Tradução: «associé»

Associados e sócios

      «Quando começou a trabalhar como advogada, depois de se ter formado na Universidade de Paris, a situação não melhorou: “Ninguém queria ter uma associada chamada Le Pen”, escreveu na autobiografia que lançou em 2006, À Contre Flots (Contra a Corrente)» («Herdeira da extrema-direita francesa tem a chave do Eliseu na mão», Catarina Reis da Fonseca e Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 27.04.2012, p. 25).
      Eu sei que se diz assim, mas faz algum sentido distinguir, numa sociedade de advocacia, entre sócios e associados? Em França, tanto quanto pude ver, os cabinets d’advocats têm apenas associés, que eu não hesitaria em traduzir por «sócios». Voilà.
[Texto 1438]
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Léxico: «desdiabolizar»

Mas registam «diabolizar»

      «“O mais importante é sair do euro”, considera Tourteau Gerome, que apoia uma das ideias mais polémicas – e que mais credibilidade retira à candidatura de Marine Le Pen, que tentou desdiabolizar o partido, investindo no programa económico. “É um veneno que vai acabar por nos matar”» («Marine, a redentora», Clara Barata, Público, 19.04.2012, p. 23).
      Alguns dicionários ainda registam «desdemonizar», mas não chegam a «desdiabolizar».

[Texto 1399]
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De envergonhar

Não são conjecturas, não

      «Como queremos que funcione o sistema universitário em 2020 numa conjectura em mudança?», perguntam os organizadores do 1.º Curso de Transição Universitária em Portugal, que decorrerá na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no Campo Grande, nos dias 28 e 29 de Abril e terá como «facilitadores» Amandine Gameiro, André Vizinho e Gil Penha Lopes. O curso começa com as «boas vindas» e acaba, como se podia ver no programa, com uma festa. E assim vai o ensino em Portugal.

[Texto 1398]
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Regência de «namorar»

Mai’nada

      «O verbo namorar é transitivo: Manuel namora Maria. [...] Na linguagem de Lisboa, porém, sobretudo na gente de pouca cultura, é vulgar ouvir-se dizer: “Fulano namora com Fulana”, “Fulana namora com Fulano”. Por analogia com expressões como ter ou andar de amores com» (Estudos de Filologia Portuguesa, J. Leite de Vasconcelos. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1961, pp. 162-63).
      Agora os gramátegos defendem as duas construções. Assim, ninguém erra. Mais um contributo de peso da capital para todo o País. E antigas colónias.
[Texto 1397]
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Pontuação

Mas não

      «O facto de o AO não concitar qualquer consenso nem contribuir para unificar seja o que for, é razão suficiente para, no mínimo, se suspender a sua aplicação e fazer respeitar a Constituição (que protege explicitamente a qualidade do ensino e o uso da língua nacional) e a Lei de Bases do Património Cultural (pela qual a língua, “fundamento da soberania nacional, é um elemento essencial do património cultural português”)» («A CPLP e a consagração do desacordo ortográfico», António Emiliano, Público, 19.04.2012, p. 51).
      Uma vírgula a separar o sujeito do predicado? Está-se mesmo a ver...
[Texto 1396]
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«Sentir/lamentar»

Caçadas

      «Foi um gesto sem precedentes de um rei que nunca tinha sido tão criticado desde que, há 36 anos, assumiu o trono com a missão de unir Espanha. “Sinto muito. Errei e não voltará a acontecer”, disse Juan Carlos, ao deixar o hospital onde foi internado depois da queda sofrida quando caçava elefantes no Botswana» («Inédito mea culpa de Juan Carlos para travar “maior crise” da monarquia», Ana Fonseca Pereira, Público, 19.04.2012, p. 23).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista que é um sentido figurado, o que, apesar de desmentido por outros, é irrelevante. Neste contexto, com esta origem, eu não traduziria desta maneira, escusadamente próxima do original: «Lo siento mucho. Me he equivocado y no volverá a ocurrir.» E não seria melhor Botsuana?
[Texto 1395]
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Plural das siglas

Mais do que desaconselhável

      «No passado dia 30 de Março decorreu em Luanda a VII Reunião de Ministros da Educação [ME’s] da CPLP para, entre outros assuntos, discutirem a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 [AO]» («A CPLP e a consagração do desacordo ortográfico», António Emiliano, Público, 19.04.2012, p. 51).
      Sigla pluralizada? Alguns querem... Mas com apóstrofo, sinal de elisão, a elidir o quê? E os parênteses rectos?
[Texto 1394]
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«Valores-recorde»!

Só neste jornal

      «Pode uma campanha política ser mais do que uma marcha infrene de “paixões tristes”? Duvido. E em 2012, à beira do abismo, ainda mais. Um facto certo em França e por toda a Europa, no momento em que as sondagens prenunciam valores-recorde de abstenção, é a extraordinária incapacidade de uma imensa parcela do eleitorado se sentir representada no actual “jogo” político» («Paixões tristes», Pedro Lomba, Público, 19.04.2012, p. 52).
      Isto, se não for, e quase de certeza não é, alteração feita pela revisão, desaprendeu Pedro Lomba com a leitura do mesmíssimo Público, único jornal que escreve desta forma.
[Texto 1393]
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Desgraçadíssimo verbo «haver»

Pois parece mentira

      No noticiário das 5 da tarde da Antena 1, Rui Cardoso, recém-eleito presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público: «Podem haver brilhantes juristas, quer em termos de qualidade técnico-científica, quer em termos de probidade, de integridade das pessoas que são nomeadas, à prova de qualquer suspeita, à prova de tudo, de todo o juízo crítico de qualquer português.» Já não pode garantir — como fica provadíssimo — o mesmo em relação ao conhecimento que têm da gramática.

[Texto 1392]
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«De requitó»

Reincidente

      «“Virá a ambulância, não virá?”, perguntou-se. “Que é que eu terei para ir assim de requitó para o hospital?”» (Tubarões e Peixe Miúdo, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Editorial Caminho, 1986, p. 121).
      Já conhecia a expressão... de outra obra de Alexandre Pinheiro Torres, O Adeus às Virgens. Alguém já a leu noutra obra?

[Texto 1391]
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«Meter/pôr/colocar»

Derrancaram o bom povo

      Dia Internacional dos Monumentos e Sítios. O repórter Virgílio Cavaco, da Antena 1, foi em demanda da Capela de Nossa Senhora do Campo, lá no cabeço do Facho, Macedo de Cavaleiros. Pôde assim ouvir o bom povo, que já está todo atrapalhado, a julgar por esta senhora, habitante da aldeia de Lamas: «Falou-se portanto com o senhor presidente da câmara para meter o santuário, ou pôr, colocar, o santuário no roteiro turístico, porque sempre teria mais pessoas que visitavam isso.»
      Ah, e sabiam que em português antigo «macedo» era a terra boa para mançaneiras? Não, não foi o repórter que o disse. Mançaneiras não, carago, que é quase castelhano, manzaneras. Macieiras. No português arcaico, a palavra era mançã, semelhante, pois, ao castelhano manzana. Se hoje dizemos «maçã», é por dissimilação das nasais.
[Texto 1390]
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Léxico: «aiar»

Ai, ai

      «Povo sentimental, como é o Português, não admira que esteja sempre aos ais, do que até se fez o substantivo ai ai “lamento” e o verbo aiar, “dar ais”, arquivados no Diccionario Contemporaneo e no Novo Diccionario» (Estudos de Filologia Portuguesa, J. Leite de Vasconcelos. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1961, p. 184).
      «Quando chegou ao Ninho o chofer teve de o ajudar. Sacatrapo aiava desesperado, o que fez com que a Fagueiro e o Gurmesindo logo acorressem» (Tubarões e Peixe Miúdo, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Editorial Caminho, 1986, p. 103).
[Texto 1389]
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Desgraçado verbo «haver»

Haviam de ver

      Ontem foi Dia Mundial da Hemofilia. A Dra. Alice Tavares, imuno-hemoterapeuta, foi ao Bom Dia Portugal explicar este distúrbio hereditário que dificulta a coagulação do sangue. O jornalista quis saber se se deve fazer prevenção. «Deve começar antes de haverem as hemartroses, portanto as hemorragias intra-articulares, porque são essas hemorragias de repetição que vão causar as alterações musculoesqueléticas graves e incapacitantes.»
      Não é nada raro ver os vocábulos «imuno-hemoterapia» e «imuno-hemoteraupeuta» incorrectamente escritos, como, por exemplo, na página da Escola Superior de Saúde Ribeiro Sanches, que publicita o Curso de Aperfeiçoamento em Imunhohemoterapia». Estavam a precisar mais de um Curso Básico de Ortografia. Nas páginas da Ordem dos Médicos, do Hospital de São José, do Hospital de Santa Maria, do Centro Hospitalar do Barlavento Algarvio e em muitas outras lê-se essa grossa calinada. «Falar é fácil porque não há palavra que não se deixe dizer», já sentenciava Sacatrapo. O pior é escrever.

[Texto 1388]
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Consoante muda

Uma nova política

      «Há uma nova esquerda», é o título da crónica, que se lê com gosto e proveito, do historiador e eurodeputado Rui Tavares. «Historiador e eurodeputado» é mesmo o que se lê agora no fim da crónica, já sem o ferrete «a pedido do autor, este artigo respeita as normas do Acordo Ortográfico». Podemos vislumbrar aqui uma nova atitude do Público?
[Texto 1387]
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Regência de «reverter»

Não percebi logo

      «A enóloga proprietária da marca Quinta de Remostias decidiu reverter um euro da venda de cada garrafa de vinho que produziu para a criação de uma bolsa de investigação que permita desenvolver novas formas de diagnóstico de doenças raras. Uma ideia invulgar e feliz para contribuir para o desenvolvimento da ciência. Portugal não está habituado a mecenato deste tipo e seria bom que outros seguissem Rola-Braz» («Ana Rola-Braz», Público, 18.04.2012, p. 48).
      Acho que estão a precisar de comprar um dicionário de regências verbais. Dá jeito tê-lo à mão. Em alternativa, estudarem um pouco mais.
[Texto 1386]
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Rabo sem cauda

Ah, senhora professora...

      «Que lhe exibisse a miséria das placas dentárias, vá, mas agora as podridões do rabistel?...» (Tubarões e Peixe Miúdo, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Editorial Caminho, 1986, p. 78).
      Mero pretexto para contar o que me contaram: uma professora de Português convenceu os alunos a consultarem um dicionário para verem que, como ela afirmava, «rabo» é apenas «cauda» e nada mais. Não significa, argumenta ela, «nádegas» ou «ânus». Ainda estou para ver que dicionário usaram que não registasse a sinonímia.
[Texto 1385]
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Da condestabresa à gerenta

Fazem companhia à «presidenta»

      Pois não, o título honorífico «condestável» não tem feminino, nem se está a ver como poderia tê-lo. Já a variante «condestabre» tem feminino: «condestabresa», como se lê, por exemplo, em Feliciano de Castilho. E «gerenta», já por aí viram?
      «Sim! Não sabia? Então vocês esfregam-se um no outro e você não sabia que ela era proprietária gerenta da oficina Ford de Cathays Street?» (Tubarões e Peixe Miúdo, Alexandre Pinheiro Torres. Lisboa: Editorial Caminho, 1986, p. 71).

[Texto 1384]
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O lugar do til

O leitor que decida

      «Costumamos soletrar á ó til: ão. Diz-se assim, e não, como se esperaria, à til ó, porque antigamente, por exemplo, no século XVII, se escrevia e não ão. Há professores primários que hoje ensinam a pronunciar á-til-ó» (Estudos de Filologia Portuguesa, J. Leite de Vasconcelos. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 1961, p. 157).
      Decerto já viram que os semianalfabetos e as crianças quando começam a aprender a escrever não o põem sobre o a nem sobre o o, mas estrategicamente entre os dois: o leitor que decida onde pertence!

[Texto 1383]
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«Implantação do Acordo Ortográfico»

Qualquer coisa assim

      «Fundamentos políticos, económicos, jurídicos. E linguísticos. A implantação do Acordo Ortográfico (AO) na totalidade da CPLP continua em discussão e os encontros de ministros da Educação e da Cultura em Luanda, há uma semana e meia, trouxeram à luz novos argumentos sobre os impasses na ratificação de Angola e Moçambique» («Angola e Moçambique querem gerir o seu tempo na ratificação do Acordo», Marta Lança, Público, 11.04.2012, p. 28).
      Alguns jornalistas ainda não sabem bem, tal é a complexidade da questão, se é «implantação», se «implementação». Eu sou mais adepto da terceira via. Em relação ao 5 de Outubro, também não sabem bem se é «implementação» ou «implantação».
[Texto 1350]
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Como se escreve nos jornais

É preciso paciência

      «Os solavancos colocam à prova a perícia dos condutores. E a centenas de metrosde [sic] distância a unidade móvel é imediatamente reconhecida por aqueles a quem vai prestar apoio devido às suas cores vivas» («Uma luta diária para exorcizar o apelo suicidário nos velhos de Odemira», Carlos Dias, Público, 1.04.2012, p. 32).
      «Colocam à prova»! Ainda se isso fosse o pior do artigo. Começa pelo título: «suicida» já não chega para as necessidades, tem de se recorrer a «suicidário». E a pontuação? E as gralhas? Fica uma amostra:

1. «O mais novo, Manuel E., dirige-se bem humorado à equipa médica, desta vez acompanhada pelos dois psiquiatras e eplso [sic] PÚBLICO, enquanto remenda um velho cinto de couro.»
2. «O único contacto que os dois irmãos mantêm com o exterior, faz-se por telemóvel.»
3. “Se desviamos um palmo já não temos”, informa o irmão mais velho Olímpio E..»
4. «Álvaro de Carvalho, tenta confortá-lo, mas o homem insiste: ”Tenho cá uma coisa dentro da cabeça que não me deixa dormir, nem comer. Tomo comprimidos mas dói sempre.”»
5. «Deixou de trabalhar para tomar conta do pai. Está preocupado, porque acabou a medicação e tem medo de uma recaída. Conceição Quintas, descansa-o.»
6. «“Atão senhor Manel como vai isso hoje?”, pergunta a enfermeira Mónica Raimundo, que faz a muda de pensos, mede a tensão e verifica a medicação.»
7. «Uma constante observada entre os idosos isolados, realça a coordenadora da UMS, é “a ausência de capacidade reivindicativa, habituados que foram a ter pouco”. A primeira surpresa surge “quando se lhes dizque [sic] têm os direitos de toda a gente”, mas “recusam-se a pedinchar, não querem vistos como coitadinhos, têm a sua dignidade”.»

[Texto 1299]
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«Se» apassivante (iii)

Boa pergunta

      «Os que defendem que o “se” é pronome indefinido e sujeito do verbo, raciocinam assim: o “on” francês é um pronome indefinido, sempre sujeito no singular e requer, portanto, o verbo no singular; ora o “se” português ocupa o lugar do “on” francês. Por conseguinte, o “se” português é também um pronome indefinido e sujeito do verbo no singular (vende-se casas, apanha-se urtigas, cata-se pulgas, etc.).
      Com franqueza! Os macacos me mordam se isto não é um argumento menos que primário! Se, por hipótese, e sem ponta de malícia, não existisse a caríssima Língua Francesa — que eu só ensinei trinta e nove anos! — mas houvesse a Língua Portuguesa tal como é, que haveríamos de chamar ao “se”?» (Nem Tanto Erro!, de Américo F. Alves. Edição do autor, Braga, 1993, pp. 85-86).

[Texto 1298]
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«Comemos e ingerimos»

Introduzir pela boca

      Jornalista Carla Trafaria no Bom Dia Portugal de ontem: «Assinala-se hoje o Dia Mundial da Nutrição. É uma data simbólica de sensibilização para uma alimentação saudável e equilibrada que garanta o bem-estar e a saúde. Tanto assim é que aquilo que comemos e ingerimos pode estar na origem de várias doenças, como a obesidade, a hipertensão arterial, o aumento nos níveis de glicose sanguínea e também o alto colesterol.»
      Já tínhamos visto, algures, esta confusão. «Comer» e «ingerir» são sinónimos. O que a jornalista queria dizer era «comemos e bebemos», mas também não era necessário. No contexto, bastava usar um dos verbos, e de preferência o segundo, de sentido mais genérico.

[Texto 1297]
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