Apostila ao Ciberdúvidas

Não ligue

«Il a raison, mais il n’est pas des nôtres. Silence»
Montherlant

Uma professora de Aveiro, Maria Vitória Bóia Mouro, perguntou, em má hora, ao Ciberdúvidas se existia a palavra «responsabilizante». Resposta do consultor, F. V. da Fonseca: «Não encontro registado o termo, sem dúvida sinónimo de responsabilizador, “que responsabiliza ou que implica responsabilidade”.» Que eu saiba, no Brasil fala-se português, e o excelente, e sem paralelo em Portugal, Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, que pode consultar aqui, regista: «responsabilizante adj. 2g

Tradução: «médecine douce»

Disparates suaves

Desta vez, o tradutor teve consciência de que a tradução que propunha não seria a mais correcta, assinalando então a vermelho a palavra «suaves». O que estava em causa era a tradução da expressão francesa «médecine douce». «Les médecines douces», dizia o original. «As medicinas suaves», atirou, a medo, o tradutor. Mas não. «Médecine douce/officielle. Cette autre médecine existe (...) on l’appelle médecine douce parce que, à la différence des traitements d’urgence que privilégie la médecine officielle, elle veut aller dans le sens de ce que le corps réclame (Le Nouvel Observateur, 7 avr. 1980)» (in Le Trésor de la Langue Française Informatisée). É a nossa medicina alternativa. «L’Altra Medicina» dos Italianos. A «Heilpraktik» dos Alemães.

Tradução: «carotte»

Imagem: http://www.dt.insu.cnrs.fr/carottier/

A importância das cenouras


      O texto tinha como título «La mémoire de la glace» e dizia: «Dans les échantillons de glace (carottes) prélevés par les chercheurs se trouvent conservées les traces de l’histoire climatique de la planète : périodes de réchauffement, de refroidissement, teneur en gaz carbonique, en oxygène, etc. L’Antarctique est ainsi un gigantesque laboratoire pour étudier l’évolution des climats, et pour comprendre, et peut-être prévenir, les conséquences des pollutions atmosphériques causées par les pays industrialisés.» O tradutor — e que Deus lhe valha! — verteu assim: «Nas amostras de gelo («cenouras») recolhidas pelos investigadores encontram-se conservados vestígios da história climática do planeta: períodos de aquecimento, de arrefecimento, nível de dióxido de carbono, de oxigénio, etc. A Antárctida é assim um gigantesco laboratório para estudar a evolução dos climas e para compreender, e talvez prevenir, as consequências das poluições atmosféricas causadas pelos países industrializados.» «Cenouras»? Nem com aspas as engolimos. Mas sim, podia ser, pois «les carottes, naguère mal protégées, s’érodaient à la remontée et prenaient une forme légèrement conique : d’où la similitude avec la racine et le nom» (in Le Trésor de la Langue Française Informatisée). Mas em francês, não em português. Qualquer dicionário bilingue — e o que cito é o Grande Dicionário Francês/Português, editado pela Bertrand — dirá: «carotte s. f. Massa de terra extraída pelos instrumentos de sondagem». Pois em português também é simples: carote. Sem ser engenheiro, conheço a palavra e o conceito há muitos anos. Em certas estruturas, extraem-se carotes de betão para análise. Dos fundos marinhos, extraem-se carotes de sedimento para análise.
      De vez em quando, fala-se da falta de maturidade, apesar das regras no acesso ao Centro de Estudos Judiciários, dos juízes. Contudo, não é só com estes profissionais (embora as decisões destes tenham repercussão na vida dos indivíduos e da sociedade em si) que nos devíamos preocupar. Um recém-licenciado que leu mal (ou mal leu) três livros e se põe a traduzir também é perigoso.

Tradução. Nortenho e nortista

Perderam a tramontana


      Pode não ser somente um erro das traduções, mas é nestas que o encontrei já diversas vezes. Está-se a falar, por exemplo, da Guerra Civil Americana, ou Guerra da Secessão (1861-65). Esta opôs, como se sabe, o Norte, abolicionista, ao Sul, escravagista. Opôs, pois, os sulistas aos… os sulistas aos… aos nortenhos!? Em espanhol sim, o vocábulo norteño refere-se ao que pertence ou está situado no Norte de qualquer país. Em português, não é assim. Se dessem uma olhadela num qualquer dicionário da língua portuguesa, leriam: «Nortenho, adj. Relativo ao Norte de Portugal.│S. m. Natural ou habitante do Norte de Portugal.» Ainda temos os norteiros, os nortenses e os nortistas — mas cada um no seu sítio. Isto faz-me lembrar um outro caso de tradução que me foi relatado. Tratava-se de um romance inglês, ambientado na Inglaterra do século XIX. Pois o tradutor pôs a personagem principal a passar não por agruras mas «as passinhas do Algarve». Ainda se fosse do Allgarve…

Incongruências gráficas; o trema

Tremuras

      «“Está fora de questão retirar a minha candidatura”, garantiu ontem o ministro dos Negócios Estrangeiros turco e candidato do partido islamita (AKP, no poder) às presidenciais, Adullah Gül, horas antes de um protesto que reuniu um milhão de pessoas em Istambul» («Gül mantém candidatura apesar de manifestação em Istambul», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 30.4.2007, p. 30). «O ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia, Abdullah Gul, retirou ontem a sua candidatura à presidência da República» («Ministro islamita retira candidatura presidencial», Armando Rafael, Diário de Notícias, 7.5.2007, p. 29). Este texto é sobre a incoerência. Do ministro, perguntam-me? Do jornal. Porque grafou, num intervalo de dias, de formas diferentes o nome do ministro? Em nomes turcos, só há uma forma correcta de os grafar: usar o que pode parecer um trema, mas não é. Nesta língua, não se trata de um diacrítico, mas de uma letra que tem aquele coroamento — para nós, um carácter especial. Por isso o nome Mustafa Kemal Atatürk (1881-1938) não o dispensa. Já em alemão, por exemplo, é diferente: se embirrarmos com o trema (Umlaut, em alemão), podemos substituí-lo por e, como no nome Schröder → Schroeder. E tudo fica bem. Ainda há dias me surgiu o nome (Arnold) Schoenberg, que emendei para Schönberg. Sim, defendo que se deve respeitar escrupulosamente a grafia dos antropónimos estrangeiros. Sim, mesmo que seja Martinů.
      Convenho: os jornais ditos de referência vão deixando de o ser, pelo menos no que diz respeito à língua portuguesa, e têm problemas mais graves para resolver. Só não percebo porque não os resolvem.

Léxico: biscainha

Imagem: http://www.elmundo.es/

Devolvam-me a biscainha


      Criança ainda, muito antes de conhecer a locução «boina basca», a txapela, a palavra que ouvia e usava para designar essa mesma peça de vestuário era «biscainha». Quando ontem usei, por acaso, a palavra, o meu interlocutor ficou boquiaberto. Como por vezes acontece, precipitei-me para o dicionário mais próximo. Em vão. Nenhum dicionário regista o vocábulo «biscainha». Na Internet, só no TemaNet (Wordnets Temáticas do Português) o encontrei.

Informação

Jogo da Língua Portuguesa

Desde 18 de Dezembro de 2006, a Rádio Renascença também tem um Jogo da Língua Portuguesa, e melhor do que outro de outra rádio. Pode consultar todos os textos aqui. Deixo também um exemplo, para os meus leitores aquilatarem do seu valor:

«Como escreve? Como diz?
“açorianos” ou “açoreanos”?
A resposta é AÇORIANOS. É esta a correcta grafia do nome gentílico dos naturais dos Açores e do adjectivo que qualifica tudo o que é dos Açores. Embora o topónimo Açores se escreva com e, açoriano escreve-se com i. Eis a explicação do Prof. Rebelo Gonçalves, no Tratado de Ortografia: “Escrevem-se com i, e não com e, antes de sílaba tónica, os adjectivos e substantivos derivados em que entram os sufixos mistos de formação vernácula -iano e -iense, os quais são o resultado da combinação dos sufixos -ano e -ense com um i de origem analógica (baseado em palavras onde -ano e -ense estão precedidos por i pertencente ao tema”. Ou seja, açoriano, camoniano, cabo-verdiano, por analogia com horaciano, italiano, etc.»

Informação

Imagem: http://www.estgm.ipb.pt/

Sobretudo para quem tem filhos ou alunos pequenos, recomendo vivamente o site História do Dia. Como o nome sugere, publica todos os dias uma história (bilingue: português e inglês) ilustrada. A versão portuguesa pode ser também ouvida. Apesar de ser muito mais conhecido do que este blogue, há-de haver muitos leitores que me agradecerão.

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