«Pastorear» e «pastar» (I)

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Tenham paciência


      Até à 4.ª classe era compreensível — mas depois disso?... «His father raised and sold animals from village to village, while Hasan grazed the sheep.» O tradutor não teve dúvidas: «O pai criava e vendia animais de aldeia em aldeia, enquanto Hasan pastava as ovelhas.» Mas quem pastava — o pastor ou as ovelhas? E que faz o tradutor? Toca flauta pastoril? Até o cão fica perplexo...

Eh pá, outra vez

Pois não aprendem

«(barbeiro e caçador crónico): É pá, fui aos tordos neste fim-de-semana e não vi um» («Conversas de barbearia», Tomás de Montemor, Notícias Magazine, 28.1.2007, p. 76).

«1.º garoto — Eh pá! Vamos “reinar” ao cinema. Eu faço de “có-bói”. Dou-te uma pêra e tu ficas K. O.» (Vasco Botelho de Amaral, Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa, edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946, p. 91).

Tradução do espanhol

Deixa-me rir

«Yo gateaba por la casa, escurriéndome entre faldas y medias veladas, sin entender por qué pasaban del lloriqueo a la euforia en un segundo.» O tradutor é muito bom, mas veja-se como verteu a frase: «Eu gatinhava pela casa, deslizando entre saias e meias tapadas, sem compreender por que razão passavam do choro à euforia num instante.» Alguns leitores já me têm perguntado se os casos de tradução que apresento são reais. São sempre reais, é a minha resposta. Pelo menos enquanto não houver um sindicato da classe, com um código de ética que nos proíba de falar do trabalho que esteve na nossa «jurisdição», falarei. Até para ilustração dos próprios — que sei que me lêem. Quanto ao resto, só tem que ver com abnegação minha e nenhum receio de embaixadas homicidas. De qualquer modo, espero que partilhem a filosofia de Epicteto — Se disserem mal de ti com fundamento, corrige-te; de contrário, dá uma gargalhada.
Ah, sim, já me esquecia: medias veladas são… Digam-me os leitores o que acham que são.

Verbo «evacuar»

Intestino fatal

Uma funcionária (ou seria, meu Deus!, uma professora?) de uma escola do Algarve, a propósito do sismo, foi mostrar ao repórter, aos saltinhos e a rir, o botão que premiu para que os «professores e os alunos se evacuassem». Com sua licença, deveria ter acrescentado… Vejamos o que regista o Dicionário de Verbos e Regimes, de Francisco Fernandes (Editora Globo, São Paulo, 36.ª ed., 1989, p. 332):

«Evacuar. Transitivo — Expelir, fazer sair do corpo. “Evacuar humores.” (Constâncio)│Despejar, esvaziar, sair de (algum lugar): “Os confederados evacuam a posição.” (Rui, C. Inglaterra, 240.) “Evacuar a praça.” (João Ribeiro.)│Intransitivo — Expelir as matérias excrementícias: “O remédio fê-lo evacuar consideravelmente.” (Aulete.)│Pronominal — Sair espontaneamente: “Com o tratamento evacuaram-se os humores.” (Idem.)»

Ortoépia: «saudação»

Troque de dicionário

Um leitor, José P. Martins, diz-se «espantado» por ter ouvido ontem à noite, no primeiro comentário oficial do PS aos resultados do referendo, o Dr. Vitalino Canas pronunciar «sau-dação», «quando todos sabemos que não é essa a pronúncia-padrão». Discordo de si, posso?, caro leitor. Os melhores dicionários portugueses — e sim, viu bem: não é o caso do Dicionário da Academia — registam a pronúncia deste vocábulo (e de saudade e saudar) com sinérese e com diérese, ou seja, com prolação do ditongo (sau) ou das duas vogais (sa-u), pois ambas são admissíveis. É como lhe sugiro no título: uma vez que não pode retroagir, trocando de professora da escola primária, ao menos troque de dicionário.

Tempo e clima

Mau tempo no canal

Na RTP-1, os preparadíssimos Pedro Magalhães e José Alberto de Carvalho conjecturavam que tinha sido o «clima» a impedir maior afluência às urnas. Em Pirescoxe, Jerónimo de Sousa lamentava que o «tempo», e em especial o «tempo agreste», diminuísse a participação dos cidadãos no acto eleitoral. Na verdade, os Antigos usavam o vocábulo «clima» para designar o «ângulo» (τό κλίμα, em grego) formado pela órbita do Sol com um determinado local da Terra, a chamada latitude. Daí passou a significar a «situação geográfica» e, mais tarde, «zona terrestre, região», como alguns dicionários ainda hoje registam. É nesta última acepção que o P. António Vieira, como outros autores dos séculos XVI e XVII, emprega a palavra: «[…] e nas mesmas províncias e climas, onde nada lhe he estranho» (História do Futuro, VI). Só mais tarde o significado de «conjunto de condições meteorológicas de uma dada região» surgiu.

Informação


Para os amantes da língua espanhola — e devíamos ser todos, para conhecermos melhor a nossa própria língua —, deixo aqui a hiperligação para a Fundación Español Urgente.

Sumatra ou Samatra?

Caro Diário de Notícias

      «A rainha Sofia não compareceu à cerimónia por estar de regresso de uma viagem à Indonésia, onde visitava os centros de cooperação espanhola às vítimas do tsunami na ilha de Sumatra» («Corpo de Erika Ortiz cremado em Madrid», Sónia Correia dos Santos, Diário de Notícias, 9.2.2007, p. 24). Já uma vez aqui tinha referido a ortografia deste topónimo, mas em abstracto. Agora, a oportunidade de eu escrever algo mais e a jornalista estropiar a ortografia surgiu finalmente. Vou socorrer-me, mais uma vez, do que escreveu sobre a matéria Vasco Botelho de Amaral na obra Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa: «Lembrarei o caso de Samatra. Os Portugueses designavam assim aquela ilha da Indonésia, à qual o mesmo Camões chamou, em Os Lusíadas, a “nobre ilha”.
      Os nossos antigos escreviam Çamatra, com o c cedilhado inicial (hoje abolido), e posteriormente usou-se o s, mas sempre na sílaba figurou um a. (Por exemplo, João de Barros, nas Décadas, “descreve a situação da Ilha Çamatra”.)
      Apesar de a tradição portuguesa nos dar, portanto, a sílaba inicial Sa…, não será difícil ler-se em mapas, em livros, em revistas, em jornais, a escrita Sumatra, com Su…!      Mesmo naqueles casos em que as vicissitudes históricas reflectem mudança de dominador, aconselha a moral das línguas se não substituam levianamente os chamadoiros geográficos» (p. 75). «Não se percebe, aliás, porque é que nós somos tão solícitos em imitar os estrangeiros, e não imitamos os seus nacionalismos de linguagem. Veja-se, por exemplo, se os Ingleses dizem Cidade do Cabo, à portuguesa. É o dizem! Cape Town, e só Cape Town. Fazem eles muito bem» (p. 76).

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