Léxico: «flange»

Imagem tirada daqui
Engenheiro Alicate

      Uma das bombas do poço da cave avariou. Veio um técnico, num fato-macaco imaculado. Não é só a bomba que está avariada, avisa-me. Está a ver ali aquele esguicho, no tubo da esquerda? Precisa também de uma «falange». Com o Primo de Rivera morto, pensei, onde diabo vamos nós buscar uma «falange»? Ou, pior ainda, será que é uma falange dos dedos? Vão-se os anéis e fiquem os dedos, lá diz o povo. E o povo é sábio, dizem os intelectuais.
      Afinal, a coisa não era tão grave nem cruenta: era apenas uma flange, como a da imagem, um aro desbordante de tubo, rebordo, roda, cilindro, etc. Acessório metálico em forma de coroa circular ou oval, cuja abertura se adapta nas extremidades dos tubos.
      Incompetência, só linguística: tecnicamente o homem era competente e nem sujou muito o fato-macaco.
 


Feminino e masculino

Tamanhos

      Recentemente, dizia a uma pessoa que, em regra, nos pares de palavras portuguesas como saco/saca, pipo/pipa, bolso/bolsa, cesto/cesta, janelo/janela e outras semelhantes o feminino designava um objecto maior. Talvez por ser mulher, a minha interlocutora pensou que eu estivesse a brincar. Mas não estava: é mesmo assim. E isto faz-me lembrar o texto que corre na Internet, e que me fizeram chegar, sobre o «machismo» linguístico: vagabundo e vagabunda; touro e vaca; aventureiro e aventureira; menino de rua e menina de rua; homem da vida e mulher da vida; puto e… Bem, já sabem. Nestas oposições, o masculino, referido ao homem, designa sempre realidades positivas, ao passo que o feminino remete sempre para comportamentos censuráveis.

Topónimo: Devesa

Defesas

      De passagem por Portalegre, vejo que um dos monumentos é a Porta da Devesa. O nome, aliás, repete-se pelo País. Ora tentem lá adivinhar donde vem aquele «Devesa»… Já aqui abordei, a propósito do vocábulo «ourives», o fenómeno fonético que consiste na passagem das fricativas surdas a sonoras. É o que acontece com «devesa». O étimo é o latino defensa-, e o mais provável é que, ou por influência culta ou por importação do romanço (ou romance) moçarábico-meridional, como sugere Leite de Vasconcelos, tenhamos passado a ter também «defesa».


Léxico: amnésia anterógrada

Imagem: http://www.h33.dk/
Memórias

      Há poucas semanas, a mãe de uma amiga minha desmaiou subitamente. Transportada para um hospital, quando voltou a si não sabia onde estava, o que era natural, nem o que tinha acontecido. Com receio de problemas mais graves, a filha fazia-lhe perguntas sobre factos da vida dela. A memória parecia estar em perfeitas condições. Eis que, a determinada altura, perguntou à filha que dia era. A filha disse-lhe. Passados uns minutos de uma conversa que se revelara coerente, eis que voltou a perguntar onde estava, porquê e que dia era. Informada, a conversa prosseguiu normalmente — até que voltou a fazer a mesma pergunta: onde estou, porquê e que dia é? É o que em medicina se designa por amnésia anterógrada, que é uma inibição dos mecanismos de consolidação da memória recente.

Léxico: acaburro

Imagem: http://www.cm-vinhais.pt/freguesias/freg_nunes.html
Para ser mais preciso…

      Amanhã, os produtores de cereja de Nunes e Romariz, no sopé da serra de Nogueira, no concelho de Vinhais, vão até Bragança acaburro, numa recriação da Rota da Cereja, como se fazia antigamente. Sim, porque se os animais são asininos, como o competente repórter da Antena 1 salientou, não vão a cavalo. Estou a brincar.

Fonética: ourives

Ourives e pratives
 
      Para um leigo, o vocábulo «ourives» parece ter origem árabe, não é? Mas não: vem do latim «aurifice-». A primeira alteração fonética ocorrida, e que é comum na passagem do latim para o português, foi a fricativa surda (f) passar a sonora (v), e depois o c converter-se em z, com queda do e final, o que deu ourivez. E assim se escreveu durante muito tempo, até que a ortografia oficial instituiu o actual «ourives». Mais tarde, entrou na língua o culto «aurífice» (a par de aurificia, aurificina, aurifício, etc.). Alguns dicionários registam a locução «ourives de prata», no que ficaríamos em desvantagem, poderia parecer, em relação ao espanhol, que tem o «platero». Contudo, a nossa língua regista também o vocábulo «pratives», que há poucas semanas sugeri a alguém que usasse numa tradução. Se temos as palavras, para quê tê-las a ganhar pó e caruncho nos vetustos dicionários?


Léxico: faloa

Imagem: http://pr.indymedia.org/
Vai falando

      A criatividade no campo linguístico é espantosa. José Pedro Machado registou no concelho da Maia o vocábulo «faloa» para designar o instrumento de latão, em feitio de corneta, para se falar por ele. Claro que foi formado a partir do verbo falar, nada mais simples.

Género e sexo

O que se diz

      Amélia Pais escreveu-me: «Amigo: oiço sistematicamente falar de igualdade de géneros (homem-mulher) quando se discute a lei de paridade. Ora, parece-me que o que está em causa é a igualdade de sexos ou a não discriminação de sexos... Ainda agora ouvi Manuel Alegre falar de igualdade de géneros... Que me diz?» Pois digo que devíamos deixar os géneros para a gramática e para a mercearia. Sempre se disse e escreveu «igualdade entre homem e mulher», para quê complicar agora? Ainda ontem li no jornal Público: «“Como é que um Presidente há seis meses não tinha nada a dizer [sobre questões de género] e agora tem uma doutrina inteira?”» («BE acusa Cavaco de insultar as mulheres», 8.06.2006, p. 9). Repare que o acrescento parentético é da autoria do jornalista. Que também há-de ser um ser humano, bem entendido, e como tal permeável aos modos de dizer da sociedade em que se insere — mas devia policiar mais a escrita. O sermo vulgaris para a plebe e os chavões políticos para os políticos.


Arquivo do blogue