Léxico: «recolho»

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Baleia



      Um leitor pergunta-me como se designa o jacto de água que as baleias lançam quando vêm à superfície. Primeiro que tudo: não se trata de um jacto de água, mas de ar. Como quando está muito frio e respiramos: é a condensação que faz aparecer a nuvenzinha. Com as baleias é o mesmo, mas em grande. O jacto de um cachalote pode atingir nove metros de altura. O orifício por onde sai esse jacto chama-se espiráculo. Em francês, les évents. Em inglês, blowhole. Ao próprio jacto, e era essa a pergunta, dá-se o nome de recolho (regressivo de «recolher»). Em inglês, diz-se blow, «sopro». Em francês, jet. Em espanhol, surtidor.

Léxico: «cápea»

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Uma coisa, um nome



      À laje que encima algumas paredes e muros de alvenaria, cara Luísa Pinto, como o que se vê na imagem de cima, para os defender de derrubamento, dá-se o nome de cápea ou capeia. Capear é o nome que se atribui ao acto de cobrir as paredes ou muros com essas lajes, as cápeas.

Actualização em 25.11.2010


      «E também resolvia a grande obra da mina do pomar, perto de atuída por sucessivos alagamentos e que se fazia preciso romper de novo nalguns pontos, de terem cápeas cedido, consoante o parecer de mestre Cagoto, o mineiro» (Tiros de Espingarda, Tomaz de Figueiredo. Lisboa: Editorial Verbo, 1966, p. 51).

Léxico: «borracheiro»

De borracha

«Das profissões e actividades dos bomboteiros à pesca do atum, às plantações da cana-de-açúcar, ao transporte das uvas às costas dos “borracheiros”, conhecidos pelo transporte tradicional do mosto em recipientes feitos de pele de cabra» («Recordações de duas ilhas desconhecidas», Lília Bernardes, Diário de Notícias/Gente, 12.1.2008, p. 9). Os dicionários consultados registam o vocábulo «bomboteiro», mas com uma definição ligeiramente diferente: «borracheiro é aquele que transporta vinho em odres ou borrachas», regista o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado. Mais uma vez, não se percebe é por que razão aparece com aspas no texto do Diário de Notícias.

Tradução: «argent de poche»

Trocos



      Numa tradução, aparece-me a locução francesa «argent de poche» (e podia ter aparecido a correspondente inglesa, pocket money). Se, por um lado, me repugna traduzi-la, como até algumas luminárias fazem, por «dinheiro de bolso», por outro, a suposta vernaculidade transmitida pela tradução «dinheiro para os alfinetes» não me convence. Decido-me por «dinheiro para as suas coisas». Antigamente, à porção de dinheiro destinada às despesas miúdas e particulares dos reis e dos príncipes dava-se o nome de «bolsinho». Mas nós, simples plebeus, temos de nos contentar com os trocos estrangeiros.



Ortografia: «superterça-feira»

À escolha do freguês?


      1. «Mas a curta distância para Barack Obama reforçou o interesse pelas batalhas que faltam até à super-terça-feira de 5 de Fevereiro em que votam 23 estados» («Hillary e McCain são ‘comeback kids’ de 2008», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 10.1.2008, p. 32).
      2. «Comício, avião, comício, avião. O dia-a-dia dos candidatos à Casa Branca tem-se resumido a pouco mais do que isso nos últimos dias antes da superterça-feira de amanhã. E antes de fazerem uma pausa para verem e deixarem ver o Superbowl, a final do campeonato de futebol americano, quatro deles — dois republicanos e dois democratas — participaram num fórum destinado aos jovens e transmitido em directo pelo canal de televisão MTV e na Internet» («À caça do voto jovem antes da superterça-feira» (Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 4.2.2008).
      3. «Mas na Super Terça-feira, com 24 estados em eleições primárias para apoiar um de dois candidatos do Partido Democrático, as coisas estão mais animadas na corrida presidencial: a senadora por Nova Iorque aparece nos ecrãs empatada com o senador pelo Illinois» («Clinton e Obama: um verdadeiro duelo no Oeste», Sérgio H. Coimbra, Meia Hora, 6.2.2008, p. 8).

Léxico: «gelaba»

Não as há judaicas


      «Morreu às mãos de um jovem de 27 anos, vestido com uma típica jallaba árabe, não se desse o caso de os restantes transeuntes confundirem o islamita radical Mohammed Bouery, de dupla nacionalidade (holandesa e marroquina), com um ocidental» («Quem se lembra ainda de Theo van Gogh?», Cadi Fernandes, Diário de Notícias/Gente, 12.1.2008, p. 16). Mas há-as sem serem árabes? Pois é, de qualquer maneira, o mais importante é isto: temos a palavra em português, e até com duas variantes: gelaba e jilaba. Só pode ser preguiça dos jornalistas. Já o semanário Sol tinha preferido, em 2006, outra grafia: «Mohamed Ouakalou é um jovem marroquino de 26 anos, vestido com uma Djellaba, túnica tradicional do Sul de Marrocos» («Acabou-se o jejum. Muçulmanos celebraram o fim do Ramadão no Porto», Nuno Escobar de Lima, Sol, 28.10.2006, p. 36).

 


Léxico: «bomboteiro»

Quase bomboneiro

«Sendo filho de “bomboteiro”, tinha acesso fácil ao marketing das companhias de navegação. “Bomboteiros” eram os homens que comercializavam os bordados da Madeira e artesanato de vime dentro de uma pequena embarcação que acostava aos grandes navios que fundeavam ao largo da baía» («Recordações de duas ilhas desconhecidas», Lília Bernardes, Diário de Notícias/Gente, 12.1.2008, p. 9). Os dicionários consultados não registam o vocábulo «bomboteiro». Não se percebe é por que razão aparece com aspas no texto do Diário de Notícias.

Léxico: «artesa»

Imagem: http://www.euskonews.com/

Porque não te calas?



      Cinco pessoas presentes. Três professores, uma psicóloga e eu. Aparece na televisão uma imagem semelhante à que encima este texto. Pergunto que nome tem o objecto de madeira que estamos a ver. Dois dos presentes respondem desnecessariamente que serve para amassar o pão, outro confessou que tinha o nome debaixo da língua (atenção, Freud) e o quarto, o mais inteligente, calou-se. Podiam ter respondido «amassadeira» ou «masseira», e eu ficaria satisfeito. Mas não, nada. Na verdade, e era esta a resposta que eu pretendia, àquela caixa de madeira quadrilonga, que vai alargando de baixo para cima, chama-se artesa. «Só conhecia o parónimo», diz-me uma das professoras.
      José Pedro Machado dá como étimo de «artesa» o grego άρτος, «pão», mas o Diccionario de la Real Academia Española e o Dicionário Houaiss dizem, e bem, seguindo a lição de Corominas, ter o vocábulo etimologia obscura.

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