Ortografia: Árctico

Salvem a ortografia

      «Diz-se que nadaram mais de 27 mil quilómetros e, apesar de alguns terem ficado retidos no frio congelante do Ártico, outros resistiram e chegarão agora a Inglaterra» («Salvem os patinhos de borracha», Marina Chiavegatto, Público/P2, 12.07.2007, p. 6). Não é muito comum ver correctamente escrito este topónimo. Escreva-se «Árctico».

Uso das aspas

Uma coisa em forma de assim

«Os chefes dos três ramos das Forças Armadas proibiram os militares no activo de participarem, hoje, numa vigília de protesto frente à residência do primeiro-ministro» («Sargentos em “vigília” proibida contra Governo», Paula Torres de Carvalho, Público, 12.07.2007, p. 7). As aspas estão a mais ou são necessárias? Era uma vigília ou não era?

Pronúncia: «fretado»

Boca hiante

Nas notícias das 14.00 de ontem, na Antena 1, o jornalista referiu que a TAAG (Transportes Aéreos de Angola) voltara a voar para Lisboa, contornando a proibição de voar no espaço aéreo europeu através de aviões fretados. E pronunciou este «fretados» com e aberto: /frétados/. Mas não. Em «frete» o e é (maioritariamente) aberto porque é sílaba tónica; em «fretado» não é sílaba tónica. O mesmo erro acontece, e com mais frequência, na pronúncia da palavra «drogado».

Pronúncia: «in loco» e «grosso modo»

Non probatus



      «Por isso, se puder, conheça em loco [lóco], em loco [lôco], a “Maison Tropicale” […]» (Palavras Soltas, Sic Notícias, Bárbara Guimarães, 11.07.2007). A expressão latina é in loco e esta última palavra pronuncia-se /lóco/. Igualmente maltratada é a locução grosso modo, que significa «de modo grosseiro», «aproximadamente», e se deve pronunciar como se fazia em latim: /grósso módo/. Na escrita, deve ser realçada em itálico ou entre aspas. Um erro muito difundido no Brasil é juntar, para tudo piorar, a preposição a: a grosso modo.



Tradução

No fio da navalha



      Dizia o original: «La “democratización” de la lucha, impulsada por el mito revolucionario francés de la nación en armas, vino unida a una transformación acelerada de la técnica armamentística, al hilo de los principales logros de la Revolución Industrial.» O tradutor não achou especialmente difícil: «A “democratização” da luta, impulsionada pelo mito revolucionário francês da nação em armas, veio unida a uma transformação acelerada da técnica de armamento, ao fio dos principais ganhos da Revolução Industrial.» Entre os vários erros, este «ao fio dos» é arrepiante. A locução prepositiva espanhola al hilo de ou al filo de significa muito pouco antes ou depois de: Al hilo de la medianoche. «Por volta da meia-noite.» Não sabemos se foi um pouco antes, se um pouco depois da meia-noite. Sabemos é que se perdem vocações noutras áreas…

Contracções

Contrai, descontrai

«Foi depois dos taliban tomarem o poder em Cabul, em 1996, que o traje — tornado obrigatório para as mulheres — ficou mais conhecido, recorda a AFP» («O “golpe da burqa” tem história, mas continuará a funcionar?», Francisca Gorjão Henriques, Público, 7.07.2007, p. 5). Nesta frase, a preposição de não deveria estar contraída com o artigo o: «Foi depois de os taliban tomarem o poder em Cabul […].» A regra não é esotérica: quando seguida de construções de infinitivo, não se contrai a preposição de com o artigo que precede o substantivo, pois a preposição não está relacionada com esse substantivo, mas com a acção traduzida pela forma verbal. É um dos erros mais comuns em português, abundantíssimo nos jornais. Mais um exemplo na mesma edição do Público: «No programa de Larry King, anteontem à noite, a jovem herdeira Paris Hilton confessou que nunca usou drogas, que não é de beber muito álcool e que apesar de considerar injusta a sua prisão — por guiar sem carta, depois desta ter sido apreendida por conduzir alcoolizada —, Deus deverá ter uma razão para o que lhe aconteceu» («Hilton leu a Bíblia na cadeia», Público/P2, 7.07.2007, p. 22). Mas atenção: por vezes, é obrigatória a contracção e quem escreve não a faz.

Apostila ao Ciberdúvidas

Imagem: http://www.answers.com/topic/

Ossos e músculos do ofício

Francisco Pires*, um português a estudar em Jyväskylä, na Finlândia, perguntou ao Ciberdúvidas como se traduz para português o nome de vários músculos. Em relação a dois deles, foi induzido em erro pelo consultor José Carlos Ferreira. De facto, a musculi occipitofrontalis venter frontalis e a musculi occipitofrontalis venter occipitalis não corresponde, como escreve o consultor, «ventre occipital do músculo occipito-frontal» e «ventre frontal do músculo occipito-frontal», respectivamente. Em ambos os casos — occipitofrontal. O antepositivo occipit- (e também ocipit-, na variante brasileira) solda-se sempre com o elemento que se segue: occipitatloideu, occipitatloidiano, occipitauricular, occipitaxóideo, occipitepicraniano, occipitodorsoscapular, occipitoparietal, etc. Tenho, porém, a certeza de que o Ciberdúvidas vai corrigir o erro, como agora já faz quando vê aqui e ali, e mais aqui que ali, que alguém se lhe referiu.

* Este consulente foi o autor da dúvida n.º 18 000, com honras na imprensa, em 2004. A imprensa só se esqueceu de referir que não houve nenhum esclarecimento. E a pergunta era clara e simples: que nome tem em português o Hippophae rhamnoides L.? É o nosso espinheiro-das-areias.

YouTube, You Tube ou Youtube?

A terceira via

«Segundo a versão mais recente do NetPanel da Marktest, “YouTube” é o termo de busca mais utilizado pelos portugueses. […] Para além disso, a sétima expressão mais pesquisada era uma variação do nome do serviço de vídeo — “You Tube” (com um espaço entre as duas palavras)» («Favorito entre os portugueses», Pedro Ribeiro, Público/Digital, 7.07.2007, p. 7). Mas quem fez a primeira página não leu este artigo, e por isso escreveu: «Youtube, a força do vídeo na Internet».

Arquivo do blogue