Colocação do pronome clítico

Chamem a polícia!

Pode, no caso, ser lapso (mas também não acredito em bruxas), mas serve para ilustrar uma regra frequentemente atropelada, até na escrita: «Também regista-se a apreensão de duas viaturas de transporte de pessoas à entrada em território nacional, não estavam habilitadas a circular em território nacional e tinham matrícula estrangeira» (inspector César Inácio, do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, em declarações hoje à Antena 1). Ora, os advérbios de inclusão até, mesmo e também levam o pronome para antes do verbo: também se regista… (Não é o discurso de um político, como Telmo Bértolo queria, mas de um polícia. Espero que sirva.)

Iliteracia

Abaixo de cão

As televisões (e as empresas em geral) gostam muito de ter pessoas a trabalhar para elas gratuitamente. A particularidade da televisão é que as pessoas são usadas e ainda agradecem. Claro que, sendo muitas vezes pessoas impreparadas, fazem, como não deixaria de dizer Miguel Esteves Cardoso, merda. Na sexta-feira, o programa Panda & Cia, do Canal Panda, foi entrevistar uma tratadora de cães. (A legenda, porém, dava-a como groomer…) Para fechar a sua lição de como se dá banho a um cão, disse duas sonoras vezes: «Aprendestes, Panda?»
Mas estava a ser injusto: na verdade, há também professores, oh horror!, que também falam assim, o que é uma absoluta, completa e irremissível vergonha. Na televisão, na escola… estamos bem entregues.

Lexicografia


Bem observado

Devem os dicionaristas ir à frente ou atrás da realidade? Parece óbvio que os dicionários não são prospectivos, antes descrevem uma realidade que existe. O Dicionário Editora da Língua Portuguesa 2009 da Porto Editora, porém, quer ajudar a modelar a realidade. Cristina Espada, no Meia Hora, apercebeu-se do facto e escreve: «A definição de casamento na imagem é retirada dos dicionários já ajustados ao Acordo Ortográfico e, pelos vistos, a futuras tendências, pois não menciona “pessoas de sexo diferente”» («Disciplina de voto do PS impede hoje casamento de homossexuais», Cristina Espada, Meia Hora, 10.10.2008, p. 3).
Só faltou, para o exercício ser completo, mostrar qual era a definição de casamento em edições anteriores do mesmo dicionário. Ei-la: «casamento, s. m. acto ou efeito de casar; contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem constituir legitimamente família mediante uma comunhão plena de vida; enlace; núpcias; matrimónio; (fig.) união. (De casa+mento).»

O trema

Sem trema, a pronúncia treme

Eu já aqui lamentei a supressão do trema em Portugal? Já, foi aqui. Escreve Francisco Álvaro Gomes na obra que ontem citei: «O trema, por exemplo, fora instituído em 29 de Novembro de 1920, pela Portaria 2.553. Em 1945 foi eliminado, em plena juventude (durou 25 anos), apesar de vozes muito discordantes […]» (O Acordo Ortográfico, Francisco Álvaro Gomes. Porto: Edições Flumen/Porto Editora, 2008, p. 64).

As consoantes mudas

Falam mais alto


      A propósito do Acordo Ortográfico de 1990, lembra, e bem, Álvaro Gomes: «O facto de algumas vogais serem abertas antes de consoante muda não significa que necessariamente sofram alterações fonéticas, no caso de queda da consoante. A língua regista muitas outras vogais abertas sem qualquer consoante muda: além, alerta, aquém, Aveiro, caleira, caveira, corar, delação, doravante, especado, especular, expletivo, ilação, padaria, pegada, pregar, racismo, supletivo, translação, vadio…)» (O Acordo Ortográfico, Francisco Álvaro Gomes. Porto: Edições Flumen/Porto Editora, 2008, p. 81). Tirando o vocábulo «caleira», em que não abro a vogal, estamos em sintonia.

Ortografia: «interbancário»


Dizem eles

«O objectivo desta decisão é, numa primeira fase, contribuir para o estímulo do mercado inter-bancário, onde os bancos negoceiam entre si os empréstimos. Neste momento, nenhuma instituição financeira arrisca emprestar dinheiro a outra, com medo de que se verifiquem falências na sequência da crise do crédito hipotecário de alto risco nos EUA (subprime)» («BCE corta juros em acção concertada a nível global», Global/DN, 9.10.2008, p. 3).
Por alturas de mudança horária, na Primavera e no Outono, uma senhora idosa minha vizinha, depois de querer saber as horas, pergunta sempre se é «pela hora antiga ou pela moderna». O mesmo se passará com a ortografia. «Inter-bancário», escrevem eles, com chamada na primeira página. Respeitando que acordo? Nenhum.

Símbolo do grama


Mais uma

Lembram-se do texto em que falei do meio de transporte chamado americano? Vá lá, não mintam, já nos conhecemos há muito tempo. Este selo, que os CTT emitiram no ano passado, pretende lembrá-lo. Não é, contudo, este o propósito deste texto. Vejam bem (ampliem a imagem): 20 grs. Sim: plural e ponto de abreviação. Nada mais errado, pois devia ter-se escrito o símbolo de grama, que é g, e sem plural, pois os símbolos, sinais convencionais e invariáveis utilizados para facilitar e universalizar a escrita e a leitura das unidades SI, não o têm. Também eu me pergunto: quem é o responsável destas inépcias? Não há-de ser a empresa de artes gráficas.

Evolução linguística

Podemos contá-las

«Aqui há dias, reencontrei o Moura, um antigo condiscípulo do liceu (duas palavras, entre tantas, que estão a desaparecer do nosso vocabulário: “condiscípulo” e “liceu”)» («O Moura que não usava capacete», Eurico de Barros, Diário de Notícias/DN Gente, 27.09.2008, p. 23). A estas, recordadas por Eurico de Barros, poderíamos juntar umas quantas outras, mas não muitas. O período temporal da vida humana é demasiado breve para podermos assistir a uma renovação significativa da língua. Ainda assim, alguns termos e expressões vão caindo em desuso, muitas vezes por força da própria lei. Há dias, um adolescente perguntava-me o que é «ir às sortes», esse autêntico ritual de iniciação, que por vezes implicava, por exemplo, viajar de comboio pela primeira vez ou afastar-se dos pais. Pois é, por alteração recente da Lei do Serviço Militar, actualmente nem sequer é necessário fazer o recenseamento presencialmente.

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