«Governância» I

Língua desgovernada

      «A ex-delegada regional do Ministério da Cultura, Isilda Martins, durante a apresentação do projecto, explicou que a origem da palavra governância “tem origem na Idade Média e significa governar com arte, ética e sabedoria”» («Município de Loulé apresenta proposta de governância para 20 anos», Idálio Revez, Público, 7.07.2007, p. 30). A origem tem origem? Não interessa. Tem origem, sim, mas em que língua? De um artigo («Nova governação, nova cidadania? Os cidadãos e a política em Portugal», in Revista de Estudos Politécnicos, 2005, vol. II, n.º 4, 029-038) do Dr. Carlos Jalali, professor de Ciência Política da Universidade de Aveiro, extraio a seguinte nota da página 34: «A expressão ‘nova governação’ é aqui usada como tradução do conceito de ‘governance’, dada a ausência de uma tradução consolidada deste conceito. Efectivamente, podem ser identificadas pelo menos três traduções rivais do conceito de ‘governance’ em português: ‘governação’ (viz., documento “Um Livro Branco sobre a Governação Europeia — Aprofundar a Democracia na União Europeia”, Comissão Europeia, SEC(2000) 1547/7, de 11 de Outubro de 2000); ‘governança’ (“Governança Europeia: Um Livro Branco”, Comissão Europeia, COM(2001) 428 final, de 25 de Julho de 2001); e ‘governância’ (OCDE, A Governância no Século XXI, 2002).» Não chegam «governação» e «governança» e «governo»? Ou é um conceito completamente diferente, a precisar de um vocábulo novo que o expresse? Como diria Miguel Esteves Cardoso, diz que sim, penso que não, mas enfim.

Ortografia: antiaéreo

Pólvora seca

«Foram encontradas duas armas anti-aéreas no telhado da casa suspeita, que fica perto do aeroporto, mas não tinham sido disparadas, diz a agência Reuters» («Alguém disparou ontem contra o avião em que seguia o Presidente paquistanês na cidade de Rawalpindi», Público, 7.07.2007, p. 26). E talvez nunca disparassem, pois são armas defeituosas: as operacionais designam-se antiaéreas.

À custa de

Custas a cargo do arguido

«O acordo agora aprovado pela assembleia municipal foi agendado e discutido por diversas vezes no seio do executivo municipal, tendo Moita Flores “ameaçado” o PS de que, se fosse impedido de resolver o processo, iria, a custas próprias, fazer afixar na cidade painéis com a fotografia “desta vergonha socialista”» («Santarém acorda uma solução para “mamarracho” junto ao Tejo», Público, 7.07.2007, p. 29). E é caso para repetir só porque vem da Lusa? À custa de é uma locução prepositiva consagradíssima, não a deturpem.

Selecção vocabular

Sem efeito

«“Reunir muitos milhares de espectadores e assegurar-lhes segurança geraria problemas, perante o clima que reina no país”, afirmou» («Festivais internacionais novamente anulados no Líbano», Rute Barbedo, Público, 7.07.2007, p. 26). Um pouco deselegante, não? Talvez «garantir-lhes segurança» ficasse melhor, evitando duas palavras da mesma família *. Quanto ao título, «anulados» não me parece a melhor escolha vocabular. Talvez «Festivais internacionais novamente cancelados no Líbano». No próprio corpo da notícia também se lê: «A anulação dos festivais de Beiteddin e Baalbeck deve-se às recusas dos grupos internacionais, explicou Waffa Saab, porta-voz da organização de Beiteddin.» Por outro lado, é muito mais comum a grafia Beiteddine. E Beit Eddine. E Beit ed-Dine.

* Na mesma edição: «Um abaixo-assinado pedindo o recomeço do programa foi assinado em menos de um mês e até quinta-feira por 166.720 pessoas (http://arret-sur-images.heraut.eu/index.php)» («Napoleão, Napoleãozinho», Eduardo Cintra Torres, Público/P2, 7.07.2007, p. 14). Para evitar a repetição, deveria ter optado por «foi subscrito», por exemplo.

Portunhol e espanglês

Imagem: http://www.cinepop.com.br/


Misturas



      A propósito de José Saramago se ter exprimido em portunhol, lembrei-me da palavra inglesa spanglish, que vi recentemente traduzida por… portunhol! Não é de cair para o lado de tão ridículo? Spanglish só podia ser uma amálgama de espanhol com inglês, conceito que não podemos traduzir por portunhol. Será por espanglês, e até há um filme recente com este título (traduzido, claro).

Democracia musculada

Olho vivo

«Ainda não foi desta que a França deu um passo em frente para sair do regime napoleónico, aristocrático e timorato da liberdade de imprensa que caracterizam a sua democracia. Depois de Putin, Chávez, Sócrates e Santos Silva, Sarkozy junta-se aos adeptos das democracias musculosas» («Napoleão, Napoleãozinho», Eduardo Cintra Torres, Público/P2, 7.07.2007, p. 14). A locução já consagrada é «democracia musculada». O verbo caracterizar deve, naturalmente, concordar com o sujeito — regime. Outra vez: «Ainda não foi desta que a França deu um passo em frente para sair do regime napoleónico, aristocrático e timorato da liberdade de imprensa que caracteriza a sua democracia. Depois de Putin, Chávez, Sócrates e Santos Silva, Sarkozy junta-se aos adeptos das democracias musculadas.»

Dupla negativa

Abrupto, o pensamento

      «Ora não há qualquer prova de que tal existiu, nem o bom senso e o conhecimento da realidade no terreno o revela, até porque, meus amigos!, estamos em Portugal e em Portugal ninguém conspira sem que não se saiba ou se venha a saber, e as conspirações são umas coisas amadoras e adolescentes, mais espertas do que inteligentes, e nunca resultam» («Um problema para as eleições de Lisboa: segurança eleitoral», José Pacheco Pereira, Público, 7.07.2007, p. 45).
      A duplex negatio dos Romanos ainda faz andar a cabeça à roda aos Portugueses. Não, não, desnecessariamente complicado. Tentemos assim: «Ora, não há qualquer prova de que tal existiu, nem o bom senso e o conhecimento da realidade no terreno o revelam, até porque, meus amigos!, estamos em Portugal e em Portugal ninguém conspira que não se saiba ou se venha a saber, e as conspirações são umas coisas amadoras e adolescentes, mais espertas do que inteligentes, e nunca resultam.»

Revés/reveses

Vezes e revezes

«O Washington Post comentava que este é um dos maiores revezes para a Casa Branca, que tentava com muito esforço evitar a divisão entre republicanos no Congresso e no Senado sobre o Iraque — por causa da importância do senador Dominici» («Senador republicano quer mudança no Iraque», Público, 7.07.2007, p. 26). Para a ortografia portuguesa não é um dos maiores reveses, mas não prestigia o Público.

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