O vocábulo «arguido»

Levante-se o réu!

      Escreve Joaquim Shearman de Macedo, na edição de ontem do Oje: «Assim, acaba por ser caricato verificar que a supressão do termo ‘réu’ do processo penal (motivado em boa medida pelo teor acintoso e o anátema social que o mesmo inadvertidamente foi colhendo ao longo dos tempos) e a sua substituição por ‘arguido’ não resistiu ao passar do tempo. Actualmente, a carga negativa passou toda para a expressão [sic] ‘arguido’... Com os efeitos que se conhecem» («Arguidos e acusados», p. 4). Realmente, grande parte da culpa desta situação pode atribuir-se à comunicação social, que delira com esta palavra plena de possibilidades de manchetes e escândalos — mesmo quando o jornalista não percebe notoriamente nada da matéria. Claro que o vocábulo «arguido» traz ainda outras dificuldades à comunicação: mesmo alguns professores catedráticos de Direito não a sabem pronunciar. Ignoram que se trata de uma excepção, com outras, à regra segundo a qual nas sequências qu- e gu- seguidas de e ou de i o u não se lê (são, nesses casos, dígrafos). Vê-se isto com frequência. Faz-nos falta o trema: argüido, freqüência, seqüência. E muita leitura nas escolas e em casa.

Léxico: «merinaque»

Mulheres crinoladas



      Caro Luísa Costa, a peça de vestuário que antigamente se usava para dar volume ao traje feminino designava-se merinaque, termo que vem do espanhol meriñaque ou miriñaque. Que o Diccionario de la Real Academia define assim: «Zagalejo interior de tela rígida o muy almidonada y a veces con aros, que usaron las mujeres.» O vocábulo teve uso corrente em Portugal. Veja-se este trecho do romance A Queda dum Anjo, publicado em 1866, de Camilo Castelo Branco: «Graças ás modistas de Penafiel, e, mais ainda, ás meninas da estalagem, D. Theodora Figueirôa affeiçoou-se ao merinaque, e ao feitio e estofo do vestido e paletó. O primo Lopo dizia-lhe, algumas vezes, que ella, em companhia de Calisto, era um diamante bruto; e se n’isto havia encarecimento, até certo ponto o bacharel maravilhava-se do influxo que o trajar exercitava nas fórmas de sua prima. A cintura adelgaçou-se; apequenou-se-lhe o pé; alargaram-se-lhe os encontros; amaciou-se-lhe a cutis; branquearam-se-lhe os braços; escampou-se-lhe a fronte com o riçado dos cabellos; toda ella adquiriu no andar certo requebro e donaire que lhe ia tão ao natural como se tivesse sido educada por salas e adextrada em flexuras da dança! A mulher, com effeito, é um mysterio!» (pp. 261-62 da edição original)
      Há, na língua portuguesa, outro termo para designar o mesmo: crinolina: saia entufada revestida de tecido forte ou assente sobre círculos paralelos de aço ou de barbas de baleia para dar maior roda ao vestido. «Mulher crinolinada» era a que usava saia retesada por crinolina.


Ortografia: garnisé e granisé

Coisas de cacaracá

Cara M. L. T.: sim, também se escreve «granisé», mas pessoalmente prefiro a forma «garnisé». São ambos adjectivos: galinhas garnisés. Designam uma espécie de galinha pequena. E porque é que prefiro a segunda forma, pergunta? Pois porque foneticamente estará mais próxima do étimo: Guernesey, a ilha do canal da Mancha. É mais um caso de derivação imprópria: de substantivo próprio passou a substantivo comum. Este tipo de derivação obriga sempre ao uso de minúscula inicial. Felizmente os nossos intelectuais não se ocupam de galinhas, ainda que cosmopolitas como estas, pois corríamos o risco vê-las maiusculizadas. Um cálice de porto para isso.

Tradução: «black-letter law»

A imaginação fora do poder!

«Whereas hard law (sometimes called black-letter law) is the law of the courts, soft law is informal law, setting forth ideals that constrain our behavior and may in time become hard law.» «Ao passo que a lei rígida (por vezes chamada lei gótica) é a lei dos tribunais, a lei fraca é informal, declarando ideais que limitam o nosso comportamento e que com o tempo poderão vir a tornar-se lei rígida.» Podia ser, até porque se supõe que «the term probably derives from the practice of publishers of encyclopedias and legal treatises to highlight principles of law by printing them in boldface type». Mas, calma!, para nós nada significa. A tradutologia há muito que assinalou que há vocábulos intraduzíveis, não funcionando as equivalências formais ou exactas porque não existem, mas somente uma explicação. Modestamente, proponho: «Ao passo que a lei rígida (por vezes chamada black-letter law [direito positivo]) é a lei dos tribunais, a lei fraca é informal, declarando ideais que limitam o nosso comportamento e que com o tempo poderão vir a tornar-se lei rígida.» Propus depois de saber (afinal só a compreensão conduz à traduzibilidade) que black-letter law é «a term used to describe basic principles of law that are accepted by a majority of judges in most states». Claro que é preciso saber também que o sistema jurídico norte-americano é completamente diferente do português, e isto já releva do contexto extralinguístico.

Género de «aluvião»

Opiniões & sensações

      Antigamente, qualquer apaga-lampiões sabia que a palavra «aluvião» era do género feminino. Depois, com o decurso do tempo, um número significativo de falantes — e alguns já não eram apaga-lampiões — passou a fazer o mesmo, o que obrigou os dicionaristas, que a sabiam historicamente do género feminino, como em latim, aluvio,onis, a admitir os dois géneros. Agora, já há quem jure que é «só» do género masculino. Assim evoluem as línguas. Mas claro, são meras opiniões de leigos. Como escreveu Miguel Esteves Cardoso, «os pareceres são como os raios laser: emitem-se. Cada português é um emissor privado. Privado de bom senso».



Léxico: corsa


Imagem: http://www.nesos.net/

Carros de cesto?

Sempre que se fala, na imprensa mas não só, nos carros de vime da Madeira, verdadeiros ex-líbris da ilha, nunca se vê referido o nome que têm. De facto, «carros de vime» ou «carros do Monte» são mais descrições do que outra coisa. Contudo, há muitos anos que conheço a palavra «corsa» para os designar. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, por exemplo, regista: «Corsa, f. Espécie de veículo, puxado por gente, e em que se transportam pessoas, na ilha da Madeira.» São feitos de vime e assentes em duas tiras de madeira ensebada e terão aparecido em 1849. Descem do Monte até ao Funchal por uma calçada estreita e muito íngreme, manobrados por dois carreiros, trajados de calças e camisa branca e chapéu de palha. Há, actualmente, 87 carros em serviço. Curiosamente, a imagem de cima, pertencente, tal como a de baixo, ao Museu Photographia Vicentes, tem como legenda «“Corsa” junto ao portão da “Villa Victória”, anexo do Reid’s Palace Hotel. Estrada Monumental, Sítio do Salto do Cavalo, Funchal. Posterior a 1894. Fotógrafo: Perestrellos Photographos», ao passo que a legenda da fotografia de cima é «“Carro de cesto”. Rua de Santa Luzia, Funchal (vendo-se à direita o muro do Convento da Encarnação). Primeiro quartel do século XX. Fotógrafo: Vicentes Photographos». Imagino que o autor das legendas desconheça que o vocábulo «corsa» também se aplica aos carros de cesto. Vamos dizer-lhe?

Tradução: «enforceable»

Língua desmandada


      Isto faz-me lembrar a questão da etimologia do vocábulo «mandarim» e da suposta influência do verbo português «mandar» na sua grafia. Dizia o original: «We need enforceable international law to help regulate our behavior.» «Precisamos de uma lei internacional mandatória para ajudar a regulamentar o nosso comportamento», verteu o tradutor. Nenhum dicionário, que eu conheça, regista o termo «mandatório»: quase todos saltam de «mandato» para «manda-tudo». Os melhores, pelo menos, porque os outros dão saltos maiores. O vocábulo «mandatório» que, de facto, vejo ser utilizado com alguma frequência, só pode ser o aportuguesamento desnecessário do inglês mandatory (com étimo no latino mandatorius). Em português dir-se-á, mais vernaculamente e neste âmbito jurídico-legal, «executória». Ou, se quisermos, «obrigatória».




Etimologias

Imagem: http://www.georgianindex.net/

A imprensa mordaz e o dicionário mendaz

      Há na língua espanhola, e alguns tradutores já se terão deparado com ele, o vocábulo «ridículo» para designar uma bolsa exterior que no início do século XIX, com a moda dos vestidos de estilo império, e até mesmo um pouco antes, com o chamado estilo directório, se impôs. Na verdade, este nome foi-lhe posto, pela extravagância que lhe viam, pela mordaz imprensa francesa, pois o nome que adequadamente lhe tinham dado era «retícula» (réticule), do latim reticulum. Logo em 1812, o Dictionnaire Universel Boiste acrescentava esta acepção ao verbete «ridicule», como se pode ver aqui. Até aqui, nada de extraordinário, pois podia até pensar-se que estávamos perante mais um caso de deturpação popular. O que é estranho, isso sim, é que o conceituado Diccionario de la Real Academia registe que ridículo, na acepção da bolsa, tem como étimo o latim reticŭlus, «bolsa de red». Bem explicadas, as coisas não são assim, e ninguém pede tanta simplificação.

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