Léxico: «escumadeira»


Na cozinha

Anteontem, Martine Rousseau e Olivier Houdart, revisores do Le Monde, andavam às voltas com a origem do nome em francês do utensílio de cozinha que se vê em cima. Mas meteram os pés pelas mãos, porque o nome que estavam a atribuir a este utensílio — maryse — pertence de facto ao raspador de massa entre nós chamado salazar, de que já aqui tratei. Em francês não sei, mas em português o que temos acima é, seguindo de perto a definição do Dicionário Houaiss, uma escumadeira, um utensílio, geralmente de metal, mas modernamente também de plástico, formado por uma concha muito rasa com furos, presa a um cabo longo, usada para retirar a espuma que se forma durante a preparação de alguns produtos, como o açúcar refinado, a aguardente de cana, etc., e daí o nome, ou para retirar algo de um líquido quente, como pastéis, bolinhos fritos em óleo, etc.
Mas pensemos: depois de sabermos que maryse é uma marca registada (nom déposé, em francês), e, logo, um vocábulo com a mesma evolução semântica do vocábulo «gilete», por exemplo, que interesse tem aprofundar?
Com caixas de comentários multitudinárias, os disparates não faltam. Uma leitora aventa a hipótese de a designação ser a amálgama dos nomes Marie, Lise e Louise. Sim, e depois? Serão as três filhas do Sr. De Buyer, o empresário que registou um produto com essa designação? As suas três irmãs solteironas? As três amantes? Há leitores aparvalhados em todo o lado, isso sim.

Classificação das nuvens

Nas nuvens

Tudo o que se pareça com um glossário tem sempre interesse, pois a nossa vida é balizada pelo nome que damos às coisas. «A estrutura do livro segue um sentido ascendente: a primeira parte é dedicada às nuvens baixas (Cumulus, Cumulonimbus, Stratus, Stratocumulus); a segunda é sobre as nuvens médias (Altocumulus, Altostratus, Nimbostratus); a terceira é para as nuvens altas (Cirrus, Cirrocumulus, Cirrostratus); e a última é para inventariar outras categorias. Os nomes em latim da classificação clássica — estabelecida por Luke Howard em 1802 e fixada definitivamente no Atlas Internacional das Nuvens em 1896 — podem assustar quem não está familiarizado com as nomenclaturas científicas, mas ao fim de meia dúzia de páginas deixam de ser um obstáculo» («Da beleza efémera», José Mário Silva, Expresso/Actual, 9.2.2008, p. 45). Tudo verdade, mas as nuvens também tem nome em português, que é a tradução do latim. Assim, nuvens altas: Cirro, Cirrocumulo, Cirrostrato; nuvens médias: Altostrato, Altocumulo; nuvens baixas: Estrato, Estratocumulo, Nimbostrato; nuvens com desenvolvimento vertical: Cumulonimbo, Cumulo.
De acordo com a página na Internet da licenciatura em Meteorologia, Oceanografia e Geofísica da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, «as nuvens altas são sempre antecedidas do prefixo cirro porque apresentam sempre um aspecto ténue e fibroso; as nuvens médias apresentam o prefixo alto; a designação estrato entra nas nuvens de maior extensão horizontal, enquanto a designação cumulo entra nas de maior desenvolvimento vertical; as nuvens capazes de produzir precipitação identificam-se com o termo nimbo».

Tradução: «capa»

Não posso mais

Uma coisa que me irrite, mas que me irrite mesmo, muito e sempre? Só uma coisa? Está bem: que nas traduções de obras espanholas a palavra «capa» surja quase sempre traduzida como… «capa»! Homessa! Diacho! Co’os demónios! «Capa», em espanhol, é «aquello que cubre o baña alguna cosa». Una capa de nieve é, para nós, «uma camada de neve»; una capa de pintura é «uma camada de pintura»; una capa de azúcar é «uma camada de açúcar»; una capa de oro é «uma camada de ouro». É verdade que uma parte da indústria portuguesa, o sector pró-espanhol, nos propina tintas de «subcapa». Es curioso, sin embargo —y es aquí donde quería llegar—, que, pese a lo que he planteado, na pintura da madeira, o sistema seja por «multicamada», o que se aplica entre o primário e a tinta alquídica é a subcapa. Mas, quanto a capas e a confusões, ficamos por aqui.

Tradução

Imagem: http://www.snell-pym.org.uk/

Mais barrotes


      Se pensam… estão bem enganados. Matt James estava hoje em Shepherds Bush, Londres, a transformar um quintal cheio de ervas daninhas em jardim. Logo à saída da porta de casa para o quintal, estava um estrado de madeira, deck, em inglês, a que a tradutora julga não poder dar-se outro nome que não deck. Estrado, pois. Matt James construiu também uma airosa pérgula com tubos de aço de secção quadrada (steel square tube), a que a tradutora mais de uma vez chamou «barrotes».

Léxico: «nominho»

Nominho ao Algarve


    Tenho uma prima em 2.º grau, moçoila rural vai para dez anos transplantada para uma cidade do interior, que, ainda que não particularmente atreita a «inhar» a realidade (perdoe-se-me o neologismo, acabado de inventar: com ele pretendo significar o uso de diminutivos), nunca diz «até logo», mas sempre «até loguinho». A prima R., sorte a nossa, não escreve para os jornais e revistas. Não escreve nada. Talvez nunca tenha escrito, mas isso não o afianço, sequer uma carta à revista Maria («O meu namorado tem dois pénis. Que me aconselham a fazer?»).
Há, contudo, diminutivos com um significado pleno, autónomo da palavra de que derivam. Atente-se neste exemplo: «Para aliviar os pais, José trouxe para Lisboa a irmã Conceição, que logo caiu nas graças de Salazar e lhe deu o nominho de Micas» («A filha adoptiva de Salazar», José Pedro Castanheira, 17.11.2007, Expresso/Actual, p. 62). Em Cabo Verde (ver aqui, aqui e aqui) e no Brasil, é comum usar o vocábulo «nominho» para hipocorístico. A ter tradução, a palavra inglesa nickname teria em «nominho» a correspondência perfeita. Mais uma vez, não o vejo dicionarizado, excepto na MorDebe.

Ortografia: «cartunista»

Tapeçaria de Portalegre sobre desenho de Almada Negreiros (1962)
no topo da Sala de Audiências principal do Palácio da Justiça de Aveiro

Antes isso


Primeiro, era cartoonista, um aportuguesamento tolerável — ou quase. Depois, alguém achou que se devia dar o passo seguinte, e ficou cartunista. Pois, claro: os dois oo valiam como u. Agora, porém, leio no Meia Hora: «Polícia prende cinco suspeitos de planear morte de cartonista». Na verdade, quando li a palavra «cartonista», lembrei-me de Almada Negreiros, que, à semelhança de outros grandes artistas plásticos portugueses, fez modelos de cartão para a execução posterior de diversos trabalhos artísticos, como tapetes, mosaicos, etc., que é o que significa a palavra. Só depois de ter lido o início da notícia decidi o começo do texto: «As autoridades dinamarqueses [sic] detiveram ontem cinco homens em Aarhus suspeitos de planear um ataque ao cartonista que desenhou as caricaturas de Maomé, publicadas num jornal da Dinamarca em Setembro de 2005 e desencadeando uma onda de protestos em todo o Mundo entre a comunidade islâmica» (Meia Hora, 13.2.2008, p. 6). Vejo-me, pela primeira vez, na contingência de desejar que seja meramente desleixo, que não convicção de quem escreveu e de quem reviu.

Tradução

Imagem: http://www.bumblebeeauctions.co.uk/
Hum…

      Se pensam que hoje… estão bem enganados. Matt James estava a construir um jardim na cidade de St Albans, Hertfordshire, a norte de Londres. O desafio era que o jardim agradasse ao casal, Arif e Rakhshinda, e aos seus três filhos. Matt estava hoje muito propenso a trocas: quis o abrigo de jardim (shed, no original, que eu nunca optaria por traduzir, como o fez a tradutora, por «casota», mas sim «abrigo de jardim») que ali encontrou e trouxe da sua casa uns aros (bore rings?) que, abertos e chumbados no chão, serviriam para as crianças brincarem. A tradutora quis que fossem «aros de barril» (ou arcos), mas via-se à distância que eram aros de rodas de carros de parelha, que em Portugal também se usam para muitos fins. Os arcos dos barris, pipas, dornas, mesmo os arcos de bastição, os que servem para a fase de construção do próprio barril, são simples cintas de chapa, actualmente chapa galvanizada ou de aço inox, inadequados para o fim pretendido por Matt, ao passo que os aros das rodas servem efectivamente para esse objectivo.

«Synopsis: Matt James is challenged to design a family-friendly garden in St Albans catering to everyone’s needs. Rakhshinda loves order and formality, husband Arif wants something a bit more relaxed and their three children want a space they can play in, rather than the DIY dumping ground it is at the moment.»

«Gourmet» e «gourmand»

Se há quem…

A leitora Bárbara Godinho pede-me que explique a diferença entre gourmet e gourmand, pois são palavras usadas na imprensa portuguesa e nunca percebeu a diferença, se a há. Tem razão, são usadas na imprensa. Mas não apenas usadas: recentemente, a revista Actual, do Expresso, publicava um texto do crítico literário Vítor Quelhas a que pertence o seguinte trecho: «A palavra gourmet é de origem francesa (etimologicamente próxima da palavra “gourmand”, guloso, glutão), mas na Antiguidade significava apenas um bom encarregado e conhecedor de vinhos. O gourmet aprecia e desfruta a qualidade, o gourmand adora a substancial sensação da quantidade» («O bom gourmet», Vítor Quelhas, Expresso/Actual, 22.12.2007, p. 37).
De facto, originalmente, segundo Le Trésor de la Langue Française Informatisé, gourmet era «celui qui sait goûter et apprécier les vins; connaisseur en vin». Por extensão de sentido, passou a ser também, e agora quase exclusivamente, «celui qui apprécie la qualité, le raffinement d’une table, d’un mets particulier». Quanto a gourmand, antigamente era apenas aquele «qui mange avec avidité et avec excès», passando depois a ser também aquele «qui aime la bonne nourriture et qui sait l’apprécier». Diferenças? Bem…

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