Qualquer-coisa-chave (i)

Oh donkey’s years. Long ago…

Quando tiver idade para fazer um Je me souviens à Georges Perec apenas relativo à língua (vejam como desbarato ideias!), uma das primeiras recordações será esta: lembro-me de, ainda há pouco tempo, só termos um ou dois vocábulos compostos com «chave». Nesses tempos, lembro-me bem, mesmo só «palavra-chave» destoava um pouco, aos meus olhos de adolescente. Mas agora? É um fartote. Tudo é qualquer-coisa-chave. Culpados: os jornalistas e os tradutores. «Olha», exulta um tradutor, «está aqui uma chave: “One of the key discoveries…” It’s easy as pie: Uma das descobertas-chave…» «Eh lá», exaspera-se um revisor, «outra porra de chave: “Uma das descobertas-chave…” É canja: Uma das principais descobertas…»

Verbo «obstruir»

É lá consigo

Bem podem algumas gramáticas consignar taxativamente que o verbo «obstruir» se conjuga como «construir» — ninguém me apanhará a dizer «obstrói». Eu é que acabei de apanhar o psicólogo Eduardo Sá, nos Dias do Avesso, em conversa com Isabel Stiwell, com a sua voz sumidíssimaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, a pronunciar «obstrói».

Tradução: «principiel»

Pois é

A língua portuguesa tem algum adjectivo relativo ao substantivo «princípio(s)»? Desconheço — mas fazia falta. Assim, como devemos traduzir a frase «Mais les liens entre nombres, choses et affects semblent ici principiels»? Estão aqui a propor-me que traduza principiels por «axiológicos». Mas «axiológico», objecto, diz respeito aos valores e não aos princípios. E princípios não são valores, nem a ema é um pássaro. Três vias se nos apresentam: deixar o estrangeirismo; adaptar para o português; encontrar uma expressão. Temos assim, por ordem:

1. «Mas as ligações entre nomes, coisas e afectos parecem aqui principiels
2. «Mas as ligações entre nomes, coisas e afectos parecem aqui principiais
3. «Mas as ligações entre nomes, coisas e afectos parecem aqui dizer respeito aos princípios

O uso do vocábulo «luso»

Isto não é normal

      Antigamente, os únicos Lusos conhecidos eram os garrafões da água mineral com esse nome. Hoje, em especial com os jornais gratuitos, os jornalistas começaram a desbastar no uso do substantivo «português» (e no plural, «Portugueses»). É o estilo e a falta dele. «Cerca de 1800 lusos presos no estrangeiro» (Meia Hora, 28.1.2008, p. 5). Com variações no Destak: «Quase 1800 lusos detidos no estrangeiro» (28.1.2008, p. 6). E ainda neste jornal: «Lusos divorciam-se mais após idade adulta de filhos» (Destak, 28.1.2008, p. 6). «O Campeonato da Europa de Maio é o momento decisivo da época, porque é a derradeira oportunidade para os lusos estarem em Pequim, o que seria a sexta participação consecutiva nos Jogos («Portugal em estágio com os melhores», Meia Hora, 25.1.2008, p. 19). «Doenças inflamatórias afectam 12500 lusos» (Meia Hora, 24.1.2008, p. 5). «Lusos discretos no mundial de Finn» (Meia Hora, 24.1.2008, p. 16). «O piloto luso vai disputar seis das oito provas pontuáveis possíveis: Suécia, Grécia, Turquia, Nova Zelândia, Japão e Grã-Bretanha» («A caminho do penta sem rival», Meia Hora, 24.1.2008, p. 16). «Pintasilgo recordada como “figura política do catolicismo” luso» (Meia Hora, 24.1.2008, p. 23). «Maria Carrilho, do Instituto de Estudos Estratégicos, diz que a comunidade islâmica lusa ambiciona a paz e o desenvolvimento» (Meia Hora, 21.1.2008, p. 1). E por aí fora.

Léxico contrastivo: «lousa electrónica»

Zulus e Brasileiros

«O bom e velho quadro negro já ficou verde, virou branco e agora é multicor. Uma das últimas novidades em relação a lousas utilizadas em salas de aula é a tela eletrônica interativa (Smart Board) que permite, ao mesmo tempo, a exibição de imagens de computador, incluindo filmes e animações, e a escrita manual. Além disso, tudo o que acontece na lousa, durante as aulas, pode ser gravado em CD ROM, além da própria voz do professor. ­A lousa torna as aulas mais atrativas e a possibilidade da gravação em CD ROM permite a avaliação da qualidade das aulas pela direção da escola e também pelos próprios pais dos alunos, que podem levar a aula inteira para casa» («Lousa eletrônica torna aula interativa», Paulo Marcio Vaz, Jornal do Brasil, 28.1.2008, p. A24). É um processo muito comum: a partir do que se conhece, atribui-se, por analogia, nome a novos objectos: os Zulus chamam ao telemóvel ’uMakhalekhukhwini, «grito no bolso».

Tradução: «bière blanche»

C’est top!

Cara Luísa Pinto: bière blanche não é, como qualquer pessoa com umas tinturas de francês alvitraria ser, «cerveja branca». Esta é a bière blonde. A preta, já que de cervejas falamos, é a bière brune. A bière blanche há-de ter cor ― mas é conhecida, pelo menos largamente no Brasil e um pouco em Portugal, como «cerveja de trigo». Como tradução, está óptima, até porque a alternativa é usarmos estrangeirismos: Weissbier (ou Weizenbier) e wheat beer. E ainda não estamos com os copos, não é? Hic!

Léxico: «cachimbada»

Só fumaça

      Sérgio H. Coimbra, director do Meia Hora, entre dois rabiscos, teve tempo para se insurgir contra Fernando Rosas: «Parece que o Dr. Fernando Rosas teve tempo, entre duas cachimbadelas, para questionar o ministro da Defesa sobre a participação da Fanfarra e Lanceiros do Exército, e de representantes do Colégio Militar na homenagem ao rei D. Carlos no centésimo aniversário do seu assassinato e do filho D. Luís Filipe, em Lisboa, esta sexta-feira» («Ceci n’est pas une historien», Meia Hora, 28.1.2008, p. 23). Ora, a fumaça aspirada de cada vez num cachimbo é uma cachimbada e não uma cachimbadela. E que os cachimbistas do Cachimbo Clube de Portugal não o leiam, ou vão voar fornilhos, calcadores, boquilhas e escovilhões. É facto: cachimbadela também anda por aí.

Nome de povos


Há alguma dúvida?

Xan Rice, correspondente do jornal The Guardian na África Oriental, começa por escrever que «ethnic clashes were spreading across Kenya’s Rift valley last night with at least 19 people burned in their homes or hacked to death in the popular tourist town of Naivasha, 65 miles from Nairobi». Também o Meia Hora se refere, numa breve, ao facto: «Pelo menos 69 pessoas morreram este fim-de-semana em Naivasha, no Vale do Rift, a 60 km da capital, Nairobi, após ataques com catanas e fogo posto em habitações. Seis das vítimas morreram carbonizadas e as restantes com golpes.» Mas continua Xan Rice: «The month-long violence, in which nearly 800 people have died, was sparked by the disputed re-election of President Mwai Kibaki, has now changed into a raw ethnic conflict pitting mainly Kalenjins and Luos, who supported the opposition, against Kibaki’s Kikuyu community.» Lá está: Kalenjins e Luos. O Meia Hora — e todos os jornais portugueses, tanto quanto sei — prescindem da gramática quando se referem a povos: «Os conflitos, que num mês já fizeram 750 mortos, travaram-se entre os kikuyu, a etnia do Presidente acusado de fraude eleitoral Mwai Kibaki e a tribo Luo, do opositor Raila Odinga.» Mas qual é a dúvida? Claro que devemos escrever Kikuyus, Luos, Kalenjins, e o mesmo para o nome de cada uma das setenta diferentes comunidades étnicas quenianas ou quaisquer outras no mundo.

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