Verbo rever. Erros

Da Rússia, com ruído

      Antena 1, noticiário das 15 horas, José Milhazes: «Moscovo ‘tá, claro, a seguir atentamente todas as investigações que serão feitas pelas autoridades inglesas. E as autoridades russas ‘tão-se a dizer abertas a colaborar de todas as formas para que se deixe de pensar que a morte de Litvinenko [Александра Литвиненко] tenha sido obra dos serviços secretos russos ou por ordem das autoridades russas.» Nem quero falar da deselegância do «’tá-se» e «’tão-se», vou directamente ao rebuscado «[es]tão a dizer abertas». Uma forma menos tortuosa e mais elegante seria, por exemplo, «dizem-se abertas» ou «declaram-se abertas».
      Embora fale demasiado depressa, a dicção de José Milhazes não é das piores, convenho, mas desta vez, com o frio que está na Rússia, talvez tivesse a língua entaramelada. Por exemplo, a forma verbal «serão» é, mesmo depois de ter ouvido dez vezes a gravação, meramente hipotética. Se se tratasse de Evgueny Mouravitch, não tínhamos de nos mostrar tão exigentes, mas sendo um português, jornalista, não podemos — e o elidido «nós» não é um plural majestático, somos mesmo todos nós, ouvintes — fingir que está tudo bem. Com tudo o que de lábil a oralidade tem, é claro que o grau de exigência é diferente do que teríamos em relação à escrita, mas ainda assim há limites. E, a propósito, acabei de saber que, no início desta semana, um escritor, no lançamento de mais um livro, agradeceu enfaticamente a alguém que «reveu o texto». Este sim é um erro grave, imperdoável num escritor. Não é um lapsus linguae, é ignorância.

Desfiar e desfilar

Outro rosário

      Jornal 2:, 28.11.2006, Alberta Marques Fernandes: «Outra obra sobre a história recente de Portugal é assinada por Almeida Santos. Em dois volumes, o ex-presidente da Assembleia da República desfila as memórias do processo de colonização e descolonização das antigas províncias ultramarinas. O autor diz que já é possível essa abordagem porque o tempo ajudou a arrefecer a História.»
      Deveria ter dito «desfia as memórias», isto é, narra, expõe em sequência, conta, pois que o verbo desfiar, em sentido figurado, significa isso mesmo. Se quisesse mesmo usar o verbo desfilar, em acepção semelhante seria intransitivo, e então diria, por exemplo: «Nesta obra de Almeida Santos, as memórias desfilam, apresentando um quadro do que tem sido a política portuguesa dos últimos trinta anos.» É parecido, sim, mas somente assim estaria correcto.
      Alberta Marques Fernandes tem uma óptima dicção e o timbre de voz é muito agradável. Contudo, na pausa gráfica, obrigatória, que antecede a frase «Em dois volumes…», não se deteve, dificultando a compreensão da frase. Por outro lado, é comum respirar ruidosamente antes de começar cada notícia, o que é desagradável. Vejamos o que diz João Paulo Meneses a propósito da respiração: «Resta dizer que são conhecidos vários exercícios práticos de relaxamento, a começar pela necessidade de estar bem sentado — falar ao microfone de pernas cruzadas ou com a cadeira desnivelada relativamente à mesa é caminho certo para respirações turbulentas» (Tudo o que se passa na TSF — … para um «livro de estilo», p. 114). Antes, escreve o autor: «Como se não bastasse, o microfone é cruel, porque amplia os ruídos…»

Rua do Ouro

Rua Áurea!!!

      A concentração de misteres, lojas, estabelecimentos, etc. de feição comum por certas ruas na Lisboa antiga chegou até nossos, como se vê da rua dos Bacalhoeiros, dos Fanqueiros, da Prata, do Ouro, etc.
Rua do Ouro é, pois, nome tradicional, bem de Lisboa. Artificializou-se, porém, o chamadoiro toponímico em rua Áurea, preciosismo que nada justifica. Já houve quem notasse que, assim como se dizia em latim a Via Appia, assim também nós podemos dizer Rua Áurea.
      Argumento descabido, pois Appia ligava o seu nome a Ápio Cláudio, a Appius Claudius, que a mandou construir.
      Ora, o nome de rua do Ouro não se pode substituir em Áurea, porque nenhum Aurus a mandou fazer.
      Áurea é atributo: do Ouro é determinativo, com base histórica.
      Os novos-ricos da linguagem lisboeta que chamam Áurea à rua do Ouro podiam fazer o favor de chamar rua Argêntea à da Prata, rua Fanqueiral à dos Fanqueiros, rua Bacalhoeira à dos Bacalhoeiros, etc.


Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 3, 1950.

Chapéu dos judeus

Imagem: http://www.jtsa.edu/
Discriminações

      Uma leitora pergunta-me se conheço o nome que se dá ao chapéu com que são representados os judeus da Idade Média. De facto, não encontrei o termo em português, se é que existe. Trata-se de um chapéu cónico, como os que se vêem na imagem, e era usado como sinal infamante, tal como a rodela (roda de feltro amarelo ou vermelho costurada nas vestes, no peito ou num ombro) e a estrela amarela. Sei é que esse chapéu cónico era designado pela expressão latina pileus cornutus, e assim é referido ainda hoje na historiografia. Os vocábulos usados em inglês e em alemão são meramente atributivos: Jewish hat e Judenhut, respectivamente.


Descriminar e discriminar

Não confunda!

      «Descriminar, discriminar. O primeiro vocábulo quer dizer — lavar do crime, tirar a culpa. O segundo, dado como arcaico por Roquete, significa — discernir, distinguir, separar. O prefixo des exprime negação ou privação; portanto, descriminar por discriminar é erróneo.»

(Do Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa).

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 3, 1950.

Pleonasmos

Da escrita à fala

      TSF, noticiário da meia-noite e meia, 26.11.2006, Bárbara Guevara: «Isto numa altura em que o Governo vai inaugurar a via tripla do IC19 até ao Cacém. Surge assim a problemática das acessibilidades à Grande Lisboa, com um tráfego médio diário superior a 100 000 veículos por dia. O IC19 só é superado pela ponte 25 de Abril como principal via de acesso à capital.»
      «Diário por dia»? Se a jornalista falasse de improviso, compreendia-se este pleonasmo tão evidente, ainda mais indesculpável pela proximidade entre os termos sinónimos. Com mais atenção poderá sempre evitar-se este defeitos de expressão.
      Com este post, passo a prestar mais atenção à oralidade. Usarei sempre gravações que transcreverei e arquivarei, para esclarecer quaisquer dúvidas. Bem podem invocar São Cristóvão (christos + pherein, «o que transporta Cristo»), patrono dos peregrinos e viajantes, mas também santo que preside aos erros da fala e aos abusos de linguagem.


«Pleonasmo
Ret.
O pleonasmo é uma forma de redundância que consiste em empregar numa frase termos do mesmo sentido (redundantes) ou em repetir uma ideia num enunciado:
descer para baixo; ver com os olhos; uma duna de areia; monopólio exclusivo.
Por vezes o pleonasmo é utilizado propositadamente para criar um efeito de estilo, de ênfase:
Eu vi com os meus próprios olhos!
O pleonasmo é uma noção gramatical; tautologia é a repetição de uma ideia.»

Olívia Maria Figueiredo e Eunice Barbieri de Figueiredo, Dicionário Prático para o Estudo do Português, Edições Asa, 1.ª ed., 2003, p. 349.

Do ponto de vista

Um erro luxuoso

«Sob o ponto de vista…»

      Sob o ponto de vista metafísico, sob o ponto de vista político, sob o ponto de vista da arte pura, etc., etc. — eis um jeito de expressão que a todo o instante se exibe, ao cuidar-se de transcendentes problemas. Erro crasso! Emende-se para — do ponto de vista, ou no ponto de vista.
      Realmente, a gente vê as coisas dum ponto de vista, ou num ponto de vista, e não «debaixo» desse ponto de vista, «sob» esse ponto de vista.
      Se compararmos a expressão noutras línguas, vemos que em inglês se diz correcta e logicamente — from the point of view, e nunca under the point of view. Por outro lado, a Academia Espanhola criticou a expressão bajo este punto de vista, que emendou para desde este punto de vista.

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 3, 1950.

Neologismo: portajar

Invenções

      A provar que a língua portuguesa não sofre do imobilismo de que alguns, desatentos ou desmemoriados, a acusam, eis aí, desde há algum tempo, o verbo «portajar», a significar estabelecer portagem em via rodoviária. Ainda tem, mas é quase sempre assim, uso restrito entre os burocratas, os políticos e os jornalistas, mas não lhe falta nada para vingar. O único perigo que poderá ter de enfrentar é a oposição de alguém que, ao vê-la empregada no texto da lei e não dicionarizada, a queira escorraçar, incitando à desobediência dessa mesma lei. Já aconteceu.

      «Segundo o porta-voz do movimento, José Carlos Barbosa, o estudo está “claramente mal feito”, pelo que, se o Governo não recuar na decisão de portajar a ligação entre Viana do Castelo e Porto pela A-28, as populações serão mobilizadas para «mostrar na rua a sua revolta e descontentamento» (Diário Digital, 22.11.2006).

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