Léxico: «golada»

Ainda não aprenderam

«A erosão costeira em vários pontos do país, nomeadamente na Costa da Caparica, Setúbal, não pode ser combatida com a colocação de areia artificial nas praias, alertaram ontem especialistas. “Só o fecho da golada permitirá assegurar a protecção definitiva das praias da Costa, facilitar a navegação no Tejo e ganhar terrenos ao mar”, disse José Manuel Cerejeira, especialista em obras marítimas» («Erosão combatida sem areia artificial», Metro, 11.05.2009, p. 2). A única golada que o leitor comum conhece é a de uma cerveja Sagres em frente de um jogo de futebol, com goleada ou não. Embora as práticas estejam a mudar, é vezo antigo de alguns jornalistas ficarem tão maravilhados perante uma palavra nova, que a não explicam aos leitores, destinatários últimos daquilo que escrevem. No Diário de Notícias, o mesmo texto, «Combate a erosão da costa tem sido pouco eficaz», assinado por D. M. (p. 20 da edição de hoje) padece do mesmo mal. Golada, no contexto do texto citado, é o canal de navegação, nos extremos dos bancos de areia de uma barra, transitável por pequenos barcos.

Verbo «ruir»

Língua arruinada

«Fachada de prédio rui sem causar feridos» (Destak, 7.05.2009, p. 4). Está correcta aquela forma verbal, «rui»? O verbo ruir é defectivo, ou seja, raramente se conjuga em todas as formas do paradigma (quer dizer, do modelo de conjugação) a que pertence.
Na semana passada, uma consulente do Ciberdúvidas, Alda Durães, tradutora, quis saber se podia usar a forma verbal rui ou se devia substituí-la por está a ruir. Para espanto meu, o consultor, Carlos Marinheiro, afirmou que «de qualquer modo, a forma usual é “está a ruir” (“O prédio está a ruir”)». É? Esperava que o consultor, dada a pouca frequência do uso daquela forma verbal, aconselhasse o uso de outro verbo sinónimo não defectivo, como desmoronar-se. Conjugado da forma perifrástica que o consultor aconselha, dá ideia que o acto de ruir nunca se concretiza, é sempre apenas uma ameaça. Experimentem substituir «rui» por «está a ruir» na frase com que inicio este texto: «Fachada de prédio está a ruir sem causar feridos.» Isto tem algum sentido? Agora comparem a forma verbal aconselhada com o fecho da notícia: «A derrocada afectou um semáforo e barricou a estrada.»
A forma verbal rui, que pertence ao presente do indicativo, está por outra, ruiu, que pertence ao pretérito perfeito simples, habitualmente um marcador linguístico de valor perfectivo (o consultor errou). Ora, o valor aspectual transmitido pela perífrase verbal (verbo auxiliar + preposição a + verbo principal) veicula uma ideia de acção durativa que decorre num momento específico (o consultor está a dormir).

«Cruzar-se com»

Dispor em forma de cruz

«Autêntica estrela do programa que vai ser transmitido no início de Maio em 144 países, Kate disse a Oprah que sentia que Maddie ainda estava viva e que, apesar de não a reconhecer nas novas imagens, seria capaz de a reconhecer na rua se por acaso a viesse a cruzar, o que não deixou de arrancar alguns suspiros de emoção da plateia» («Kate não reconheceu a nova cara de Maddie», Duarte Levy, 24 Horas, 27.04.2009, p. 22). Ultimamente, vejo com alguma frequência este erro de regência, não apenas em traduções, mas em autores portugueses. Na acepção usada, a de duas ou mais pessoas se encontrarem quando caminham em direcções opostas, o verbo é pronominal e regido da preposição com: cruzar-se com. E também se pode dizer: «Kate e Maddie cruzaram-se na rua e não se reconheceram.»

Jargão médico II

Tac e tiques



      Falando sobre sexo na gravidez, Júlio Machado Vaz acaba de dizer no programa O Amor É… que alguns homens «fazem depressão» quando as mulheres estão grávidas. Como em relação ao género da sigla TAC, e ao contrário da opinião do leitor R. A., não creio que o falante comum lhe atribua o género masculino por analogia com as palavras «ataque» e «achaque», por exemplo, nem, como teorizam alguns consultores do Ciberdúvidas, por estar ali pressuposto o vocábulo «exame», mas simplesmente por ouvirem os médicos falar assim. Os erros são da classe médica, os falantes, sobretudo os pouco escolarizados, limitam-se a assimilar e a propagar os erros. Quanto a computorizado ou computadorizado, a influência inglesa é manifesta, e o povo não é para aqui chamado, e isso porque nunca ouvi qualquer falante desdobrar a sigla TAC. Nunca.


O verbo «parar»

Cartas ao director

      O leitor Elysio Correia Ribeiro mandou uma carta ao jornal Público e quis partilhar comigo o seu teor:

«Exmo. Senhor Director,
Ciclicamente mimoseia-nos o Público com novos disparates em português. Na edição de hoje li, por duas vezes, “páram” assim escrito, com acento agudo no “a”, uma delas logo na primeira página na notícia sobre touradas.
Talvez fosse bom dizer aos seus jornalistas que, no presente do indicativo do verbo parar, apenas a 3.ª pessoa do singular — pára — tem acento, para se distinguir de “para”. Não se escreve “páro”, “páras” nem “páram”!
PAREM — não párem — portanto de contribuir para a estupidificação das gentes, sim?
Cordialmente,
Elysio Correia Ribeiro».

     Convém recordar que, pelo Acordo Ortográfico de 1990, para (á), flexão de parar, e para, preposição, passam a deixar de se distinguir pelo acento gráfico.

«País-membro»?

Falemos disto


      «Organização Mundial de Saúde (OMS) pediu aos países-membros que activem os seus planos contra a epidemia da gripe suína, depois de ter elevado para cinco o nível de alerta pandémico da doença, o segundo mais grave» («OMS aumenta nível de alerta para pandemia de gripe suína», Global Notícias, 30.04.2009, primeira página). De vez em quando, lê-se, sobretudo na imprensa, o vocábulo composto país-membro (geralmente no plural, países-membros). Está correcto escrever assim, com hífen? Só conheço uma obra que aborda a questão: o Manual de Redação e Estilo de O Estado de S. Paulo, de Eduardo Martins (São Paulo: Editora Moderna, 3.ª ed., 1997), nas páginas 176 e 274: «Membro. Use como adjetivo quando vier depois de um substantivo: país membro, estados membros.» «Substantivo mais substantivo. Quando dois substantivos se unem na frase formando um conjunto, podem ocorrer duas situações:
      1 — O segundo modifica o primeiro com a função de adjetivo, dispensando, por isso, o hífen. Exemplos: funcionários fantasmas, rádio pirata, formiga gigante, torneio relâmpago, garoto prodígio, país membro, camisa esporte, marca recorde, fita cassete, usina piloto, concentração monstro.
      2 — O segundo representa uma superposição em relação ao primeiro e por isso o hífen se impõe: elemento-surpresa, atleta-sensação, mulher-maravilha, criança-fenômeno, papel-título, desconto-padrão, imagem-síntese, preso-problema, disco-solo, país-símbolo, linguagem-modelo, posto-chave, carro-bomba, mandato-tampão, torneio-incentivo, torneio-início, homem-máquina, personagem-tipo, ponto-limite, público-alvo, salário-base, homem-hora, garoto-propaganda, edifício-sede, auxílio-maternidade, hora-aula, carnê-leão, almoço-homenagem, vale-transporte, caderneta-pecúlio, cidade-porto, empréstimo-ponte, carro-pipa, país-continente
      Bem, não concordo. Pegando no exemplo mais flagrante, «estados membros», é óbvio que vai contra o uso português e contra uma lógica que me parece irrebatível: uma vez que as duas palavras (e é claro que «Estado» é com maiúscula) formam inequivocamente um todo com significado próprio, o hífen impõe-se. Por analogia, não vejo como negar que país-membro também deve levar hífen. Naturalmente que, pela nossa pertença à União Europeia, o vocábulo Estado-membro passou a fazer parte do nosso quadro linguístico, ao passo que país-membro é relativamente raro, de onde advirá a estranheza que os falantes poderão sentir ao lê-lo.

Actualização em 14.1.2010

      «A União Europeia, num “primeiro gesto”, desbloqueou três milhões de euros para auxílio de emergência e vários países-membros desencadearam acções próprias: a França, antiga potência colonizadora, enviou dois aviões com ajuda e equipas de socorro» («Lançada “operação de ajuda em massa”», João Manuel Rocha, Público, 14.1.2010, p. 3).

Sobre «palestino»

Também eu


      Não sei se Jorge Sampaio, alto-representante da ONU para a Aliança das Civilizações, usa «palestino» em vez de «palestiniano», mas, a fazer fé na transcrição da entrevista que deu ao Diário de Notícias, a acrescer ao facto de este diário usar sempre «palestiniano», assim é: «Houve uma desconfiança inicial, por ser uma iniciativa da ONU que falava de Israel e dos palestinos, mas o presidente Obama representa uma linha que vai claramente no sentido da Aliança das Civilizações» («“Sou prudente. Houve uma obamania exagerada”», Diário de Notícias, 12.04.2009, p. 5).

«Júri» e «jurado»

Simples, pois…

Estava aqui a ler o regulamento de um concurso internacional e apareceu a palavra «jury». Tentei então lembrar-me de quando tinha sido a última vez que tinha visto um profissional, um jornalista, a confundir júri com jurado. Procurei nos meus registos, e ei-la: «[Pedro Granger] É júri num programa de talentos e apresentador e moderador de um programa de debate sobre a juventude» («Objectos», Mariana Guedes de Sousa, Pública, 26.04.2009, p. 55).

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