Léxico: salangana

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Andorinha?

      Há quem pense que a sopa de ninho de andorinha dos restaurantes chineses é só um nome, como bacalhau à Brás ou amêijoas à Bulhão Pato. A andorinha, ave tão simpática, estaria ali apenas para atrair os clientes. Há quem, por outro lado, à simples evocação do nome pense logo em canja de galinha ou de pombo. Bem, na verdade não é exactamente de uma andorinha que se trata, mas da salangana (Collocalia esculenta), palavra que provém do malaio. Quanto ao conteúdo — desiludam-se os poucos portugueses que ainda não foram a um restaurante chinês —, é debalde que se procurará naquele caldo espesso uma coxa rotunda ou o peito carnudo da referida ave. O que nós comemos é mesmo o ninho, isto é, uma amálgama de algas, que serve para construir o ninho, normalmente em zonas alcantiladas na costa, com a saliva da salangana. Não é uma maravilha? Os devoradores de caracóis e caracoletas que se abstenham de comentários.

Léxico de época

Estas palavras que nos couberam…

Na recensão crítica do romance Camilo Broca, de Mário Cláudio, escreve Eduardo Pitta: «Do mesmo passo, certo pendor [de Mário Cláudio] para o léxico “de época” (quantas vezes actual, simplesmente omisso do português corrente pela cada vez maior rarefacção da fala e da literatura) empresta adequada tonalidade à intriga» (Mil Folhas/Público, 10.06.2006, p. 5). O melhor de tudo — e apenas surpreendente na medida em que os críticos nos habituaram a esperar outra coisa — é que o léxico do próprio crítico é rico, multiforme, adequado ao que pretende descrever, e a própria escrita é clara. Mesmo quando tem de usar um termo técnico, Eduardo Pitta é pedagógico: «[…] controlo da narrativa autodiegética, aquela em que o narrador se coloca num tempo ulterior ao da história que conta […]». Alguns exemplos de vocábulos e locuções usados pelo crítico, que também é escritor e co-autor de um blogue: inconcluso, «defensores estrénuos», querela, «autor consumado», avoengos, «de viés», interstícios, estúrdia, corrécio, truculência, lampejo, etc. Palavras, algumas, que já estamos desacostumados de ler na nossa imprensa. Um exemplo a seguir pelos críticos.

Português antigo

A língua à mesa

      Nessa altura eu não media 1,81, como agora. Ela sim, era a mais alta da turma; fazia, parecia-me então, duas de mim. Mas tinha um problema notório: até à 2.ª classe, foi incapaz, quer sob o efeito de blandícias quer sob a ameaça de sevícias, de pronunciar a palavra «mesa». Só muito depois é que eu soube que até ao século XVI o povo nasalava a palavra: mensa. Tal como ela. Nunca mais tive notícias da Amélia, mas quem sabe se não é agora professora de Linguística?

Tradução

Mais equívocos

      Sempre houve e sempre haverá erros de tradução. Recuemos um pouco. O uso do vocábulo «testamento» para designar o Antigo e o Novo Testamentos provém de um erro monumental dos tradutores latinos, que traduziram por testamentum o grego diatheké, que na realidade significa «convénio», acordo», «vontade». Refere-se ao antigo e ao novo «convénios» de Deus com os homens e não a um qualquer testamento. Quantos equívocos destes não farão parte da nossa cultura? Quem se importa com isso?

Maçã: fonética e tradução

Una manzana en La Gran Manzana

      O vocábulo português «maçã» e o espanhol «manzana» provêm do mesmo étimo latino: mattiana, que era inicialmente um adjectivo. Na passagem do latim para o português, o grupo -ci- ou -ti- transformou-se ora em z ora em ç, e mesmo em -ch-, quando o -ti- é precedido de s, pelo que tivemos primeiro, no português arcaico, o vocábulo mançãa. Para infelicidade dos tradutores portugueses, porém, o espanhol «manzana» é polissémico, e não é raro ver a palavra, usada na sua acepção de «quarteirão» («Espacio urbano, edificado o destinado a la edificación, generalmente cuadrangular, delimitado por calles por todos sus lados.»), traduzida como maçã. O que dá que pensar: então o contexto não ajuda a perceber que não se trata do fruto? A ignorância tem razões que a própria razão desconhece.

Terras entre rios

Como um rio

      Por vezes, à região entre Douro e Minho dá-se o nome de interamnense, do latim «entre rios». A História mostra-nos a importância de outras zonas entre rios, como é o caso, mais conhecido, da fertilíssima Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates. Menos conhecido é o caso da região do Doab (do persa do (dois) e ab (rios), «terra entre dois rios»), na Índia. O termo «doab» é usado para descrever a planície aluvial entre dois rios convergentes, e mais especificamente a zona entre os rios Ganges e Yamuna, em Uttar Pradesh. Ainda no subcontinente indiano (e não esqueçamos que foi o rio Indo a dar nome ao país), temos o Punjab (ou Punjabe, como prefiro e forma para a qual há muitas abonações), etimologicamente «terra dos cinco (punj) rios (ab)».


Tradução

Tiro na água

      Tratava-se de uma tradução do espanhol. A locução, recorrente, «animales de tiro» julgou o tradutor adequado vertê-la como «animais de arrasto». Talvez não fosse demasiado exigir do tradutor que se esforçasse para achar algo como «animais de tracção», isto na falta de cultura e de dicionário da língua portuguesa. Na verdade, aqui não há qualquer falso cognato: «animais de tiro» pode e deve ser usado com o mesmo significado.


Taipa e adobe

Imagem: http://centros.edu.aytolacoruna.es/
Confusões ibéricas

      Num texto, alguém traduziu o espanhol tapia por adobe. Ora, a verdade é que adobe é uma coisa e taipa, outra, diferente. Ambas técnicas de construção de terra, até à década de 1950, a taipa era sobretudo usada no Sul. Parede feita de barro amassado e calcado com um pisão ou pilão, em geral entre enxaiméis atravessados por fasquias ou entre dois tabuões, como se fosse uma cofragem. Na freguesia de Lanheses, concelho de Viana do Castelo, esta técnica é designada por tapia, talvez por influência da Galiza, pois é também esta a palavra usada em galego. O étimo é o árabe tabíya. Em francês diz-se pisé ou pisé de terre. Em inglês, rammed-earth. No Brasil, para onde levámos esta técnica de construção, é designada por taipa de pilão. No adobe, palavra com étimo igualmente árabe, por sua vez, utilizam-se tijolos cozidos ao sol, às vezes acrescidos de palha ou erva, para o tornar mais resistente, e pedra da região. A pedra mais miúda, para preencher os vãos entre as maiores, designa-se por rípio. Na imagem, vê-se uma parede espanhola de taipa.

Pisé, n. m. (1562; du mot lyonnais piser, « broyer », xvie; lat. pinsare). Maçonnerie faite de terre argileuse, délayée avec de cailloux, de la paille, et comprimée (in Petit Robert).

Rammed earth
is a method of wall construction using moistened subsoil that is dynamically compacted inside removable formwork. It is essentially a precisely controlled mixture of gravel, sand, silt and clay, sometimes with sometimes with added lime, sugar paste, magnesium chloride (which is the mineral rich liquid left over when sea salt is extracted from sea water) vegetable oil, or chemical admixtures such as cement. When dynamically compacted this material yields a monolithic wall that is dense, hard, and stone-like.


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