Sobre «criatura»

Boa acepção

Na catequese, ouvíamos falar das criaturas de Deus, todos os seres criados. Em casa, ouvíamos falar, em especial depois de alguma travessura, em criaturas do Diabo. Mais tarde, ouvimos falar de outras criaturas. Leio agora que o governador do castelo de Lisboa era uma criatura do duque da Terceira, ou seja, dependia do duque. Hoje em dia, não faltarão criaturas de Sócrates. E, por causa das hierarquias, ainda mais criaturas de criaturas de Sócrates. Depois das eleições, as criaturas mudam. Andamos assim desde o século XIX.

Sobre «real»


Na real gana

Em 1834, a rainha D. Maria II enviou ao Porto o coronel João Ferreira Sarmento com uma carta para a Junta Provisória escrita «pelo seu real punho», noticiava a imprensa da época. Palavras evocam palavras: ao ler «pelo seu real punho», lembro-me logo do Paço do Lumiar. Há ali um, muito bom, restaurante chamado Tertúlia do Paço. Mais expressivo ainda, o Real Colégio de Portugal, que pertence ao Grupo Lusófona, também tem sede ali e decerto que o qualificativo advém somente da localização. Mais monárquico será a Real Funerária, também na zona, que até faz desconto a militantes (com as quotas pagas?) do Partido Popular Monárquico, um irrecusável incentivo a deixar-se morrer mais cedo. Numa república, tudo o que for ou aparentar ser monárquico será, no mínimo, alvo de atenção. As palavras têm um valor conotativo efectivo, real.

«Antirreeleição»


Para espantar?

Escreve o leitor Paulo Araujo que tem notado que os jornais brasileiros, parece que propositadamente, estão agora a usar palavras que sofreram alteração ortográfica com o Acordo Ortográfico de 1990, «talvez até por pedantismo», suspeita «mas isto tem um sentido educativo muito importante; as pessoas acabam aprendendo sem se preocuparem de estudar o assunto». A imagem mostra uma manchete de uma notícia no Estadão de hoje, em que se pode ler «um palavrão (apenas no tamanho), mas recomendo ao leitor malévolo para buscar a acepção correta de “racha” para esse contexto». Já aqui tínhamos visto a mesma acepção para esta palavra: cisão de um grupo político, de um partido. Para os Brasileiros como para nós, «racha» também é a vagina, mas é vocábulo que quase não vejo ser usado.
A imprensa pode ter realmente um papel muito importante na rápida assimilação das novas regras ortográficas, muitas vezes até forçando a nota. É pedagógico, sim.

Nomenclatura científica


Ainda não é desta

      No texto principal, «Penas e dinossauros evoluíram juntos» (Diário de Notícias, 19.03.2009, p. 31), a jornalista, Susana Salvador, nunca deixou de grafar correctamente os nomes científicos dos dinossauros: Sinosauopteyx prima e Tianyulong confuciusi. No texto de apoio, que se reproduz acima, o nome científico do dinossauro referido nunca é bem grafado. Não é nenhuma excepção, senhora jornalista: escreve-se Tyranossaurus rex. T-rex, para os amigos.

Acordo Ortográfico

Não ficamos em branco

Um acordo ortográfico, qualquer que seja, não é uma lei que se destine a ter vigência temporária, pelo que só deixa de vigorar se for revogado por outra lei. Ora, se o Acordo Ortográfico de 1990 não contém nenhuma norma revogatória expressa, a revogação das regras ortográficas que ainda nos regem só pode resultar ou da incompatibilidade com as novas disposições ou da circunstância de a nova lei regular toda a matéria da lei anterior. As perguntas que se impõem são: o novo acordo ortográfico regula toda a matéria anterior? Se não regular, e creio que não regula, que podemos fazer? Em meu entender, como acontece noutros domínios regulados juridicamente, continuarão em vigor as disposições precedentes. Ainda não li nenhuma opinião neste sentido.

Ortografia: «fotobiobibliografia»


Não queriam mais nada

Vamos ver se nos entendemos. Há o vocábulo «biobibliografia», não é assim? Também há o vocábulo «fotobiografia», não é verdade? Então parece que temos de escrever «fotobiobibliografia». Parece-me que os responsáveis pela concepção deste cartaz deviam saber, pois as bibliotecas municipais de Lisboa têm, por exemplo, a obra Miguel Torga: fotobiobibliografia, da autoria de José de Melo e publicada em 1995 pela editora Estante, de Aveiro. Mais um caso de amnésia linguística...

Léxico: «marca»

Passar das marcas

O vocábulo «marca» é — já tinham reparado? — um dos mais polissémicos na nossa língua. Aprendi agora que no século XIX se dava o nome de marcas à horda de maltrapilhos que aproveitavam para dormir na tarimba dos quartéis, e que a troco de dinheiro faziam o serviço em lugar de gente graúda que pretendia eximir-se a ele.

Uso de estrangeirismos. «Vocal»

E instrumental?

      E o autor escrevia que «o grupo dos “ordeiros” se tornava cada vez mais vocal». Já vimos este vocal aqui. Nem sempre o contexto ajuda o leitor a perceber de que se trata, o que parece não tirar o sono aos autores. Vocal, escrevi então, poderá traduzir-se, por exemplo, por «que se faz ouvir»: «o grupo dos “ordeiros” que se fazia cada vez mais ouvir». Isto é português, é compreensível.

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