À-vontade e à vontade

Crítica da crítica

      «Dito isto, Monica Ali parece mais à-vontade quando escreve, por exemplo, sobre a anárquica família Potts, a residir na aldeia, ou sobre Stanton, escritor em crise de inspiração, do que quando arrisca discorrer sobre camponeses comunistas, mesmo se actualizados por um caso de homossexualidade entre eles» («Polifonia em tons de azul», Ana Cristina Leonardo, Expresso/Actual, n.º 1757, 1.07.2006, p. 7). Este é um erro muito comum: nesta frase, não se deveria ter usado o substantivo «à-vontade», mas sim a locução adverbial «à vontade», que significa «descontraidamente» ou «sem constrangimento». Exemplificando: «Dito isto, Monica Ali parece mais à vontade quando escreve.» «Dito isto, Monica Ali parece ter mais à-vontade quando escreve.» Neste último exemplo, o que se diz é que o sujeito tem mais naturalidade, mais descontracção quando escreve.

«Vira-casaca» e «turncoat»

Somos todos iguais

É muito interessante que o nosso tão português «vira-casaca» tenha uma tradução perfeita no inglês «turncoat» («a disloyal person who betrays or deserts his cause or religion or political party or friend, etc.»), não é? «Vira-casaca, s. 2 gén. Indivíduo que muda frequentemente de credo político ou de ideias, conforme as suas conveniências» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coord. por José Pedro Machado).

Dicionário de chinês

Império do Meio

O leitor Rui C. Castro pergunta-me se conheço algum dicionário de chinês-português que recomende. Bem, eu não sei chinês, com muita pena minha — será uma das línguas do futuro —, mas na minha posse tenho, oferecido pelo meu amigo tenente-coronel José Manuel Pedroso, um amante da língua e cultura chinesas, o Dicionário Chinês-Português de Análise Semântica, da autoria de Joaquim A. de Jesus Guerra, S. J., publicado em 1981 pelos Jesuítas portugueses. Tem 1120 páginas e no prefácio o autor afirma: «A presente obra parece um Dicionário Chinês-Português; é, porém, com mais exactidão, uma Chave Universal de Análise Semântica. Universal, ou seja, para todas as línguas; sem excepção, cuido eu. E nisto representa — os leitores que ajuízem — uma útil descoberta.» Sim, os leitores que ajuízem.

Há e à

Coisas simples

Quanto a substituir o «há» por «existe» ou «existem», a tua professora tem razão, Andreia. « estudantes que procuram saber mais.» «Existem estudantes que procuram saber mais.» é a terceira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo haver. O à, por sua vez, é a contracção da preposição a com o artigo definido feminino (a + a), que se fundiram numa só palavra. Esta fusão é assinalada, como em todas as contracções semelhantes*, pelo acento grave (`). «A Andreia vai à piscina todos os fins-de-semana.»

* Na língua portuguesa, há somente sete palavras que têm acento grave, todas elas formas contraídas com a referida preposição: à, às, àquele, àquela, àqueles, àquelas, àquilo.

Sândi e cadeia fónica

Ora vejamos

Em resposta à dúvida do leitor J. Gomes, devo dizer que não conheço outra forma de transcrever uma cadeia fónica a não ser recorrendo ao Alfabeto Fonético Internacional (AFI), porque é biunívoco, isto é, a cada símbolo corresponde apenas um som. Veja o que se passa, por exemplo, com a representação das vogais, que todos aprendemos que são cinco: a, e, i, o, u. A realidade, porém, é que o português apresenta, isto está bem estudado pelos linguistas, catorze vogais, sendo que nove são vogais orais e cinco vogais nasais. Para transcrever, pois, uma cadeia fónica e perceber como os sons se influenciam mutuamente, a ortografia oficial portuguesa seria insuficiente. Somente com recurso ao AFI se poderia, graficamente, perceber que à marca do plural (v.g., os carros; os aviões) correspondem três sons diferentes. Este fenómeno designa-se sândi (palavra do sânscrito), cuja definição encontra nesta entrada do Dicionário Houaiss:

«sândi s. m. (1877 cf. MS) Fon modificação que afecta foneticamente o início e o final de uma palavra ou de um morfema, quando combinado com outro elemento na cadeia; p. ex: no port. a alteração fonológica (e gráfica) em que é de? > quede? e a alteração da pronúncia da forma absoluta livros no sintagma livros escolares/livrozescolares

Ortografia: caixa-forte e cofre-forte

O maldito tracinho…

O fenómeno tem poucos anos: especialmente nos jornais, a mania-de-usar-hífenes-a-torto-e-a-direito-é-simplesmente-confrangedora. Creio que foi o Dicionário da Academia, que nem sequer tem um papel normalizador na língua, que veio autorizar esta prática. Em contrapartida, cada vez se vê mais não usar o hífen nos vocábulos há muito registados nos dicionários com hífen. No Diário de Notícias, por exemplo, que é exemplar em relação a alguns, muitos, aspectos da língua, parece haver um conluio entre jornalistas e revisores para que a palavra «mais-valia» jamais apareça grafada com hífen. Ultimamente, são as palavras «caixa-forte» e «cofre-forte» que aparecem em toda a imprensa sem hífen. «Entre compras feitas nos hipers e outras grandes superfícies e os depósitos nas instituições financeiras, esses valores acabam por ir parar aos carros blindados das grandes empresas de transporte de valores e, posteriormente, para as suas caixas fortes» («Dentro da caixa forte», Paulo Santos, Visão, n.º 692, 8 a 14.06.2006, p. 136).

Utopia e ucronia

Ulogia

Tal como «utopia», «ucronia» é uma palavra que sabemos onde e como nasceu. Em 1876, o filósofo francês Charles Renouvier (1815-1903) cunhou, a partir do modelo do vocábulo «utopia», o termo «uchronie», que usou mesmo no título de uma obra: Uchronie, l’utopie dans l’histoire. Como define o Dicionário Houaiss, ucronia é uma «história apócrifa, recriada em pensamento como poderia ter ocorrido» e, por extensão de sentido, «período, época, tempo imaginário; recordação fictícia dentro de um tempo».
Muito interessante é a reflexão à volta do termo «utopia» que António Mega Ferreira reproduz na sua crónica na Visão: «E, como uma estudante [de arquitectura, num colóquio] não deixou de assinalar com argúcia, a história do termo utopia tem na origem um equívoco: é que Thomas More, que a inventou (ou-topos, um não-lugar), em 1516, via-a mais como uma forma de criticar a sociedade caótica do seu tempo do que como modelo para uma construção humana, In fine, aliás, rejeitava-a, por ela lhe parecer contraproducente na sua secante ortodoxia» (Visão, n.º 692, 8 a 14.06.2006, «Uma falsa modernidade», p. 21).

Erros dos jornalistas


Mundial do Desconchavo

Depois de ter dito qualquer coisa sobre o seu «homólogo Horacio Elizondo», árbitro do Portugal-Inglaterra, o repórter Horácio Antunes, da Antena 1, perguntou a uma criancinha que estava em Coimbra: «Gostastes de Coimbra?» Com jornalistas assim, para que precisamos de cataclismos naturais? Ganharmos foi, de alguma maneira, uma recompensa para todo este nosso infortúnio.

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