Sobre «janela de oportunidade»


Contributos da ciência

A esta hora, deve haver criminosos a usar a expressão «janela de oportunidade». «Meu, quando tivermos uma janela de oportunidade, assaltamos aquela moradia no Restelo de que nos falaram aqueles bacanos ontem.» Janela de oportunidade não significa mais do que um breve período de tempo em que ocorrem particulares vantagens para fazer qualquer coisa. É a tradução literal do inglês window of oportunity, tendo começado a ser usada metaforicamente naquela língua, na década de 1960, na astronomia, passando depois à economia, estando agora na rua. (Não ainda nas ruas da amargura.) Na década de 1970, surgiu a locução window of vulnerability, que nunca vi traduzida para português.

Sobre «retaguarda»

Vade retro

Apanhados desprevenidos, muitos falantes não sabem se o vocábulo «retaguarda» tem ou não c. Certo, certo é que vejo a palavra inúmeras vezes incorrectamente escrita: «rectaguarda». Aconteceu agora mesmo, num texto de uma professora universitária (que não terá sido apanhada desprevenida…). Bem, talvez valha a pena esclarecer porque é que não tem c. O étimo é o espanhol retaguardia, com os mesmos significados. E este retaguardia provém de uma palavra, actualmente caída em desuso, em que o sentido de recto (como em «rectângulo») não está presente, que é retroguardia: de início, apenas a porção de uma força, de uma guarda, que avança em último lugar. Para tudo acabar bem, de acordo com as novas regras ortográficas, passar-se-á a escrever retângulo. Suspeito é que, daqui a vinte anos, muita gente ainda não saiba, como sucede com a regra da prioridade nas rotundas, que ainda não entrou na cabecinha de todos os automobilistas.

Sobre «pedigree»

Palavras bastardas

A etimologia é, não há qualquer dúvida, uma das áreas mais interessantes da língua. Acabei agora de ler que o duque de Saldanha (1790―1876) tinha «o necessário pedigree aristocrático e era um marechal do exército com fama de invencível». Pedigree é um vocábulo inglês e vem do francês pied-de-grue, que significa pata de grou. Antigamente, os criadores de cavalos marcavam os animais com três segmentos de recta alinhados de tal forma (em leque aberto) que pareciam as patas de um grou, ave encontrada em planícies e zonas pantanosas de quase todo o mundo.
A. Tavares Louro, consultor do Ciberdúvidas, sugere que, equivalendo o termo a genealogia, linhagem ou ancestralidade, «algumas pessoas podem ter relutância em usar estes vocábulos relativamente aos animais e, por isso, optam por uma palavra estrangeira». O que bem pode ser verdade. Curioso é que depois se vá buscar o termo — nesta acepção, completamente desnecessário — precisamente para referir a linhagem de determinada personagem.

Sobre «criatura»

Boa acepção

Na catequese, ouvíamos falar das criaturas de Deus, todos os seres criados. Em casa, ouvíamos falar, em especial depois de alguma travessura, em criaturas do Diabo. Mais tarde, ouvimos falar de outras criaturas. Leio agora que o governador do castelo de Lisboa era uma criatura do duque da Terceira, ou seja, dependia do duque. Hoje em dia, não faltarão criaturas de Sócrates. E, por causa das hierarquias, ainda mais criaturas de criaturas de Sócrates. Depois das eleições, as criaturas mudam. Andamos assim desde o século XIX.

Sobre «real»


Na real gana

Em 1834, a rainha D. Maria II enviou ao Porto o coronel João Ferreira Sarmento com uma carta para a Junta Provisória escrita «pelo seu real punho», noticiava a imprensa da época. Palavras evocam palavras: ao ler «pelo seu real punho», lembro-me logo do Paço do Lumiar. Há ali um, muito bom, restaurante chamado Tertúlia do Paço. Mais expressivo ainda, o Real Colégio de Portugal, que pertence ao Grupo Lusófona, também tem sede ali e decerto que o qualificativo advém somente da localização. Mais monárquico será a Real Funerária, também na zona, que até faz desconto a militantes (com as quotas pagas?) do Partido Popular Monárquico, um irrecusável incentivo a deixar-se morrer mais cedo. Numa república, tudo o que for ou aparentar ser monárquico será, no mínimo, alvo de atenção. As palavras têm um valor conotativo efectivo, real.

«Antirreeleição»


Para espantar?

Escreve o leitor Paulo Araujo que tem notado que os jornais brasileiros, parece que propositadamente, estão agora a usar palavras que sofreram alteração ortográfica com o Acordo Ortográfico de 1990, «talvez até por pedantismo», suspeita «mas isto tem um sentido educativo muito importante; as pessoas acabam aprendendo sem se preocuparem de estudar o assunto». A imagem mostra uma manchete de uma notícia no Estadão de hoje, em que se pode ler «um palavrão (apenas no tamanho), mas recomendo ao leitor malévolo para buscar a acepção correta de “racha” para esse contexto». Já aqui tínhamos visto a mesma acepção para esta palavra: cisão de um grupo político, de um partido. Para os Brasileiros como para nós, «racha» também é a vagina, mas é vocábulo que quase não vejo ser usado.
A imprensa pode ter realmente um papel muito importante na rápida assimilação das novas regras ortográficas, muitas vezes até forçando a nota. É pedagógico, sim.

Nomenclatura científica


Ainda não é desta

      No texto principal, «Penas e dinossauros evoluíram juntos» (Diário de Notícias, 19.03.2009, p. 31), a jornalista, Susana Salvador, nunca deixou de grafar correctamente os nomes científicos dos dinossauros: Sinosauopteyx prima e Tianyulong confuciusi. No texto de apoio, que se reproduz acima, o nome científico do dinossauro referido nunca é bem grafado. Não é nenhuma excepção, senhora jornalista: escreve-se Tyranossaurus rex. T-rex, para os amigos.

Acordo Ortográfico

Não ficamos em branco

Um acordo ortográfico, qualquer que seja, não é uma lei que se destine a ter vigência temporária, pelo que só deixa de vigorar se for revogado por outra lei. Ora, se o Acordo Ortográfico de 1990 não contém nenhuma norma revogatória expressa, a revogação das regras ortográficas que ainda nos regem só pode resultar ou da incompatibilidade com as novas disposições ou da circunstância de a nova lei regular toda a matéria da lei anterior. As perguntas que se impõem são: o novo acordo ortográfico regula toda a matéria anterior? Se não regular, e creio que não regula, que podemos fazer? Em meu entender, como acontece noutros domínios regulados juridicamente, continuarão em vigor as disposições precedentes. Ainda não li nenhuma opinião neste sentido.

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