Figura de retórica: paralipse

Não dizer dizendo

     Uma vizinha minha (não, não é a do «estendedal») usa, inconscientemente, uma figura de retórica de magnífico efeito, que é a paralipse. Esta figura consiste em fingir-se querer omitir o que todavia se vai dizendo. Como fala pelos cotovelos, diz-nos amiúde (isto não é um plural majestático: é, mais precisamente, no sentido de dizer a todos os presentes) «não querendo interromper, mas já o fiz…», o que irrita um pouco toda a gente. Nem quero falar, porque é mais privado, da mania que esta senhora tem de se pretender colega de faculdade de vários ministros, de gerações muito distantes entre si… Viram? Comecei por escrever «nem quero falar», mas falei: isto é uma paralipse.
      Também referida nos antigos manuais de retórica como paraleipsis, paralepsis, preterition e occupatio, a palavra chegou-nos através do latim paralipsis, mas o étimo é grego, de para, «lado», e leipein, «deixar». Entre nós é também conhecida como preterição.

Elemento pseudo-

Erros populares

      Ainda a propósito do vocábulo «jacobino», no site do CDS-PP fui encontrar a transcrição do que o deputado Nuno Melo afirmou na Assembleia da República sobre a proposta de alteração socialista do protocolo de Estado: «É um diploma que resulta de um impulso socialista nascido do pseudo laicismo jacobino.» Ora, como quase toda a gente sabe, unem-se por hífen os compostos formados com os elementos de origem grega auto, neo, proto e pseudo, quando o segundo elemento tem vida à parte e começa por vogal, h, r ou s. Logo, pseudo-aleatório, pseudo-epígrafe, pseudo-randómico, pseudo-sábio; contrario sensu: pseudolaicismo.

Léxico: «engástrio»

Imagem: http://easyweb.easynet.co.uk/
Teratologia

      Apesar de todos padecermos mais ou menos de dismorfofobia, certo é que também nos atrai o disforme, o anormal, o diferente. Há dias, um consulente do Ciberdúvidas quis saber «o termo linguístico correcto da ausência de pernas e braços ou/e da ausência de membros inferiores e superiores», que não conseguia encontrar no dicionário. Logo me lembrei de ter lido, há poucos anos, a notícia de uma mulher chinesa, com cerca de 40 anos, que na sequência de uma consulta médica, por suspeitar de gravidez ou de algum padecimento gástrico, foi fazer uma ecografia. Para espanto dela, e talvez mesmo horror — e êxtase do médico, que via assim concretizado o que estudara sobre teratologia (teratos, monstro; logos, estudo) nos manuais —, soube então que tinha dentro de si o seu irmão gémeo! É o que se designa por engástrio: monstro duplo em que um dos fetos está contido no abdómen do outro.
      A Antiguidade clássica transformou alguns destes seres em personagens fantásticas: Argos, Cérbero, Quimera, Equidna, Górgonas, Hidra de Lerna, Minotauro, Polifemo, Sereias, etc. Por um infausto acaso, a nossa realidade é mais pífia: de vez em quando, surge (surgia, melhor) a notícia de ter nascido no Entroncamento uma cabra com sete pernas ou um gato com três caudas.

Elementos cis- e trans-

Aquém e além, outra vez

cisalpino → transalpino
cisandino → transandino
cisatlântico → transatlântico
cisdanubiano → transdanubiano
cisgangético → transgangético
cisjordano → transjordano
cisjurano → transjurano
cispadano → transpadano
cispirenaico → transpirenaico
cisplatino → transplatino
cisrenano → transrenano
cistagano → transtagano
...

Ortografia: Pirenéus

Aquém e além

      Embora este erro seja relativamente comum na imprensa, o exemplo que dou chegou-me por outra via. «Já só lhe faltava reconquistar o condado da Sardenha e as terras catalãs de além-Pirinéus: o Rossilhão.» A grafia correcta deste topónimo é Pirenéus. Já vi professores (o que é que eu não vi?) errarem a grafia deste vocábulo. Como também já vi alunos acertarem na sua grafia. O adjectivo correspondente é transpirenaico: que fica situado para além dos Pirenéus.│Que atravessa os Pirenéus. 
Que se opõe ao adjectivo cispirenaico: que fica aquém dos Pirenéus.

Verbo haver

Cães e gatos

      Várias vozes lamentam que tenha sido o 24 Horas a adquirir os direitos de publicação da tira cómica Mutts, de Patrick McDonnell, considerada uma das melhores da actualidade. Apesar de também eu lamentar, decerto que não é pelos mesmos motivos. Recentemente, podia ler-se num dos quadradinhos: «Embora tenham havido suspeitas de abuso de esteróides.»
      Já aqui dei conta por duas vezes dos erros ortográficos no Calvin & Hobbes, publicado no Público (1). A minha argumentação é a mesma de sempre: tendo em conta que as tiras poderão ser o único motivo de interesse num jornal para as crianças até certa idade (2), que péssimo serviço estes jornais estão a prestar.
      O verbo haver é impessoal quando exprime existência e vem acompanhado dos auxiliares ir, dever, poder, etc.: «Embora tenha havido suspeitas de abuso de esteróides.»


(1) Na edição de 4.5.2006, podia ler-se na tira do Calvin & Hobbes: «Posso ver o filme “A Jovem Raínha Assassina” na TV?»

(2) Na Inglaterra surgiu, no início deste mês, um semanário, o First News, com 24 páginas, para crianças dos 9 aos 12 anos. Custa uma libra e a tiragem é de 300 mil exemplares.

Vírgula com sujeito posposto

Virgulação duvidosa


      Uma leitora pergunta-me se o sujeito posposto, nas vozes activa e passiva, deve ser antecedido de vírgula, e junta dois exemplos: «São três [,] os exemplos que...» «É estabelecido [,] o regime que...» Para os exemplos que dá, a resposta é não. Como sabe, o sujeito imediatamente a seguir ao verbo é a segunda posição natural deste sintagma (a ordem canónica, relembro, é SVO, isto é, sujeito-verbo-objecto/complemento), pelo que não admite uma vírgula a separá-los. Apenas nos casos de deslocações e intercalações muito mais radicais — interposição de vocativo, complemento directo, predicativo do sujeito, adjuntos adverbiais deslocados, etc. — é necessária a vírgula. Alguns exemplos: «Tem piada, isso que me dizes: eu também reparei nesses tiques de ajeitar o casaco de Manuel Maria Carrilho.» «Desabafa Eduardo Prado Coelho, colunista habitual da nossa imprensa, que os jornalistas escrevem muitas vezes com os pés.» «Grande treinador, o Mourinho!»

Léxico: caparão

Imagem: http://stanislavsfalconry.com/hoods.html
Altos voos

      Um leitor pergunta-me o nome da carapuça ou capuz de couro que se costuma pôr, em altanaria (falcoaria ou cetraria), nos falcões, açores e noutras aves semelhantes para permanecerem quietas. Quando vejo uma ave com esta carapuça, lembro-me sempre de um carrasco ou de Hannibal Lecter. Esse nome é caparão. As correias do caparão, que se podem ver na imagem, denominam-se cerradouros.

Em espanhol: caperuza (ou capirón, termo antigo)
Em francês: chaperon
Em italiano: cappuccio
Em inglês: hood
Em alemão: Haube

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