Glossário: palavras timorenses

Palavras timorenses no português

Baiqueno m. Língua, falada principalmente na Província do Servião, a que os Holandeses chamaram timoreesch.
Batanda f. Dança de Timor.
Bataúda f. Batuque de Timor.
Calado m. Dialecto falado nas montanhas vizinhas de Díli, em Timor.
Carosol m. Arbusto amomáceo de Timor.
Cascado m. Em Timor, doença da pele, peculiar aos indígenas.
Champló m. Árvore de Timor.
Coilão m. Pântano, paul; ribeiro que não chega às praias, escoando-se nas areias ou formando pântanos.
Cole m. Em Timor, folha de palmeira, com que se fazem esteiras, cestos e sacos.
Crubula f. Certa árvore de Timor.
Dagadá m. Língua gentílica de Timor, falada nos reinos de Faturó e Sarau, na ex-parte portuguesa.
Dasserai m. Axorcas que os Timorenses trazem nos artelhos.
Dató m. Chefe de uma aldeia (suco) ou de uma reunião de aldeias em Timor, pertencente à primeira classe social, dita mesmo dos datós.
Firaco m. Homem rude, montanhês, indígena do Leste do território.
Gabuta f. Planta de Timor.
Gonilha m. pl. Tabuões de bambu justapostos, com buracos redondos, que se colocavam nas pernas dos encarcerados.
Hacpólique m. Nome que em Timor se dá à tanga usada pelos indígenas.
Haiçá m. Árvore de Timor.
Haissuaque m. Instrumento de madeira pontiagudo com que os Timorenses amanham e revolvem a terra, em vez de arado ou de enxada.
Idate m. Um dos idiomas indígenas de Timor.
Lacalei m. Um dos idiomas indígenas de Timor.
Lamaquito m. Tribo indígena de Timor.│Indivíduo desta nação.
Lamuca f. Em Timor, espécie de rola.
Lantém m. Tarimba, mesa, estante ou banco de bambu ou hastes da palapa (espécie de palmeira da região), em Timor.
Lepalepa f. Canoa de Timor, curta e larga.
Liurai m. Em Timor, título do rei ou do régulo.
Lorçá m. Hino guerreiro e patriótico, em Timor.
Lorico m. Espécie de periquito de Timor.
Mambai m. Idioma indígena de Timor.
Manatuto m. Língua de Timor, na
região do mesmo nome.
Nauete m. Dialecto indígena de Timor.
Naumique m. Um dos idiomas indígenas de Timor.
Pagar m. Em Timor, o m. q. casa.
Palapeira f. Bot. Árvore de Timor de cujas fibras as mulheres tecem panos.
Parão m. Arma usada pelos Timores, espécie de foice roçadoura, com a ponta levemente curva.
Parapa f. Bot. Certa árvore de Timor.
Pardau m. Em Timor, medida de comprimento, apenas empregada na medição dos chifres dos búfalos.
Posual m. Em Timor, lugar onde se guardam as coisas sagradas, louças, pedras, azagaias, amuletos, etc.
Salenda f. Espécie de xaile das mulheres malaias e usado igualmente pelos homens em Timor.
Suangue m. Nome que em Timor se dava ao feiticeiro.
Tabedaí m. Dança timorense.
Tais m. Pano de algodão com que os guerreiros de Timor cobrem o corpo, da cintura ao joelho.
Tamugões m. pl. Segunda classe de indígenas de Timor.
Tanleom m. Bot. Árvore de Timor, espécie de sândalo.
Tarão m. O m. q. anileira, em Timor.
Teto m. Uma das línguas faladas em Timor; o m. q. manatuto e tétum.
Tétum m. O m. q. teto.
Timungões ou tumungos m. pl. Classe dos chefes, espécie de baixa nobreza, de povoação em Timor.
Uiamá ou uimaa m. Língua de Timor-Leste falada nas áreas administrativas de Atsabe, Calicai, Laleia, Venilale e Vila Salazar (Baucau).
Valuiú f. Bot. Palmeira silvestre de Timor.


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Neerlandês

Carne tenra e língua dura

      Quem não se lembra do Prof. Carlos Fabião? Tenho hoje aqui à minha frente o texto de uma conferência — «As dificuldades de um português com a língua neerlandesa» — que proferiu em 30 de Outubro de 1961 no Centro Cultural Holanda-Portugal-Brasil, da qual respigo a seguinte historieta. Nem sequer é preciso conhecer a língua neerlandesa para entender cabalmente o que está em causa.
      «Certo dia, pouco depois de ter chegado à Holanda, pretendendo eu obter carne de vitela bem tenra, entrei numa slagerij de Utreque e pedi a minha encomenda. Raciocinando, porém, com ingenuidade e precipitação, disse de mim para mim: “Tenro” é talvez da família etimológica de teder em Neerlandês. E, zás!, pedi carne teder… O carniceiro, porém, grande ratão, corrigiu-me, com um sorriso irónico, algo latino: “Mijhneer, disse ele apontando com o dedo, teder é, salvo seja!, aquela moça acolá; para carne de vitela diz-se mals!...
      Corei um pouco, e aprendi a não ser precipitado nos meus raciocínios de vocabulário comparativo.» (p. 23)

O bom povo

Madre natureza

Lembram-se da velhota que perguntava a outra se já tinha charingado às avessas? Pois agora, mão amiga fez-me chegar um livro de histórias da autoria da médica Lourdes R. Girão, Gentes d’além Montes (edição da Câmara Municipal de Moncorvo, 1996). Um dos relatos, «A doente tinha doença venérea que tinha sido transmitida pelo marido», diz: «Era uma mulher do campo, envelhecida prematuramente. Após as queixas habituais de poliartralgias, de ter sido observada e já medicada, a doente mantinha-se sentada, rígida e imóvel, com a receita na mão.
— O que é que se passa? O que é que me quer contar? — pergunto.
— Está tanta gente lá fora… — diz a medo.
— E isso que importa, se ainda não acabou a consulta!... — encorajo.
— Eu queria dizer-lhe uma coisa, mas tenho vergonha…
— Ora, ora… Conhecemo-nos há tanto tempo… para quê isso?
— Bem… Sabe?... O meu homem está muito mal da “ponta da natureza” e eu não sei porquê, também não me sinto bem da “boca da madre”…»

Travessão

Acordem, senhores

Apesar de os meios informáticos, e em especial os processadores de texto, estarem à nossa disposição há já algum tempo (eu, e não sou o melhor exemplo, uso computador desde 1988), ainda assim muitos tradutores não sabem como encontrar (e alguns, usar) o travessão. A lei do menor esforço impele-os, naturalmente, a usarem o que vêem no teclado: o hífen ou, pior ainda, a sublinha, na mesma tecla. Alguns, não vá o paginador ignorar, pespegam com dois hífenes seguidos. Demonstram assim não apenas ignorância, ah pois, mas também falta de respeito por quem vai rever ou paginar as obras que eles traduzem — pois alguém terá de fazer o trabalho que lhes incumbia.
O travessão, no aplicativo Word, o mais difundido, obtém-se clicando em «Inserir», «Símbolo» e «Símbolos». Para não haver dúvidas, na terceira linha da caixa, à esquerda, aparece o nome inglês do símbolo seleccionado: «EM DASH». Como se sabe, o hífen é mais pequeno e nunca há qualquer espaço entre ele e as palavras que liga; o travessão, por sua vez, requer o uso de espaço antes e depois. Ainda existe, e não terá escapado aos revisores que me lêem, pois usei-a no último post, a meia-risca, que tem um tamanho intermédio, usada com números, mormente datas e números de páginas: 1998―2006; pp. 20―35. Muito usada pelos anglo-saxónicos, com a designação de en dash*, por cá vai-se vendo (e viu-se no passado, pois na obra que ontem citei foi a meia-risca que o autor usou) em algumas obras, o que considero boa prática.


* «The en dash is slightly longer than the hyphen but not as long as the em dash. (It is, in fact, the width of a typesetter’s letter “N,” whereas the em dash is the width of the letter “M”—thus their names.) The en dash means, quite simply, “through.” We use it most commonly to indicate inclusive dates and numbers: July 9―August 17; pp. 37―59.» (Ver também Editorial Style Manual of UA)

Sentidos da partícula «ou»

Parece simples…

Só quem for pouco dado a leituras e a pensar é que ignorará que a conjunção ou oferece por vezes sérias dificuldades de interpretação. Em parte, a explicação está no facto de na evolução para o português mais de um vocábulo latino — vel, vel potius, aut — ter convergido neste. Continuando a explorar o opúsculo «Achegas para o estudo lexicológico da obra vieiriana», de José van den Besselaar, publico hoje uma reflexão deste autor sobre a questão na obra História do Futuro, do P. António Vieira.

«Ou. Esta conjunção tem quatro funções, por vezes, difíceis de distinguir entre si. A quarta delas não encontrou ainda a devida atenção dos dicionaristas, apesar de ser muito importante para a interpretação certa de vários passos da obra vieiriana.
a) valor alternativo ou exclusivo (em Latim, preferivelmente: aut). Exemplos:
HF VI 167 “duvidoso se aceytaria ou não a batalha”; cf. III 124; III 127; IV 146; VIII 575; etc., etc.
Nota. Esta função de ou é na HF a mais frequente. Muitas vezes encontramos também a correlação ou… ou:
HF IV 57 “ou sejão beneficios ou castigos”; cf. IV 147―148; XII 18―19; etc., etc.
Também ocorre: ou… ou… ou:
HF V 28–29 “Mas, ou seja para Portugal, ou para o resto do mundo, ou para todos…”; cf. XII 62―63; etc.
Também: ou… ou… ou… ou:
HF IX 262―263 “ou provavel, ou moral, ou theologica, ou canonicamente…”.
b) indiferença de escolha (em Latim, preferivelmente: vel). Exemplos:
HF XII 1361 “as suas alturas ou profundidades”; APP. I 20 “hum Isayas ou hum Jeremias”; APP. III 77 “por fama ou informação errada”; etc.
Nota. Esta função de ou ocorre só poucas vezes em proposições negativas e em perguntas (geralmente, retóricas) às quais se espera uma resposta negativa, p.e.:
HF III 117―118 “não por nome ou titulo fantastico”.
Em tais frases, porém, Vieira prefere geralmente a conjunção nem, p.e.:
HF XII 1585―1586 “Como havião de cuydar nem lhe [sic] havia de vir ao pensamento que os profetas fallavão dos Americanos?”; III 100 “não falla por hyperbole nem synedoche”; APP. I 39―40 “como se atreverá hum Reyno tão pequeno nem esperará consegui-lo?” Outros exemplos HF XII 1577―1578 e 1598―1599.
c) valor explicativo (em latim, preferivelmente: vel). Exemplos:
HF XII 1178 “atado aos gurupés ou paos compridos”; cf. IX 237―238 “ainda que entrevenha no discurso algum meyo ou proposição scientifica”.
Nota. No primeiro exemplo alegado, um termo menos conhecido vem depois a ser explicado por uma palavra bem conhecida; no segundo, um termo genérico por uma expressão mais precisa e concreta. Ocorrem também passos em que ou introduz um termo menos conhecido, p.e.:
HF XII 1209―1210 “E porque não faltasse a esta terra a demarcação ou arrumação (como dizem os geografos)…”; cf. APP. II 185―188 “Quando o sentido […] não he contrario senão diverso, ou quando não he “contra” senão “praeter” (como dizem os theologos)…”.
d) valor correctivo (em Latim: aut/vel potius): “ou antes, ou melhor”:
HF I 51―52 “Mas que direy das sciencias ou [= “ou antes”] ignorancias, das artes ou [= “ou antes”] superstições, que os homens inventárão…?”; cf. I 70 “de huma só hora ou instante da vida”; I 61 “em que lessem ou soletrassem”; I 180―182 “tudo isto […] he envolto em metaforas […] e contado (ou cantado) em frases proprias do espirito e estylo profetico”; II 145―146 “pede a razão e amor natural que leyas e consideres nella [sc. na HF] os seus ou os teus futuros”; IV 129–130 “da coroa que […] lhe cahíra da cabeça, ou lhe fora arrancada della”; V 126―127 “e no concurso de todas estas profecias se consolava e animava Portugal a ir vivendo ou durando…”; VI 154―155 “as emprezas firmadas por huma escritura de Deos (ou por tres escrituras); VII 56―57 “tinha já concluido, ou comprado […] a paz”; VII 82 “por exemplo ou desengano”; VIII 487―488 “que esperança ou que desesperação he pertender conquistar a Portugal?” IX 19―20 “As mais escuras trevas que se vírão no mundo (ou com que o mundo se não vio) forão aquellas do Egypto”; XII 94―96 “… do grande Jeronymo, digno tanto do immortal louvor pela eminencia de sua sabedoria, como pelos trabalhos e suores com que adquirio ou conquistou”; XII 1461―1462 “diz elle, ou por elle Deos”; APP. III 1 “Não foy menor occasião ou impedimento…”
Nota. Só raras vezes encontramos, nesta função, a correlação ou… ou:
HF I 19–20 “O homem, filho do tempo, reparte com o mesmo tempo ou o seu saber, ou a sua ignorância”; I 70―71 “[os genethliacos] levantão ou figura ou testemunhos”.
Outra nota. Uma vez, Vieira chega a explicitar este emprego da partícula ou, cf. HF X 328―329 “e tudo isto por beneficio do tempo, ou — para o dizer melhor — por providencia do Senhor dos tempos”.»

Disparates

Serviço público? Bah...

Malato está em pulgas: quer demonstrar ao País que sabe o que são estrangeirismos. A pergunta era a que palavras se referia o termo «galicismo». As hipóteses: a) inglesas; b) francesas; c) italianas. Depois de muito hesitar, pensar, repensar, o concorrente, um professor, escolhe a medo a hipótese b). Malato, que — ainda se lembram? — estava em pulgas para exibir os seus vastos conhecimentos, a uma pergunta do concorrente sobre que nome têm os vocábulos com origem no italiano, expõe a sua teoria: com origem no francês são galicismos; com origem no inglês, anglicismos. O resto não tem designação específica, são estrangeirismos.
Ao pobre de espírito que me chamou pobre de espírito (mas que continua a ler-me para aprender alguma coisa) por eu ter aqui clamado contra a estupidificação causada pela televisão, deixo-lhe este exemplo de «horário nobre». Repetido todos os dias.

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