Jargão médico II

Tac e tiques



      Falando sobre sexo na gravidez, Júlio Machado Vaz acaba de dizer no programa O Amor É… que alguns homens «fazem depressão» quando as mulheres estão grávidas. Como em relação ao género da sigla TAC, e ao contrário da opinião do leitor R. A., não creio que o falante comum lhe atribua o género masculino por analogia com as palavras «ataque» e «achaque», por exemplo, nem, como teorizam alguns consultores do Ciberdúvidas, por estar ali pressuposto o vocábulo «exame», mas simplesmente por ouvirem os médicos falar assim. Os erros são da classe médica, os falantes, sobretudo os pouco escolarizados, limitam-se a assimilar e a propagar os erros. Quanto a computorizado ou computadorizado, a influência inglesa é manifesta, e o povo não é para aqui chamado, e isso porque nunca ouvi qualquer falante desdobrar a sigla TAC. Nunca.


O verbo «parar»

Cartas ao director

      O leitor Elysio Correia Ribeiro mandou uma carta ao jornal Público e quis partilhar comigo o seu teor:

«Exmo. Senhor Director,
Ciclicamente mimoseia-nos o Público com novos disparates em português. Na edição de hoje li, por duas vezes, “páram” assim escrito, com acento agudo no “a”, uma delas logo na primeira página na notícia sobre touradas.
Talvez fosse bom dizer aos seus jornalistas que, no presente do indicativo do verbo parar, apenas a 3.ª pessoa do singular — pára — tem acento, para se distinguir de “para”. Não se escreve “páro”, “páras” nem “páram”!
PAREM — não párem — portanto de contribuir para a estupidificação das gentes, sim?
Cordialmente,
Elysio Correia Ribeiro».

     Convém recordar que, pelo Acordo Ortográfico de 1990, para (á), flexão de parar, e para, preposição, passam a deixar de se distinguir pelo acento gráfico.

«País-membro»?

Falemos disto


      «Organização Mundial de Saúde (OMS) pediu aos países-membros que activem os seus planos contra a epidemia da gripe suína, depois de ter elevado para cinco o nível de alerta pandémico da doença, o segundo mais grave» («OMS aumenta nível de alerta para pandemia de gripe suína», Global Notícias, 30.04.2009, primeira página). De vez em quando, lê-se, sobretudo na imprensa, o vocábulo composto país-membro (geralmente no plural, países-membros). Está correcto escrever assim, com hífen? Só conheço uma obra que aborda a questão: o Manual de Redação e Estilo de O Estado de S. Paulo, de Eduardo Martins (São Paulo: Editora Moderna, 3.ª ed., 1997), nas páginas 176 e 274: «Membro. Use como adjetivo quando vier depois de um substantivo: país membro, estados membros.» «Substantivo mais substantivo. Quando dois substantivos se unem na frase formando um conjunto, podem ocorrer duas situações:
      1 — O segundo modifica o primeiro com a função de adjetivo, dispensando, por isso, o hífen. Exemplos: funcionários fantasmas, rádio pirata, formiga gigante, torneio relâmpago, garoto prodígio, país membro, camisa esporte, marca recorde, fita cassete, usina piloto, concentração monstro.
      2 — O segundo representa uma superposição em relação ao primeiro e por isso o hífen se impõe: elemento-surpresa, atleta-sensação, mulher-maravilha, criança-fenômeno, papel-título, desconto-padrão, imagem-síntese, preso-problema, disco-solo, país-símbolo, linguagem-modelo, posto-chave, carro-bomba, mandato-tampão, torneio-incentivo, torneio-início, homem-máquina, personagem-tipo, ponto-limite, público-alvo, salário-base, homem-hora, garoto-propaganda, edifício-sede, auxílio-maternidade, hora-aula, carnê-leão, almoço-homenagem, vale-transporte, caderneta-pecúlio, cidade-porto, empréstimo-ponte, carro-pipa, país-continente
      Bem, não concordo. Pegando no exemplo mais flagrante, «estados membros», é óbvio que vai contra o uso português e contra uma lógica que me parece irrebatível: uma vez que as duas palavras (e é claro que «Estado» é com maiúscula) formam inequivocamente um todo com significado próprio, o hífen impõe-se. Por analogia, não vejo como negar que país-membro também deve levar hífen. Naturalmente que, pela nossa pertença à União Europeia, o vocábulo Estado-membro passou a fazer parte do nosso quadro linguístico, ao passo que país-membro é relativamente raro, de onde advirá a estranheza que os falantes poderão sentir ao lê-lo.

Actualização em 14.1.2010

      «A União Europeia, num “primeiro gesto”, desbloqueou três milhões de euros para auxílio de emergência e vários países-membros desencadearam acções próprias: a França, antiga potência colonizadora, enviou dois aviões com ajuda e equipas de socorro» («Lançada “operação de ajuda em massa”», João Manuel Rocha, Público, 14.1.2010, p. 3).

Sobre «palestino»

Também eu


      Não sei se Jorge Sampaio, alto-representante da ONU para a Aliança das Civilizações, usa «palestino» em vez de «palestiniano», mas, a fazer fé na transcrição da entrevista que deu ao Diário de Notícias, a acrescer ao facto de este diário usar sempre «palestiniano», assim é: «Houve uma desconfiança inicial, por ser uma iniciativa da ONU que falava de Israel e dos palestinos, mas o presidente Obama representa uma linha que vai claramente no sentido da Aliança das Civilizações» («“Sou prudente. Houve uma obamania exagerada”», Diário de Notícias, 12.04.2009, p. 5).

«Júri» e «jurado»

Simples, pois…

Estava aqui a ler o regulamento de um concurso internacional e apareceu a palavra «jury». Tentei então lembrar-me de quando tinha sido a última vez que tinha visto um profissional, um jornalista, a confundir júri com jurado. Procurei nos meus registos, e ei-la: «[Pedro Granger] É júri num programa de talentos e apresentador e moderador de um programa de debate sobre a juventude» («Objectos», Mariana Guedes de Sousa, Pública, 26.04.2009, p. 55).

Léxico: «biofilme»

Ah, chamam-lhe isso?

      «Como os fiambres e as mortadelas são produtos sensíveis, devem ser consumidos apenas dentro do prazo. Tenha especial atenção à formação de um biofilme de gordura no exterior, “possível sinal de microrganismos que podem causar febres e diarreias ou até malformações do feto em grávidas”» («Até quando posso comer…», Bárbara Bettencourt, Activa Saúde & Beleza, n.º 222, 2009, p. 60). Trata-se de um neologismo, empréstimo do inglês biofilm («a thin usually resistant layer of microorganisms (as bacteria) that form on and coat various surfaces (as of water pipes and catheters)», in Merriam-Webster), tendo-se registado o seu primeiro uso em 1981.

Actualização em 10.05.2009

      Vale a pena trazer para aqui a sugestão deixada na caixa de comentários pelos leitores Pedro e Fernando Ferreira: que biopelícula é termo mais adequado. Não me ocorreu na altura, mas concordo.


Parónimos

Perfeito, bedel

      Quando leio em gramáticas e em manuais escolares, como exemplo de parónimos, as palavras «prefeito» e «perfeito», rio-me sempre. Uma criança brasileira sabe o que é um prefeito, como o saberá um luso-descendente (e quando é que no Diário de Notícias começam a grafar correctamente esta palavra? «Bebé lusodescendente em coma induzido» [Alexandra Carreira, 26.01.2009, p. 24]) que viva em França ou na Suíça. Para uma criança portuguesa, um prefeito é algo tão obscuro como um bedel para a generalidade dos leitores. Palavras parónimas, vale lembrar, são as que têm escrita e pronúncia semelhantes e são passíveis de confusão. Um dos melhores exemplos são as palavras «dispensa» e «despensa». Acabei de rever um texto em que se lia: «O futuro da humanidade passa por olhar, de novo, para a Terra como a verdadeira dispensa, e privilegiar os produtos biológicos às refeições.» Entre eminente e iminente, florescente e fluorescente, descrição e discrição, apóstrofe e apóstrofo, as confusões são diárias…

Léxico: «cinegenia»

Quase cinegético

«No novo filme de Wim Wenders, Imagens de Palermo [Palermo Shooting, no original], o mais famoso punk rocker da Alemanha mostra toda a sua cinegenia» («Debutante. Campino», Rui Pedro Tendinha, Notícias Magazine, 1.03.2009, p. 18). Já tínhamos fotogenia, que é a qualidade do que fica bem representado ou resulta bem em fotografia. Cinegenia, termo que vai aparecendo, mas ainda arredado dos dicionários, é então a qualidade do que fica bem representado ou resulta bem em cinema. Fica também aberta a porta para o adjectivo cinegénico, à semelhança de telegénico.

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