere treinar-se entre os xerpas, o povo da montanha» («Nos Himalaias com João Garcia», Tiago Salazar, Notícias Sábado, 9.05.2009, p. 19). O Dicionário Houaiss regista este aportuguesamento de sherpa. E a propósito da sequência sh, que não existe em português, lembrei-me de outra palavra que se tem repetido por estes dias: Shoa ou Shoah, palavra que em iídiche significa «catástrofe». É, como se sabe, a palavra usada pelos judeus para se referirem ao Holocausto, pois este termo tem um significado literal que pode ser ofensivo para eles. Na imprensa portuguesa, vê-se também muito a grafia Shoá. Depois do acento agudo, só falta mesmo o x: Xoá.

O uso do apóstrofo


A propósito…



      Numa edição da semana passada do Diário do Minho, que já aqui passou pelo Assim Mesmo, li que se realizou na Universidade do Minho, nos dias 9 e 10 do corrente, a 6.ª edição do Congresso Internacional de Optometria e Ciências da Visão (CIOCV). O artigo, que não está assinado, assegura que «todo o programa do CIOCV’09 está pensado para proporcionar ao optometrista clínico mais e melhores competências para dar resposta aos desafios que se lhe colocam», convicção que não nos interessa. Mas quanto a «CIOCV’09»? Esta moda de usar o apóstrofo para suprimir metade da data ter-se-á tornado notória, entre nós, com a Exposição Mundial de Lisboa de 1998. Questionou-se então a adequação do uso deste sinal diacrítico para este fim e onde deveria ficar e se deveria haver espaçamento (Expo’ 98, Expo ‘98, Expo ‘ 98 ou Expo’98). Como se pode ver na imagem, oficialmente, grafou-se Expo’98. Há, é verdade, abreviação numérica como há abreviação vocabular. Até há uns anos, era relativamente vulgar ler-se e sobretudo ouvir-se referir datas omitindo a casa dos milhares. Alguém nascido em 1939, por exemplo, dizia que nascera em «939» (e pronunciava «nove, trinta e nove»). Na indicação das décadas, «década de 80», também há, de alguma maneira, abreviação. E, em qualquer dos casos, nunca se usa apóstrofo. Pela mesma ordem de ideias, creio que também se não deve usar nestes casos. Logo, eu escreveria CIOCV 09.


Actualização em 30.05.2009

      Afinal encontrei um exemplo em contrário: numa nota de António Sérgio às Odes Modernas de Antero de Quental: «Por via de regra, os liberais de todos os países da Europa interessaram-se pela causa da independência da Polónia, por ocasião das revoltas de 1830 e ’63» (Odes Modernas, Antero de Quental. Edição fac-símile da edição organizada, prefaciada e anotada por António Sérgio [1943], Sá da Costa Editora, 2009, p. 173). «Os radicais prepararam durante alguns anos um novo movimento insurreccional, que veio a rebentar em ’63» (p. 174).



Auxiliar «haver»

Último reduto

      Os falantes têm uma ideia mais ou menos clara de que o modelo mais utilizado na língua portuguesa para a formação de tempos compostos é ter + particípio passado e que o modelo haver + particípio passado tem um acentuado recorte literário e formal, sendo a diferença meramente estilística. Mais ainda, alguns saberão que este último modelo é muito usado na variante brasileira da língua. Contudo, nas traduções, por motivos que não são imediatamente claros, encontramos o último reduto, defendido por tradutores e revisores, desta construção. Numa obra que estou a ler, De Bom a Excelente, de Jim Collins (com tradução de Paulo Tiago Bento e revisão de Ayala Monteiro. 4.ª ed. Lisboa: Casa das Letras, 2008), são inúmeros os exemplos desta construção: «Smith, o advogado de modos suaves da empresa, não tinha muita certeza de que o conselho de administração houvesse feito a escolha certa — e essa dúvida foi reforçada no momento em que um dos directores falou com ele à parte e lhe lembrou que lhe faltavam algumas das qualificações necessárias à posição» (p. 39). «Voltámos a insistir, sublinhando que havíamos seleccionado as empresas bom para óptimo a partir de um desempenho que ultrapassava a média do sector» (p. 61). «Afinal, não havíamos encontrado provas de que as empresas bom para óptimo tivessem sido abençoadas com mais sorte (ou, no caso, com mais azar) do que as empresas de comparação» (p. 62). «Começámos então a reparar no padrão simétrico que apresentavam os executivos das empresas de comparação: eles atribuíam grande parte da culpa à sorte, lamentando-se frequentemente das circunstâncias que haviam encontrado» (p. 62). «Olhando para a evidência empírica, notámos que alguns dos líderes do nosso estudo haviam passado por experiências de vida significativas que talvez tenham iniciado ou estimulado o processo de maturação» (p. 66)…

Acordo Ortográfico

Equívocos lamentáveis

O escritor brasileiro Luiz Carlos Amorim esteve uns dias em Portugal e, já no Brasil, de Florianópolis, escreveu ao Diário de Notícias uma carta cheia de equívocos. Um excerto: «O que me chamou [a] atenção foi a não adesão dos portugueses, ainda, ao Acordo Ortográfico. A começar pela fala cotidiana, passando pela televisão e até nos jornais» («Acordo Ortográfico: reforma contestada», Luiz Carlos Amorim, Diário de Notícias, 11.05.2009, p. 7). Como é que um escritor pode estar tão desinformado e dizer tais tontices? Bem, não sei, e lamentável é que um jornal dito de referência deixe os seus leitores desnorteados com textos assim.
Que mudanças na fala — isto é, no discurso oral — esperava o escritor vir aqui encontrar? Talvez que andássemos todos a articular pernóstica e metodicamente os cc e os pp — para os podermos conservar na escrita! Como Fernando Venâncio escreveu no Aspirina B: «Se vamos passar a escrever só (mas também sempre) os «c» e os «p» que pronunciarmos, há uma forma muito simples de conservá-los: é passarmos a pronunciá-los sempre.
Até hoje, nunca pronunciei «espeCtadores», ou «caraCterística», como ouço tanta gente fazer. Pareceu-me parvoíce. Ah, como eu estava enganado!» («óPtimo, não é?», 26.01.2009). Por outro lado, valha-me Deus!, o escritor não se deu conta de que o Acordo Ortográfico ainda não entrou em vigor em Portugal?

«Bigle», «blogue»…

Dos cães e dos blogues     


      No centro da vida e obra de Charles Darwin, de quem se comemora este ano o bicentenário do nascimento, está o HMS Beagle (a que alguns alunos, já li, chamam caravela…). Ora nós temos a palavra «bigle». Na verdade, é um empréstimo linguístico do inglês beagle. Designa um galgo pequeno, utilizado na caça de coelhos e lebres. A adaptação fonética e gráfica seguida é comum a muitos outros empréstimos. É assim que a adaptação do neologismo e estrangeirismo blog é, muito naturalmente, blogue, como desde o primeiro momento preferi, usei e se vai impondo. Apraz-me ver que até um anglófilo como Miguel Esteves Cardoso usa o aportuguesamento «blogue»: «O que é desconcertante não é a devassa do sigilo bancário — se eles pudessem, transformavam todas as nossas contas em blogues que pudessem consultar quando quisessem —, mas a distinção entre indivíduos e empresas» («O bloco Vienneta», Miguel Esteves Cardoso, Público, 22.04.2009, p. 31). O aportuguesamento, não tenho dúvidas, é o caminho para integrarmos vocábulos estrangeiros, habitualmente neologismos, na língua portuguesa.

«Cozinheiro-em-chefe»?

Alguns acertam

Se comandante-em-chefe é má tradução do francês, cozinheiro-em-chefe também é uma criação vocabular maculada de francesia: «Tanto mais que foi ele [Jamie Oliver] o cozinheiro-em-chefe da recente cimeira G-20» («E não se pode exterminá-lo?», Miguel Calado Lopes, Única, 9.05.2009, p. 68).
Correcto: «A cerimónia de despedida do vice-almirante Silva Santos como comandante-chefe do quartel-general da NATO em Oeiras, na tarde de 18 de Março de 2004, terminou de forma invulgar: junto ao portão, cumprimentando um a um os militares e civis que tinham formado duas alas desde a entrada principal do edifício de comando» («O almirante a quem a NATO ‘abriu alas’ na despedida», Manuel Carlos Freire, Diário de Notícias, 11.05.2009, p. 45)

Sobre «casual»

Depende do acaso

Apenas dicionários «pós-modernos» como o Houaiss, como há quem diga depreciativamente, registam no verbete referente ao adjectivo casual a acepção de «concebido para uso informal», a partir do inglês casual, «informal, desportivo», como em casual clothes. (Verbete que, de resto, neste dicionário precisa de ser revisto, pois contém incorrecções.) No excerto que se segue, o vocábulo é tratado como um verdadeiro estrangeirismo, o que é raro ver-se: «Talvez Wilbert Das, o director criativo da marca italiana de roupa “casual” Diesel, resuma o que pensam os seus camaradas de ofício (e não só) quando diz: “No universo da moda tudo é efémero e frenético. Alguns designers sentem o apelo de se envolverem em algo que dure mais do que uma estação”» («Eles também têm hotéis», Única, 9.05.2009, p. 56). Há muito tempo que o vocábulo casual, contra ventos e marés, se integrou na língua portuguesa. Esta integração revela-se na adaptação das vogais e das consoantes ao sistema fonológico do português sem qualquer alteração gráfica, como ocorreu noutros vocábulos. No caso, a adaptação deu-se também por deslocamento do acento, pois no original tem acento primário na primeira sílaba e passou para o léxico do português com acento na terceira sílaba (é um oxítono). Para muitos falantes, casual não é só o «que depende do acaso», mas (por ignorância? por opção?) o que é «informal».

Os limites da revisão

É pêra, mas não é doce

Foi alegria de pouca dura: na edição de sábado passado da revista Única, num texto assinado por Teresa Resende, lia-se «pêra-rocha», tal como eu perguntava aqui porque não se escrevia assim. Das oito ocorrências, só uma, na entrada, é grafada com hífen. Uma das ocorrências não vale, pois é o nome da associação de produtores: Associação Nacional de Produtores de Pêra Rocha (ANPPR). Ou vale? É que a autora do texto corrigiu, de qualquer modo, a grafia da designação da associação, já que no sítio da ANPPR o vocábulo «pêra» está grafado incorrectamente *pera. O que suscita a questão, que já uma vez aqui aflorei, da legitimidade de corrigir, num texto que se está a rever, o nome oficial de uma dada entidade. Imaginemos que no nosso texto se refere o Instituto Inter-Universitário de Macau. Ora, se o elemento de formação de palavras inter- apenas é seguido de hífen quando o segundo elemento tem vida própria e começa por h ou por um r que não se ligue foneticamente ao r anterior, correcto seria interuniversitário. O que acham os leitores? Talvez no dia 1 de Junho proponha a mesma reflexão na conferência integrada no curso de formação avançada em Revisão e Edição de Texto ministrado na Universidade Católica Portuguesa (UCP), para a qual fui convidado.

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