Casaco de trespasse


Trespassado

      Uma personagem vestia uma «giacca a doppio petto». O tradutor verteu para «casaco de trespasse», e eu, confesso, nunca tinha visto esta designação. Encontrei-a tanto num simples dicionário da Porto Editora como no Dicionário Têxtil Multimédia Explicativo, donde provém a imagem acima. Conhecia, isso sim, o qualificativo «assertoado», que é o mesmo. Eis a definição do Dicionário Têxtil Multimédia Explicativo: «Casaco de Trespasse: Tem duas filas de botões, sendo normalmente uma para fechar e a outra para fins decorativos. O casaco é relativamente largo e tem normalmente um virado fechado e colarinho pequeno. Forma normalmente parte de um fato, mas pode em certos casos ser um item desportivo isolado. Tende a ser mais comprido que um casaco simples do mesmo tamanho.» Ficamos a saber que equivale ao double-breasted jacket inglês, à chaqueta cruzada espanhola e à veste croisée francesa, por exemplo.

Casamento branco

As cores da vida

Caro J. V.: não se diz «casamento em branco», mas casamento branco. Assim se designa, com recurso ao simbolismo de uma cor, o casamento em que não há relações sexuais. Por coincidência, estou neste mesmo momento a rever uma tradução de uma obra italiana, em que se pode ler: «Questo amore difficile, il matrimonio forse bianco perché è quasi certo che Poe fosse impotente […].» De resto, também noutras línguas ocorre a expressão, como em francês: marriage blanc. Nesta como noutras expressões, a cor branca é usada para transmitir a ideia de vazio, de fracasso: votar em branco, cheque em branco, etc.

Adjectivos em -esco

À volta das palavras

No programa da Antena 1 À Volta dos Livros, de Ana Aranha, na Antena 1, J. A. Gonçalves Guimarães, autor do recentíssimo Marquês de Soveral, Homem do Douro e do Mundo, lembrou ontem que o adjectivo «soveralesco», cunhado a partir do nome do seu biografado, o marquês de Soveral (1850-1922), designava algo de «enorme charme». E isto faz-me lembrar que li há não muito tempo (no Ciberdúvidas?) que o sufixo –esco tem sempre um sentido pejorativo, o que não é obviamente verdade. Deixo 113 exemplos, dir-me-ão quantos e quais têm sentido pejorativo.



abadesco
andantesco
animalesco
arlequinesco
arraialesco
babelesco
bacharelesco
barbaresco
berberesco
bernardesco
boticelesco
brasileiresco
brutesco
burlesco
canibalesco
carnavalesco
carrachesco
catedralesco
cavalheiresco
cervantesco
charlatanesco
clownesco
comadresco
compadresco
comtesco
conselheiresco
cortesanesco
dantesco
detectivesco
dom-joanesco
donzelesco
entrudesco
escolaresco
estudantesco
feiticeiresco
fialhesco
fidalguesco
fidiesco
folhetinesco
fradesco
funambulesco
furbesco
gargantuesco
gatesco
gigantesco
gil-vicentesco
grotesco
guinholesco
jogralesco
júlio-vernesco
juvenalesco
lacaiesco
leviatanesco
liberalesco
livresco
madrigalesco
malabaresco
marianesco
marinharesco
marinheiresco
marinhesco
mauresco
miguel-angelesco
moiresco
molieresco
montanhesco
mouresco
nababesco
novelesco
ossianesco
padresco
palharesco
pedantesco
petrarquesco
picaresco
pidesco
pinturesco
pitoresco
plateresco
policiesco
pombalesco
poussinesco
principesco
provençalesco
quixotesco
rafaelesco
ramerranesco
rembrandtesco
ribeiresco
rilhafolesco
rocambolesco
roldanesco
romanesco
rubenesco
rufianesco
sardanapalesco
sebastianesco
senegalesco
simiesco
soldadesco
soldadesco
sultanesco
tartarinesco
tedesco
trovadoresco
truanesco
tudesco
turquesco
ugolinesco
vampiresco
velhaquesco
vilanesco
vítor-huguesco
zolaesco
zolesco

Ortografia: «semiescravidão»

Semierudito

A leitora Clara Boléo pergunta-me se as palavras que contenham o prefixo semi- seguido de elemento começado por e, exemplificando com a palavra «semi-escravidão» (ou «semiescravidão»), têm hífen. Começa, aliás, por afirmar telegraficamente: «Houaiss: semi + palavras começadas por e = com hífen». Isto não é exacto. Lê-se no Dicionário Houaiss: «registe-se, além disso, que este pref. é seguido de hífen quando se lhe junta el. começado por h, i, r ou s». Ora, estes são os precisos termos em que a Base XXIX, 3.º, do Acordo Ortográfico de 1945 trata a questão.

Abreviaturas


Um só em contrário

Caro João Simões: as abreviaturas das palavras que indica, «sargento», «sargento-ajudante» e «doutor», escrevo-as com inicial maiúscula: Sarg., Sarg.-ajte. e Dr. Quanto a esta última, já aqui tinha falado sobre ela. Não creia no que lhe disseram. A imagem acima reproduz uma página da obra Pequenos Burgueses, de Carlos de Oliveira, na 3.ª edição, refundida, editada pelas Publicações Dom Quixote em 1970, em que se pode ver a abreviatura de «doutor». E é literatura, evidentemente.

«Rinque» e «ringue», de novo

Imagem: http://centralparkny.com/

Cada coisa em seu sítio


      No filme O Caminho para a Fama (Ice Princess, no original), uma comédia romântica sem méritos assinaláveis, que passou esta tarde na SIC, a tradutora, Astride Fernandes (da Dialectus), decidiu, e muito bem, traduzir a palavra rink por rinque. Reserve-se o ringue para a prática do boxe.

Guinéu-equatoriano

Não precisamos


      Cara Leonor Costa: escrever «equato-guineense» é macaquear servilmente o inglês, língua em que se escreve, como sabe, Equato-Guinean ou Equatoguinean. Em português diz-se e escreve-se guinéu-equatoriano. Não afirmo que se não leia em jornais portugueses, pois isso seria negar uma evidência. De facto, ainda recentemente se lia no Público: «Em Fevereiro último, o presidente da Galp Energia, Manuel Ferreira de Oliveira, e o administrador Fernando Gomes deslocaram-se à capital equato-guineense para estudar oportunidades de negócio, que podem passar também pela distribuição de combustíveis» («Petróleo da Guiné Equatorial traz Presidente Obiang a Lisboa», Lurdes Ferreira, 24.07.2008).

Topónimos


Recuemos então

Não é, cara M. C., exactamente «há meia dúzia» de anos que se escrevem os acidentes geográficos com inicial minúscula, como afirma. Tem é andado distraída. Uma vez que o exemplo que eu dei foi serra da Estrela, é sobre este topónimo que dou um exemplo tirado do relatório Expedição Scientifica á Serra da Estrella em 1881: Secção de Ethnographia, da autoria de L. F. Marrecas Ferreira, e publicado pela Imprensa Nacional em 1883. Não tem de quê.

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