Ortografia: «rulote»

Ficamos a meio?

«Incêndio consome armazém de roulotes e caravanas» (26.12.2008, Diário de Notícias, p. 21). Justamente como ocorre com os vocábulos «icebergue» e «basebol», que aqui vimos recentemente, o vocábulo «roulote» foi apenas parcialmente aportuguesado. Ter perdido apenas um troulotte — na passagem do francês para o português não é suficiente e revela como os lexicógrafos ficam muitas vezes nas meias-medidas. Não nos esqueçamos que quase todos os dicionários são, em alguma medida, tão descritivos como prescritivos.

Léxico: «esteiro»

Soeiro Pereira Gomes (1909–1949)

Que a efeméride sirva também para lembrar o que são esteiros — título do seu romance com ilustrações de Álvaro Cunhal publicado em 1941 —, pois é a palavra que logo ocorre quando se fala deste escritor neo-realista. Esteiros são braços estreitos de rio ou mar que se estendem pela terra dentro. No caso, são canais abertos pelo Tejo na margem do concelho de Alhandra e de onde se retirava barro para fazer tijolos e telhas. O étimo é o latino aestuariu-, «lugar onde a água ferve». É palavra divergente de «estuário», parte de um rio, próxima da sua foz no mar, onde a água doce se confunde com a salgada.

Abuso de estrangeirismos


Mostras de cosmopolitismo

Cake Parade, em Portalegre? Deve ser para competir com as Gay Parades por esse mundo fora. Só pergunto se não arranjavam um nome português para esta iniciativa, uma mostra de arte pública, integrada na IX Feira da Doçaria Conventual de Portalegre, a decorrer no Mosteiro de S. Bernardo, em Portalegre, de 24 a 26 de Abril. Calma, não se abespinhem! É verdade: já me esquecia de algo mais parecido e igualmente digno: a Cow Parade. Os organizadores, próvidos e cosmopolitas, devem ter pensado que seria menos artístico ter um nome português e, sobretudo, que nem toda a gente perceberia se estivesse escrito nesta língua assaz obscura.

Léxico: «navalha do tipo “borboleta”»

Imagem: http://testex.com.sapo.pt/

No fio da navalha



      «O caso está em apreciação no Tribunal da Relação de Lisboa (TRL). Na primeira instância, Bruno foi condenado, entre outros crimes, por detenção de arma proibida. Uma navalha tipo “borboleta” que lhe foi apreendida» («Tamanho da lâmina de uma navalha conta», Carlos Rodrigues Lima, Diário de Notícias, 26.12.2008, p. 11).
      A discordância em casos semelhantes centra-se no facto de o Ministério Público entender que esta arma tem disfarce, ou seja, um mecanismo, borboleta, que permite a ocultação da lâmina no seu corpo, de modo a não ser reconhecida por terceiros como arma branca quando está fechada, à semelhança da navalha de ponta-e-mola, ao passo que a defesa nega que a borboleta configure um disfarce. Há também quem entenda que não se trata de uma navalha, mas sim de uma faca.

«Conta-quilómetros» e «celerímetro»


Mas então?...


      «Fonte próxima do processo disse ao DN que o ponteiro do conta-quilómetros estava partido, devido à violência da colisão, admitindo as autoridades que o carro circulasse a uma velocidade perto dos 240, o que ajuda a explicar que a viatura entrasse desgovernada na berma da estrada onde andou ao longo de cem metros e se tivesse partido ao meio, antes de se incendiar, ficando irreconhecível» («Condutor ia a 220 km/hora mas não tinha álcool», Robert Dores, Diário de Notícias, 6.01.2009, p. 21). Não é raro os falantes confundirem conta-quilómetros com celerímetro, mas lamentável que um jornalista o faça. Isto pensava eu, até ter lido no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «Conta-quilómetros nome masculino 2 números aparelho que indica a velocidade e o número de quilómetros percorridos por um veículo (De contar+quilómetro).» Mas afinal o instrumento que serve para determinar a velocidade de um veículo não é o celerímetro (speedometer em inglês)? Não se tratará de mais uma cedência dos dicionaristas aos erros do senso comum?

Léxico: «mazute»

Imagem: http://nnbonnet.free.fr/

Grandes distraídos…


«O Governo ucraniano deu ontem indicações para que o gás natural comece a ser substituído pelo mazout (óleo) no aquecimento» («Leste da Europa a tremer de frio sem o gás russo», Susana Salvador, Diário de Notícias, 7.01.2009, p. 25). Muito interessante — mas a palavra já corre por aí aportuguesada: mazute. É uma palavra russa, mas ter-nos-á chegado através do francês mazout. É um produto petrolífero líquido, de cor negra e de aspecto viscoso, resíduo da destilação fraccionada do petróleo bruto.

«Escalamento» e «escalonamento»

Assim não sobem




      «O outro jovem que com ele seguia e que acabou detido, Michel Mendes, tinha 19 anos e igualmente um vasto currículo criminal — já tinha sido detido em Março por furto no interior de um automóvel, e, em Abril, por furto em residência por escalonamento» («Família garante que o jovem não tinha armas», Licínio Lima, Diário de Notícias, 7.01.2009, p. 23). Era de toda a conveniência que os jornalistas de vez em quando consultassem um dicionário da língua portuguesa. Escalonamento é a disposição em degraus, a distribuição por níveis, graduação ou a organização segundo um dado critério, agrupamento. Escalamento, por sua vez, é o acto ou efeito de subir ou trepar, escalada. Entre os próprios verbos, escalar e escalonar, também já tenho visto grandes confusões. Claro que, tratando-se muitas vezes de gangues, bem podem operar por escalonamento…

Conjunção subordinativa final

A golpes de gládio


      Na obra que citei no texto anterior, escreve Fernando Cabral Martins: «O primeiro verso saiu na 1.ª edição, lição que é recebida na edição crítica de José Augusto Seabra, assim: “Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça”. Segundo a mesma edição crítica, este “porque” teria uma “função de conjunção final” (28). O facto é que só pode ter essa função se tiver a forma disjunta “por que”. Isto mesmo leu David Mourão-Ferreira, que escreve o verso desse modo — aqui seguido. No espólio, há um dactiloscrito (121-2) em que o verso tem esta mesma forma» (pp. 98-99). Celso Cunha e Lindley Cintra não sancionam a crítica do autor, pois entre as conjunções e as locuções conjuncionais subordinativas finais enumeram: para que, a fim de que, porque (Nova Gramática do Português Contemporâneo. 3.ª ed., 1986, p. 582). Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa. 37.ª ed. Rio de Janeiro, 2002, p. 328) diz precisamente o mesmo.


Arquivo do blogue