Tradução do inglês

Escrever é cortar palavras

      Na última Puntycoma, Juan Luis Conde, a propósito da perda da sensibilidade no uso dos pronomes por influência da exposição à língua inglesa, aduz um exemplo interessante. Nos mapas urbanos com que os transeuntes topam nas ruas de Madrid (e de Lisboa, para o nosso caso), encontrarão uma localização marcada com um ponto vermelho (ou um círculo) e a legenda «Você está aqui». Conclui Juan Luis Conde: «De nuevo ese texto delata una erosión en la capacidad para percibir diferencias en la posición de las palabras, causada por seguidismo perruno de mapas urbanos originales en inglés, donde el pronombre precede inexcusablemente al verbo en las oraciones enunciativas. Pero, no, en castellano no es lo mismo “Usted está aquí” que “Está usted aquí”». Para o que nos interessa, a simples omissão do pronome resolvia a questão. Pior é a superabundância, nada consentânea com o génio da língua portuguesa, de pronomes possessivos nas traduções, numa cópia servil e impensada do inglês. Disso também se ocupa Juan Luis Conde e já foquei aqui no Assim Mesmo. Não é raro ter de eliminar centenas — leu bem, centenas — de pronomes possessivos nas traduções que revejo.

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9 comentários:

Anónimo disse...

Vossa Mercê, com maiúscula, sempre é melhor. Mas o primeiro anónimo decerto preferiria "Estás aqui".

Anónimo disse...

II — SEGUNDA REGRA
a)
“Outra liberdade nossa, de que nos querem a toda a força despojar e de que nós devemos forcejar por manter a todo custo, é a de omitirmos o sujeito, todas as vezes que ele não pode deixar de se entender. Assim o ‘eu’, o ‘nós’, o ‘tu’, o ‘vós’, o ‘ele’, o ‘eles’, o ‘ela’ e o ‘elas’, com que o pobre francês anda todo empecilhado, quási que não aparece na escrita de quem sabe o que é português.
“O francês diz: ‘je vins, je vis, je vainquis’; o português: ‘cheguei, vi, venci.’
“O francês: ‘’tu es un lache; tu as battu une femme; tu n’es pas digne de porter le nom d’homme’; o português: ‘covarde és; espancaste uma mulher; não mereces nome de homem.’
“O francês: ‘je lui ai dit que si elle voulait elle pouvait bien déjouer ce piège qu’elle m’avait tendu’; o português: ‘disse-lhe eu que, se ela quisesse, bem podia destramar o laço que me armara.’
“Com as supressões desta espécie encurta-se a notavelmente a escrita e sai logo muito mais elegante.
b)
“Os possessivos dos pronomes: ‘eu, tu, nós, vós, ele, ella, eles, elas’; inçam não menos e carcomem o francês e dele se tem pegado nojentamente ao português; evitem-se, pois, com igual cuidado e o mais que ser possa, os adjectivos: ‘meu, minha; meus, minhas; nosso, nossa; nossos, nossas; teu, tua; teus, tuas; vosso, vossa; vossos, vossas; seu, sua; seus, suas’; que será outra grande economia, elegância e correcção.
“O francês que diga: ‘ce que je sens dans mon coeur’; o português: ‘o que sinto no coração’; o francês: ‘nous avons dans notre âme des facultés admirables’; o português: ‘temos na alma admiráveis faculdades’; o francês: ‘tu a ton amis, ta femme, tes enfants’; o português: ‘tens o amigo, a mulher, os filhos’; o francês: ‘voulez-vous conserver votre repos, votre bonheur? conservez votre vertu’; o português: ‘quereis conservar descanso e ventura? conservai a virtude’, etc.
— Mont.

Paulo Araujo disse...

Obrigado pela aula, Montexto. Eu já sabia da significação de ‘você’ (a palavra, não o Senhor), em Portugal. Está no Houaiss, muito bem explicado. Só não sabia a que ponto ia a restrição. Aqui também um médico nunca chamaria seu paciente de ‘você’, ainda mais se este fosse mais idoso, ou fosse a primeira consulta. A diferença é que aqui se está perdendo a conotação, ‘de cima para baixo’ ou ‘de baixo para cima’ e se alguém considerar indevido ser chamado de ‘você’, sê-lo-á apenas pela invasão de privacidade, por uma intimidade que não foi dada, não por sentimento de hierarquização do termo. E quando se trata alguém por Sr. ou Sra, em vez de ‘você’, apenas se está fazendo, não por obrigação social, mas porque se pretende ser, voluntariamente, apenas respeitoso.
Não estou, com meu comentário, censurando o trato que, perdoe-me, vocês Portugueses dão ao termo, afinal são os donos da língua; estou apenas querendo entender, provocando estes comentários tão agradáveis, esclarecedores e educadores que nosso amigo comum, Helder, nos proporciona.
Talvez tenha sido mal acostumado, pois sempre tratei meus pais de ‘você’ e foram os dois seres a quem dediquei mais respeito. Serei, aqui, mais cuidadoso, doravante.

Helder Guégués disse...

A pedido de um leitor, substituí um comentário, o que coincidiu com a entrada de outros.

Helder Guégués disse...

Sempre que um comentário relevante sobre um texto mais antigo for publicado, darei conhecimento no Twitter. Bem sei que há outras formas de o fazer, mas não neste modelo do Blogger. Assim, Montexto acaba de enviar um comento ao texto «Enformar/informar».

Anónimo disse...

Parece que Paulo Araújo julga que sou eu o autor dos comentários anónimos sobre «você», a propósito do que enviei um, que ou se desencaminhou, ou não passou na joeira; mas os visíveis não são meus.
- Mont.

Venâncio disse...

Não falta, caro Paulo. Está aqui (é o quinto da minha lista):

Há o «você» filial. É comum no Norte, mas raríssimo no Sul.

Realmente, no Norte de Portugal é (pelo menos era) comum tratar o pai ou a mãe por «você». No Sul, donde eu sou, é quase pecaminoso.

Mas lembre-se de que se trata dum "você" de Portugal, que não tem sociolinguisticamente nada a ver com o do Brasil.

Anónimo disse...

Acredito.
Mas eu trato os meus.
E não disse que essas famílias são de mais respeito por os (pelo facto de, aproveitaria já um novíssimo para escrever) seus filhos tratarem os pais por senhor; disse que nas de mais respeito se costumava esse tratamento. Se era, ou também era, esse tratamento que lhes conferia esse, digamos, ar respeitável, já seria temerário afirmá-lo.
- Mont.

Anónimo disse...

Onde escrevi «Mas eu trato os meus», queria escrever «Nem eu os meus».
- Mont.

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