Etimologia: tablóide


Para o jornalista JMS
Tablóide

Esta palavra designa um formato de jornal surgido em meados do século XX, no qual cada página mede aproximadamente metade do tamanho de um jornal convencional, as notícias costumam ser tratadas com menor extensão e o número de ilustrações costuma ser maior que o dos jornais de formato tradicional. Nas palavras de Mário Mesquita a propósito dos 30 anos do jornal espanhol El País, que considera «o primeiro “tablóide” de referência no espaço europeu», o termo remete para «um certo tipo de jornal designado por popular-sensacionalista». Contudo, há tablóides e tablóides. O semanário Sol, dirigido por José António Saraiva, terá um formato tablóide.
O nome deste formato provém do inglês tabloid, pois que foi em Londres onde se desenvolveram os primeiros jornais desse tipo, mas a origem dessa palavra é um pouco mais antiga. Em 1884, o laboratório farmacêutico inglês Burroughs Wellcome & Co., actualmente fundido com a GlaxoSmithKline, registou a patente da palavra tabloid para um formato de medicamentos condensados, a partir da palavra francesa tablette, diminutivo de table (mesa), que se usava como nome de uma peça plana de lousa ou uma tábua de mármore que era usada antigamente para escrever. De facto, foi o americano Henry Wellcome (1853-1936), sócio de Burroughs, a inventar a palavra.
Por volta do século XVI, a palavra tablette já tinha sido usada em francês como nome de pequenas peças de medicamentos, sabão ou alimentos, com a ideia de que se tratava de doses reduzidas de qualquer das três coisas.
No começo do século XX, já se falava, em inglês, de tabloid journalism para designar inicialmente não um formato, mas a ideia de publicar notícias em versões condensadas, algo como «jornalismo em pastilhas».

Dicionário da Academia:
tablóide adj. m. e f. (Do ingl. tabloid). 1. Que tem a forma de uma pastilha ou comprimido. 2. Diz-se da publicação que tem um formato pequeno.

tablóide s. m. (do ingl. tabloid). 1. Comprimido; pastilha. 2. Publicação com um formato pequeno.

Petit Robert:
tabloïd ou tabloïde adj. et n. m. (mil. xxe; mot angl. [nom déposé, 1884]). Anglicisme. Pharm. (Rare). V. Comprimé. 2 Américanisme. Quotidien de demi-format. — Par ext. Périodique de petit format. En appos. Format tabloïd.

Webster’s Comprehensive Dictionary:
tabloid n. A newspaper, one half the size of an ordinary newspaper, in which the news is presented by means of pictures and concise reporting. — adj. 1 Compact; concise; condensed. 2 Sensational: tabloid journalism.

Tabloid n. Proprietary name for any of various medical preparations and drugs in concentrated or condensed tablet form.

Diccionario de la Lengua Española (RAE):
tabloide. (Del ingl. tabloid). m. Am. Periódico de dimensiones menores que las ordinarias, con fotograbados informativos.

Canterbury ou Cantuária?

Vejamos

«Archbishop of Canterbury», pergunta-me o leitor João Lopes, «pode traduzir-se por “arcebispo de Cantuária”?» Claro que pode — e deve. (Espero que a dúvida não seja sobre a tradução de archbishop…) Pese embora o riso de alguns, as boas tradições devem ser mantidas, e esta de continuar a usar topónimos estrangeiros aportuguesados é uma delas. Claro que devemos conformar-nos minimamente com a opinião dominante, sem descurarmos o que julgamos o bom gosto. Ninguém, que eu conheça, usa o proposto «Oxónia» em vez de Oxford, ou «Lípsia» em vez de Leipzig. Afinal, talvez se perceba melhor esta perspectiva se avaliarmos que os Ingleses não dizem nem escrevem «Lisboa» e «Porto», por exemplo, mas «Lisbon» e «Oporto». Ou seja, adoptam formas próprias de topónimos estrangeiros.

Plural das siglas, outra vez

Opa!

Pior do que ter um critério errado, é não ter critério nenhum. E as coisas nem sempre se equivalem. Vejam-se estes exemplos retirados da revista Visão (n.º 683, 6 a 12.4.2006):

«Louçã quer impedir que fisco financie OPA’s» (p. 120).
«As OPAs e a economia» (p. 154).
«Esse é já um efeito positivo das OPA» (p. 154).

Afinal, em que ficamos? Com s ou sem s, com apóstrofo ou sem apóstrofo? Todavia, na página 32 da mesma edição pode ler-se:
«Os americanos largaram os DVD domésticos e os ecrãs de plasma e correram aos multiplexes mais próximos, para verem A Idade do Gelo 2: Descongelados, cuja estreia mundial ocorreu no dia 30.»

Ortografia: «gurcas»

O que é nacional é bom


      A regra deverá ser a de só usar um termo estrangeiro se não tivermos um equivalente ou aportuguesado. Como a maioria das regras, tem excepções. Leia-se este excerto de um artigo publicado no jornal Público: «Katmandu, a capital, foi o destino mítico dos hippies dos anos 1960-70. Foi definido “como uma terra de paz em que todas as pedras e paisagens têm uma carga sagrada”. Tem o Monte Evereste. É o país dos gurkhas, tropa de elite britânica» («De onde vem e para onde vai o Nepal?», 26.4.2006, p. 15.)
Ora, a verdade é que a forma «gurcas» está dicionarizada e, mais importante ainda, na última semana li-a duas vezes. Numa só semana.

Gurcas, s.m. pl. Etnog. Tribos montanhesas das vertentes meridionais do Himalaia, junto ao Nepal.
In Grande Dicionário da Língua Portuguesa

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Poluição

      Recentemente, alguém me recordava os slogans recusados de Alexandre O’Neill, entre os quais o famoso «Passe um Verão desafogado», preterido a favor de «Há mar e mar, há ir e voltar». Hoje em dia, alguns dos nossos publicitários mal sabem escrever. Nem quero falar dos erros de lógica (o famoso «testemunho» da Danone, de que fiz um post, motivou mesmo uma carta da Danone Portugal, assinada pelo Senior Brand Manager Actimel e pela directora do Departamento de Qualidade, em que me agradecem as minhas «observações pertinentes e informadas», mas já tinham despendido 5,5 milhões de euros e não seria eu a estragar a festa), das puras tontices, mas apenas dos erros ortográficos. Veja-se este anúncio, espalhado por Portugal, da margarina Planta. Por vezes, ouve-se falar da responsabilidade social das empresas, mas nunca ouvimos dizer nada sobre a poluição visual que produzem nas cidades e nas vilas e o que se propõem fazer para lhe pôr cobro. Não posso querer, é claro, que qualquer empresa aspire a ser um membro de impacto zero na sociedade, porque esse é o oposto dos seus objectivos, mas parece exigível, no mínimo, algum respeito pela língua, património de todos.

Semântica: isolado

Irmãs, mas pouco

Num site espanhol que se dedica à língua, li um texto em que se punha em dúvida a vernaculidade do uso do adjectivo «isolado» para qualificar as povoações que estão afastadas. «A mí», diz o autor do blogue, «me sonó inmediatamente a anglicismo (isolated = aislado) pero acudí al diccionario por si acaso tenía un uso conocido en castellano, aunque fuese como pedante cultismo. Y no lo encontré.» Em português, pelo contrário, este uso está sobejamente registado. E até os dicionários o referem expressamente. No respectivo verbete, o Dicionário Houaiss regista: «uma casa isolada», «um lugar isolado» e «um vilarejo isolado». O Dicionário da Academia, desta vez, não me desamparou, dando exemplos semelhantes aos do Houaiss.

Etimologia: aleivosia

Toma lá

A palavra «aleivosia», tão da predilecção de escritores oitocentistas, provém do árabe hispânico al’áyb, e este do árabe clássico áyb, que significa «defeito, pecha ou nota de infâmia». Vou socorrer-me de Eça de Queirós, na magnífica carta a Camilo Castelo Branco (que nunca lhe chegou a enviar), para explicar melhor o seu significado:

«Aleivosia é um termo formidável e sombrio que, se me não engana o vetusto e único dicionário que me ampara nesta dura labutação do estilo, significa — “maldade cometida traiçoeiramente com mostras de amizade, insídia, perfídia, maquinação contra a vida e reputação de alguém, etc.” Tudo isto é pavoroso. Mas eu suponho que, sob essas vagas palavras de implicação e aleivosia, V. Ex.ª quer muito simplesmente queixar-se de que eu e os meus amigos o não consideramos um escritor tão ilustre, com um tão alto lugar nas letras portuguesas como o costumam considerar os amigos de V. Ex.ª Ora aqui V. Ex.ª se ilude singularmente.»

Léxico: «quiçá»

Samicas


      Não fico apopléctico nem nada que se pareça, mas não gosto nem um pouco da palavra «quiçá» (do latim quid sapit, «quem sabe»). Sempre que posso, e às vezes posso, altero para «talvez», e pessoalmente nunca a usei. Eu sei, eu sei: estou a contribuir para a morte de uma palavra, logo eu, o divulgador de palavras raras e em desuso. Penitencio-me, mas não vejo solução de compromisso possível. A minha intervenção, todavia, não é nem podia ser cega: ainda há dias alguém traduziu o inglês antigo mayhap por «quiçá» e eu não cortei, como não podia deixar de ser. Pelo contrário, achei que era a escolha mais apropriada no contexto. Mas estou sempre a temer que alguém use «samicas». Sei lá, há gente tão arreigada ao passado…

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