Chapéu dos judeus

Imagem: http://www.jtsa.edu/
Discriminações

      Uma leitora pergunta-me se conheço o nome que se dá ao chapéu com que são representados os judeus da Idade Média. De facto, não encontrei o termo em português, se é que existe. Trata-se de um chapéu cónico, como os que se vêem na imagem, e era usado como sinal infamante, tal como a rodela (roda de feltro amarelo ou vermelho costurada nas vestes, no peito ou num ombro) e a estrela amarela. Sei é que esse chapéu cónico era designado pela expressão latina pileus cornutus, e assim é referido ainda hoje na historiografia. Os vocábulos usados em inglês e em alemão são meramente atributivos: Jewish hat e Judenhut, respectivamente.


Descriminar e discriminar

Não confunda!

      «Descriminar, discriminar. O primeiro vocábulo quer dizer — lavar do crime, tirar a culpa. O segundo, dado como arcaico por Roquete, significa — discernir, distinguir, separar. O prefixo des exprime negação ou privação; portanto, descriminar por discriminar é erróneo.»

(Do Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa).

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 3, 1950.

Pleonasmos

Da escrita à fala

      TSF, noticiário da meia-noite e meia, 26.11.2006, Bárbara Guevara: «Isto numa altura em que o Governo vai inaugurar a via tripla do IC19 até ao Cacém. Surge assim a problemática das acessibilidades à Grande Lisboa, com um tráfego médio diário superior a 100 000 veículos por dia. O IC19 só é superado pela ponte 25 de Abril como principal via de acesso à capital.»
      «Diário por dia»? Se a jornalista falasse de improviso, compreendia-se este pleonasmo tão evidente, ainda mais indesculpável pela proximidade entre os termos sinónimos. Com mais atenção poderá sempre evitar-se este defeitos de expressão.
      Com este post, passo a prestar mais atenção à oralidade. Usarei sempre gravações que transcreverei e arquivarei, para esclarecer quaisquer dúvidas. Bem podem invocar São Cristóvão (christos + pherein, «o que transporta Cristo»), patrono dos peregrinos e viajantes, mas também santo que preside aos erros da fala e aos abusos de linguagem.


«Pleonasmo
Ret.
O pleonasmo é uma forma de redundância que consiste em empregar numa frase termos do mesmo sentido (redundantes) ou em repetir uma ideia num enunciado:
descer para baixo; ver com os olhos; uma duna de areia; monopólio exclusivo.
Por vezes o pleonasmo é utilizado propositadamente para criar um efeito de estilo, de ênfase:
Eu vi com os meus próprios olhos!
O pleonasmo é uma noção gramatical; tautologia é a repetição de uma ideia.»

Olívia Maria Figueiredo e Eunice Barbieri de Figueiredo, Dicionário Prático para o Estudo do Português, Edições Asa, 1.ª ed., 2003, p. 349.

Do ponto de vista

Um erro luxuoso

«Sob o ponto de vista…»

      Sob o ponto de vista metafísico, sob o ponto de vista político, sob o ponto de vista da arte pura, etc., etc. — eis um jeito de expressão que a todo o instante se exibe, ao cuidar-se de transcendentes problemas. Erro crasso! Emende-se para — do ponto de vista, ou no ponto de vista.
      Realmente, a gente vê as coisas dum ponto de vista, ou num ponto de vista, e não «debaixo» desse ponto de vista, «sob» esse ponto de vista.
      Se compararmos a expressão noutras línguas, vemos que em inglês se diz correcta e logicamente — from the point of view, e nunca under the point of view. Por outro lado, a Academia Espanhola criticou a expressão bajo este punto de vista, que emendou para desde este punto de vista.

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 3, 1950.

Neologismo: portajar

Invenções

      A provar que a língua portuguesa não sofre do imobilismo de que alguns, desatentos ou desmemoriados, a acusam, eis aí, desde há algum tempo, o verbo «portajar», a significar estabelecer portagem em via rodoviária. Ainda tem, mas é quase sempre assim, uso restrito entre os burocratas, os políticos e os jornalistas, mas não lhe falta nada para vingar. O único perigo que poderá ter de enfrentar é a oposição de alguém que, ao vê-la empregada no texto da lei e não dicionarizada, a queira escorraçar, incitando à desobediência dessa mesma lei. Já aconteceu.

      «Segundo o porta-voz do movimento, José Carlos Barbosa, o estudo está “claramente mal feito”, pelo que, se o Governo não recuar na decisão de portajar a ligação entre Viana do Castelo e Porto pela A-28, as populações serão mobilizadas para «mostrar na rua a sua revolta e descontentamento» (Diário Digital, 22.11.2006).

Pronúncia: «medíocre»

Não diga MEDIÚCRE!

      É: — me – o – cre.
      O o era breve em latim.

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 1, 1949.

Particípio passado duplo

Cuidado com os temas!

      Apesar de considerar que os diversos temas, seis ou sete, tratados em cada emissão não têm muita articulação entre si, no que o telespectador perde, pois retém menos informação, acho que o programa Cuidado com a Língua! cumpre bem com o que deve ser um serviço público. De lamentar é as outras televisões não terem programas semelhantes, de divulgação e defesa da língua portuguesa. O meio, contudo, tem limitações. Pergunto a mim mesmo que utilidade pode ter tratar em televisão um aspecto da língua como o do duplo particípio passado. Não nos esqueçamos que o público-alvo não são os especialistas da língua. O ritmo a que tudo é tratado — e não estou a falar da voz off de Maria Flor Pedroso, que é excelente, bem colocada, que não nos deixa cansados como a de certos colegas seus da rádio, que falam a mata-cavalo — não é o mais adequado para falar da língua. É, ainda assim, de aplaudir, pois põe ao alcance de todos, quase imperceptivelmente, uma solução para dúvidas de sempre que nunca se preocuparam em resolver.
      Bem fariam os responsáveis da RTP se mandassem publicar nos principais jornais, semana a semana, a transcrição das várias emissões do programa. Entretanto, deixo aqui a transcrição do tema relativo aos particípios passados duplos.

      «Será que se diz morrido ou morto? E, da mesma forma, matado ou morto? Matar e morrer são dois bons exemplos de verbos com duplo particípio passado. Matar, ter, haver matado; ser, estar morto; e morrer, ter, haver morrido; ser, estar morto. A diferença está no verbo auxiliar com que se conjugam. Nós tínhamos matado o cordeiro quando… e não Nós tínhamos morto o cordeiro quando. Foi morto por uma bala e não Foi matado por uma bala. Se não tivesse morrido tão jovem e não Se não tivesse morto tão jovem. Apareceu morto na praia e não Apareceu morrido na praia. Existem muitos outros verbos com duplo particípio passado, ou seja, com um particípio passado regular e um irregular:

Acender: acendido/aceso
Dispersar: dispersado/disperso
Dissolver: dissolvido/dissoluto
Empregar: empregado/empregue
Encarregar: encarregado/encarregue
Ganhar: ganhado/ganho
Imergir: imergido/imerso
Imprimir: imprimido/impresso
Pagar: pagado/pago.»

Pronúncia: «período»

Não diga PERIÚDO!

      É: — pe – o – do.
     O o era breve em grego e em latim.

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 1, 1949.

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