Sobre «botar» e arcaísmos
27.4.11
Muito me conta
No Portugal em Directo de ontem, na Antena 1, foi entrevistado o presidente de uma câmara municipal. Discurso normal, linguagem corrente, mas, de súbito, inesperado, sai um «botar». Regionalismo, claro, e não, como alguns crêem, arcaísmo. Isto mesmo afirmou F. V. Peixoto da Fonseca, mas acrescentou isto: «Só seria arcaísmo se se tivesse deixado por completo de usar a partir de 1500, mais ou menos.» Alguém sabe alguma coisa destas contas? Para mim, e decerto que para a maioria dos leitores, arcaísmos são palavras, formas ou expressões antigas, que deixaram entretanto de ser usadas. Podemos depois acrescentar que uns são arcaísmos lexicais e outros são sintácticos.
[Post 4729]
Actualização no mesmo dia
«Dizem que o português é o único idioma em que se botam as calças e se calçam as botas» (Os Pecados da Língua: Pequeno Repertório de Grandes Erros de Linguagem. 2.º Vol., Paulo Flávio e Paulo Sampaio. Porto Alegre: AGE, 6.ª ed., 2002, p. 40). No Brasil, é assim.
«Dizem que o português é o único idioma em que se botam as calças e se calçam as botas» (Os Pecados da Língua: Pequeno Repertório de Grandes Erros de Linguagem. 2.º Vol., Paulo Flávio e Paulo Sampaio. Porto Alegre: AGE, 6.ª ed., 2002, p. 40). No Brasil, é assim.
edit
17 comentários:
Nem arcaísmo nem regionalismo. Puro português da melhor cepa, usadíssimo pelo imperador da língua portuguesa, por muita e boa gente que eu conheci e conheço, e por este vosso criado.
- Montexto
Caso interessante, este.
Diria que é um regionalismo, isto porque a norte de Coimbra, e só aí, botar é sinónimo corrente de pôr ou deitar. Tem, pois, um estatuto que a sul nunca teve.
Verbo principal («Bota isso fora») ou auxiliar («Botou-se a estudar»), é um elemento do galego-português que nunca penetrou em terras meridionais.
Não é, pois, um arcaísmo. Vive onde sempre viveu.
«Usadíssimo pelo imperador da língua portuguesa»...
Ó Montexto, tenha piedade. Encontrei, em Vieira, 4 casos. Haverá mais um ou outro, mas é tudo.
Para mais, Vieira era um brasileiro. Não admira, pois não?
Portanto, a norte de Coimbra, terra onde se fez a língua, que se vai desfazendo para sul, «apud» José Leite de Figueiredo, «Lições de Filologia Portuguesa», região. Vieira, nado e extinto no séc. XVII, brasileiro, porventura regionalista. E em Vieira 4 exemplos e talvez mais um.
Muito edificado fico, e vou meditar seriamente nestes adminículos para uma compreensão actual da língua portuguesa e seus cultores máximos.
Vi a luz.
- Mont.
Cá no Brasil, também se usa "botar" a torto e a direito. No Rio Grande do Sul, onde moro, posso afirmar que é correntíssimo. Não saberia dizer se o é na mesma intensidade em todos os estados.
Jamais o tomaria por arcaísmo.
«Periúdo» pronunciado por «período» há-de ser evolução da língua a sul de Coimbra, verdadeiro centro do país em todos os sentidos, e mormente do idioma, que muito tem medrado desde que, comparado com ele, tudo o mais é mera região.
- Mont.
«Periúdo», «mediúcre», e há outro que não me vem agora. São invenções lisboetas. E isto há largos decénios. Ainda o juvenil Montexto não era nascido.
No Nordeste do Brasil não se põe, não se coloca; bota-se ou mete-se.
o Houaiss registra 32 acepções e onze locuções com 'botar'.
Um regionalismo.
- Mont.
Ainda ninguém se pronunciou sobre os séculos de pousio para que um vocábulo possa ser considerado arcaísmo. E em Portugal alguma vez se usou o termo bota-fora para designar o lançamento de um navio à água? Gosto da palavra.
Certo. E mais: o arcaísmo ou, pelo menos, alguns arcaísmos podem ressuscitar. E ainda mais: antes pecar com arcaísmo do que com um neologismo.
Cuido que ninguém ousa tachar este de arcaísmo; de «regionalismo», admite-se - durante os tais cinco minutos do velho Cândido.
- Mont.
Quanto aos séculos para se considerar um vocábulo arcaico, penso que a exigência de 500 anos seja um disparate sem fundamento.
E sobre a atualização do dia: muito bem lembrada essa singularidade. Assim o dizemos cá, sem vergonha nenhuma.
E o mesmo idioma em que se diz 'pois sim!' para negar, e 'pois não' para concordar.
Para a marcação lexicográfica 'arcaísmo' cada qual tem sua regra; para o Houaiss, "... classificaram-se de arcaísmos as palavras ou variantes usadas no português medieval até ao português camoniano (século XVI), quando o seu emprego se extinguiu dentro dese âmbito temporal." Faz ainda distinção para certos vocábulos como antigos, obsoletos e os da arqueologia verbal (ex.: daduco).
Estamos com o mesmo problema de ontem. Mas isto vai passar.
O que, de certeza, ajuda muito é a noção de «arcaizante». É bem mais elástica que a de «arcaísmo», ao permite caracterizar quaisquer palavras do antigamente... Julgo que, para alguém de 15 anos, uma palavra como disquete é arcaizante.
Venâncio
Olá, bom dia!!! Ao realizar uma pesquisa na internet, deparei-me com este blog que chamou minha atenção. Sou brasileira, moro na região Nordeste e amo, literalmente, a Língua Portuguesa. Na realidade, não saberia explicar a razão pela qual nutro esse sentimento ao longo da minha vida, às vezes, impressiono-me com o encantamento que sinto ao lê um simples comentário escrito com base na Língua Portuguesa originária de Portugal. Caros leitores e blogueiros, sou apenas uma apreciadora desta língua tão requintada e bela, entretanto, sabemos que, em se tratando de Brasil, a Língua Portuguesa é falada e registrada de forma bem diferente, mas apropriada, uma vez que a língua é viva, está em movimento, ou seja, evolui, e, portanto, está aberta a variações. Parabéns pela iniciativa da criação do blog. Sucesso!!!
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