Conjugador de verbos

      Eis um bom conjugador de verbos para a língua portuguesa, com uma base de verbos conjugados contendo aproximadamente 280 000 registos. Veja aqui.


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Colocação do pronome

Fase pré-gramatical

      «In fact the argument was largely accepted by the major philosophers who succeded Anselm, so it counts as one of the most influential philosophical arguments in history.» «De facto, o argumento foi amplamente aceite pelos mais importantes filósofos que o sucederam, e, assim, é considerado um dos argumentos filosóficos mais influentes da História.» Ora, vamos lá ver: o pronome pessoal «o» não é a forma pronominal do complemento directo? E neste caso o verbo «suceder» não pede complemento introduzido pela preposição «a» («Filósofos que sucederam a Anselmo»)? E este complemento não se substitui pronominalmente pelo pronome pessoal forma de complemento indirecto «lhe»? Ou é tudo intuitivo? Deveria ter sido escrito: «De facto, o argumento foi amplamente aceite pelos mais importantes filósofos que lhe sucederam, e, assim, é considerado um dos argumentos filosóficos mais influentes da História.»


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Filosofia da linguagem

Desconversas

      Munido da Teoria Inferencial das Implicaturas, de H. P. Grice, as conversas com os vizinhos são muito mais filosóficas. Um dos condóminos pergunta-me: «O que acha da nova administração cá do prédio?» Respondo: «Não está mal, para o início. Ouvi dizer que uma junta médica psiquiátrica reformou o administrador.» Com a minha resposta, um pouco como no exemplo clássico que ilustra a teoria, mostro ao meu interlocutor que estou indeciso sobre as qualidades do administrador e, sobretudo, sugiro ou insinuo que a administração poderá descambar até ao fim do mandato, pois o indivíduo sobre quem falamos é maluco. Mas esta última informação será o meu interlocutor a inferi-la das minhas palavras. É o método preferido dos políticos, para mais facilmente terem uma escapatória. Mais tarde, sempre poderão dizer: «Bem, eu não queria dizer isso que está a afirmar: estimo muito o meu adversário.»


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Colocação do pronome

Pense bem

     Pois é, cara Luísa Pinto, mas escrever «Ao ler Chomsky de novo apercebi-me…» é diferente de «Ao ler Chomsky de novo me apercebi…», ou não percebeu? Com a primeira frase, quem escreve está a dizer que ao ler mais uma vez a obra de Chomsky se apercebeu de algo; com a segunda, pretende afirmar que ao ler a obra de Chomsky, pela primeira, pela segunda ou pela vigésima vez, se apercebeu novamente de algo. Logo, estão ambas correctíssimas, mas têm significados substancialmente diferentes.


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A moral e o moral

Até os melhores

      Como é que tradutores de alto coturno (mesmo que estejam de chinelas) ainda confundem a moral com o moral? Não é de espantar que tenham uma licenciatura; espantoso é que tenham passado da 4.ª classe. «Morale was therefore low.» «A moral estava, pois, em baixo.» Claro, bem sei, este é daqueles erros comezinhos, mas veja-se como escorregam nele os mais sabedores. Já Rodrigo de Sá Nogueira se vira obrigado a distinguir: «Moral (a) Moral (o) — Este termo emprega-se nos dois géneros: no feminino e no masculino, com as seguintes diferenças: no feminino, diz-nos o Dic. Contemporâneo: “a parte da philosofia que trata dos costumes, deveres e modo de proceder dos homens para com os outros homens”; no masculino, diz-nos o mesmo Contemporâneo: “Tudo o que diz respeito à inteligência ou espírito por oposição ao que é material”. — Dizemos com propriedade em português: “F... tem uma moral detestável”, isto é, “um sentimento e um procedimento contrários aos bons costumes”; “F... está com um moral desgraçado”, isto é, “num estado de espírito de desalento, de derrotismo”» (Dicionário de Erros e Problemas de Linguagem, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 4.ª edição, 1995, p. 298).


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Rodapé

Assédio a sério

      Uma leitora pede-me duas coisas: que explique quem (diacho?) foi Fr. António Taveira, que cito no rodapé do blogue, e que divulgue aqui o meu número de telemóvel.
      Claro que muito me separa de Camilo, e não são só as bexigas. Mas estou a ver que qualquer dia também me pedem uma colectânea de apotegmas, como Camilo temia que certo sujeito, «teimoso como um burro... literato, vá lá», ousasse fazer. Acedo. Frei António Taveira foi um frade dominicano que andou por Timor e arredores, por volta da segunda metade do século XVI, e por lá baptizou umas cinco mil almas. É obra. O meu número de telemóvel é o 966 _ _ _ 073. Agora veja lá o que faz com a informação...


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Glossário: palavras timorenses

Palavras timorenses no português

Baiqueno m. Língua, falada principalmente na Província do Servião, a que os Holandeses chamaram timoreesch.
Batanda f. Dança de Timor.
Bataúda f. Batuque de Timor.
Calado m. Dialecto falado nas montanhas vizinhas de Díli, em Timor.
Carosol m. Arbusto amomáceo de Timor.
Cascado m. Em Timor, doença da pele, peculiar aos indígenas.
Champló m. Árvore de Timor.
Coilão m. Pântano, paul; ribeiro que não chega às praias, escoando-se nas areias ou formando pântanos.
Cole m. Em Timor, folha de palmeira, com que se fazem esteiras, cestos e sacos.
Crubula f. Certa árvore de Timor.
Dagadá m. Língua gentílica de Timor, falada nos reinos de Faturó e Sarau, na ex-parte portuguesa.
Dasserai m. Axorcas que os Timorenses trazem nos artelhos.
Dató m. Chefe de uma aldeia (suco) ou de uma reunião de aldeias em Timor, pertencente à primeira classe social, dita mesmo dos datós.
Firaco m. Homem rude, montanhês, indígena do Leste do território.
Gabuta f. Planta de Timor.
Gonilha m. pl. Tabuões de bambu justapostos, com buracos redondos, que se colocavam nas pernas dos encarcerados.
Hacpólique m. Nome que em Timor se dá à tanga usada pelos indígenas.
Haiçá m. Árvore de Timor.
Haissuaque m. Instrumento de madeira pontiagudo com que os Timorenses amanham e revolvem a terra, em vez de arado ou de enxada.
Idate m. Um dos idiomas indígenas de Timor.
Lacalei m. Um dos idiomas indígenas de Timor.
Lamaquito m. Tribo indígena de Timor.│Indivíduo desta nação.
Lamuca f. Em Timor, espécie de rola.
Lantém m. Tarimba, mesa, estante ou banco de bambu ou hastes da palapa (espécie de palmeira da região), em Timor.
Lepalepa f. Canoa de Timor, curta e larga.
Liurai m. Em Timor, título do rei ou do régulo.
Lorçá m. Hino guerreiro e patriótico, em Timor.
Lorico m. Espécie de periquito de Timor.
Mambai m. Idioma indígena de Timor.
Manatuto m. Língua de Timor, na
região do mesmo nome.
Nauete m. Dialecto indígena de Timor.
Naumique m. Um dos idiomas indígenas de Timor.
Pagar m. Em Timor, o m. q. casa.
Palapeira f. Bot. Árvore de Timor de cujas fibras as mulheres tecem panos.
Parão m. Arma usada pelos Timores, espécie de foice roçadoura, com a ponta levemente curva.
Parapa f. Bot. Certa árvore de Timor.
Pardau m. Em Timor, medida de comprimento, apenas empregada na medição dos chifres dos búfalos.
Posual m. Em Timor, lugar onde se guardam as coisas sagradas, louças, pedras, azagaias, amuletos, etc.
Salenda f. Espécie de xaile das mulheres malaias e usado igualmente pelos homens em Timor.
Suangue m. Nome que em Timor se dava ao feiticeiro.
Tabedaí m. Dança timorense.
Tais m. Pano de algodão com que os guerreiros de Timor cobrem o corpo, da cintura ao joelho.
Tamugões m. pl. Segunda classe de indígenas de Timor.
Tanleom m. Bot. Árvore de Timor, espécie de sândalo.
Tarão m. O m. q. anileira, em Timor.
Teto m. Uma das línguas faladas em Timor; o m. q. manatuto e tétum.
Tétum m. O m. q. teto.
Timungões ou tumungos m. pl. Classe dos chefes, espécie de baixa nobreza, de povoação em Timor.
Uiamá ou uimaa m. Língua de Timor-Leste falada nas áreas administrativas de Atsabe, Calicai, Laleia, Venilale e Vila Salazar (Baucau).
Valuiú f. Bot. Palmeira silvestre de Timor.


[Glossário em construção: 50 entradas]


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Neerlandês

Carne tenra e língua dura

      Quem não se lembra do Prof. Carlos Fabião? Tenho hoje aqui à minha frente o texto de uma conferência — «As dificuldades de um português com a língua neerlandesa» — que proferiu em 30 de Outubro de 1961 no Centro Cultural Holanda-Portugal-Brasil, da qual respigo a seguinte historieta. Nem sequer é preciso conhecer a língua neerlandesa para entender cabalmente o que está em causa.
      «Certo dia, pouco depois de ter chegado à Holanda, pretendendo eu obter carne de vitela bem tenra, entrei numa slagerij de Utreque e pedi a minha encomenda. Raciocinando, porém, com ingenuidade e precipitação, disse de mim para mim: “Tenro” é talvez da família etimológica de teder em Neerlandês. E, zás!, pedi carne teder… O carniceiro, porém, grande ratão, corrigiu-me, com um sorriso irónico, algo latino: “Mijhneer, disse ele apontando com o dedo, teder é, salvo seja!, aquela moça acolá; para carne de vitela diz-se mals!...
      Corei um pouco, e aprendi a não ser precipitado nos meus raciocínios de vocabulário comparativo.» (p. 23)


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O bom povo

Madre natureza

Lembram-se da velhota que perguntava a outra se já tinha charingado às avessas? Pois agora, mão amiga fez-me chegar um livro de histórias da autoria da médica Lourdes R. Girão, Gentes d’além Montes (edição da Câmara Municipal de Moncorvo, 1996). Um dos relatos, «A doente tinha doença venérea que tinha sido transmitida pelo marido», diz: «Era uma mulher do campo, envelhecida prematuramente. Após as queixas habituais de poliartralgias, de ter sido observada e já medicada, a doente mantinha-se sentada, rígida e imóvel, com a receita na mão.
— O que é que se passa? O que é que me quer contar? — pergunto.
— Está tanta gente lá fora… — diz a medo.
— E isso que importa, se ainda não acabou a consulta!... — encorajo.
— Eu queria dizer-lhe uma coisa, mas tenho vergonha…
— Ora, ora… Conhecemo-nos há tanto tempo… para quê isso?
— Bem… Sabe?... O meu homem está muito mal da “ponta da natureza” e eu não sei porquê, também não me sinto bem da “boca da madre”…»

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Citação

«A gramática vinga-se daqueles que a desprezam.»

Martinho Lutero (1483―1546)

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Travessão

Acordem, senhores

Apesar de os meios informáticos, e em especial os processadores de texto, estarem à nossa disposição há já algum tempo (eu, e não sou o melhor exemplo, uso computador desde 1988), ainda assim muitos tradutores não sabem como encontrar (e alguns, usar) o travessão. A lei do menor esforço impele-os, naturalmente, a usarem o que vêem no teclado: o hífen ou, pior ainda, a sublinha, na mesma tecla. Alguns, não vá o paginador ignorar, pespegam com dois hífenes seguidos. Demonstram assim não apenas ignorância, ah pois, mas também falta de respeito por quem vai rever ou paginar as obras que eles traduzem — pois alguém terá de fazer o trabalho que lhes incumbia.
O travessão, no aplicativo Word, o mais difundido, obtém-se clicando em «Inserir», «Símbolo» e «Símbolos». Para não haver dúvidas, na terceira linha da caixa, à esquerda, aparece o nome inglês do símbolo seleccionado: «EM DASH». Como se sabe, o hífen é mais pequeno e nunca há qualquer espaço entre ele e as palavras que liga; o travessão, por sua vez, requer o uso de espaço antes e depois. Ainda existe, e não terá escapado aos revisores que me lêem, pois usei-a no último post, a meia-risca, que tem um tamanho intermédio, usada com números, mormente datas e números de páginas: 1998―2006; pp. 20―35. Muito usada pelos anglo-saxónicos, com a designação de en dash*, por cá vai-se vendo (e viu-se no passado, pois na obra que ontem citei foi a meia-risca que o autor usou) em algumas obras, o que considero boa prática.


* «The en dash is slightly longer than the hyphen but not as long as the em dash. (It is, in fact, the width of a typesetter’s letter “N,” whereas the em dash is the width of the letter “M”—thus their names.) The en dash means, quite simply, “through.” We use it most commonly to indicate inclusive dates and numbers: July 9―August 17; pp. 37―59.» (Ver também Editorial Style Manual of UA)

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Sentidos da partícula «ou»

Parece simples…

Só quem for pouco dado a leituras e a pensar é que ignorará que a conjunção ou oferece por vezes sérias dificuldades de interpretação. Em parte, a explicação está no facto de na evolução para o português mais de um vocábulo latino — vel, vel potius, aut — ter convergido neste. Continuando a explorar o opúsculo «Achegas para o estudo lexicológico da obra vieiriana», de José van den Besselaar, publico hoje uma reflexão deste autor sobre a questão na obra História do Futuro, do P. António Vieira.

«Ou. Esta conjunção tem quatro funções, por vezes, difíceis de distinguir entre si. A quarta delas não encontrou ainda a devida atenção dos dicionaristas, apesar de ser muito importante para a interpretação certa de vários passos da obra vieiriana.
a) valor alternativo ou exclusivo (em Latim, preferivelmente: aut). Exemplos:
HF VI 167 “duvidoso se aceytaria ou não a batalha”; cf. III 124; III 127; IV 146; VIII 575; etc., etc.
Nota. Esta função de ou é na HF a mais frequente. Muitas vezes encontramos também a correlação ou… ou:
HF IV 57 “ou sejão beneficios ou castigos”; cf. IV 147―148; XII 18―19; etc., etc.
Também ocorre: ou… ou… ou:
HF V 28–29 “Mas, ou seja para Portugal, ou para o resto do mundo, ou para todos…”; cf. XII 62―63; etc.
Também: ou… ou… ou… ou:
HF IX 262―263 “ou provavel, ou moral, ou theologica, ou canonicamente…”.
b) indiferença de escolha (em Latim, preferivelmente: vel). Exemplos:
HF XII 1361 “as suas alturas ou profundidades”; APP. I 20 “hum Isayas ou hum Jeremias”; APP. III 77 “por fama ou informação errada”; etc.
Nota. Esta função de ou ocorre só poucas vezes em proposições negativas e em perguntas (geralmente, retóricas) às quais se espera uma resposta negativa, p.e.:
HF III 117―118 “não por nome ou titulo fantastico”.
Em tais frases, porém, Vieira prefere geralmente a conjunção nem, p.e.:
HF XII 1585―1586 “Como havião de cuydar nem lhe [sic] havia de vir ao pensamento que os profetas fallavão dos Americanos?”; III 100 “não falla por hyperbole nem synedoche”; APP. I 39―40 “como se atreverá hum Reyno tão pequeno nem esperará consegui-lo?” Outros exemplos HF XII 1577―1578 e 1598―1599.
c) valor explicativo (em latim, preferivelmente: vel). Exemplos:
HF XII 1178 “atado aos gurupés ou paos compridos”; cf. IX 237―238 “ainda que entrevenha no discurso algum meyo ou proposição scientifica”.
Nota. No primeiro exemplo alegado, um termo menos conhecido vem depois a ser explicado por uma palavra bem conhecida; no segundo, um termo genérico por uma expressão mais precisa e concreta. Ocorrem também passos em que ou introduz um termo menos conhecido, p.e.:
HF XII 1209―1210 “E porque não faltasse a esta terra a demarcação ou arrumação (como dizem os geografos)…”; cf. APP. II 185―188 “Quando o sentido […] não he contrario senão diverso, ou quando não he “contra” senão “praeter” (como dizem os theologos)…”.
d) valor correctivo (em Latim: aut/vel potius): “ou antes, ou melhor”:
HF I 51―52 “Mas que direy das sciencias ou [= “ou antes”] ignorancias, das artes ou [= “ou antes”] superstições, que os homens inventárão…?”; cf. I 70 “de huma só hora ou instante da vida”; I 61 “em que lessem ou soletrassem”; I 180―182 “tudo isto […] he envolto em metaforas […] e contado (ou cantado) em frases proprias do espirito e estylo profetico”; II 145―146 “pede a razão e amor natural que leyas e consideres nella [sc. na HF] os seus ou os teus futuros”; IV 129–130 “da coroa que […] lhe cahíra da cabeça, ou lhe fora arrancada della”; V 126―127 “e no concurso de todas estas profecias se consolava e animava Portugal a ir vivendo ou durando…”; VI 154―155 “as emprezas firmadas por huma escritura de Deos (ou por tres escrituras); VII 56―57 “tinha já concluido, ou comprado […] a paz”; VII 82 “por exemplo ou desengano”; VIII 487―488 “que esperança ou que desesperação he pertender conquistar a Portugal?” IX 19―20 “As mais escuras trevas que se vírão no mundo (ou com que o mundo se não vio) forão aquellas do Egypto”; XII 94―96 “… do grande Jeronymo, digno tanto do immortal louvor pela eminencia de sua sabedoria, como pelos trabalhos e suores com que adquirio ou conquistou”; XII 1461―1462 “diz elle, ou por elle Deos”; APP. III 1 “Não foy menor occasião ou impedimento…”
Nota. Só raras vezes encontramos, nesta função, a correlação ou… ou:
HF I 19–20 “O homem, filho do tempo, reparte com o mesmo tempo ou o seu saber, ou a sua ignorância”; I 70―71 “[os genethliacos] levantão ou figura ou testemunhos”.
Outra nota. Uma vez, Vieira chega a explicitar este emprego da partícula ou, cf. HF X 328―329 “e tudo isto por beneficio do tempo, ou — para o dizer melhor — por providencia do Senhor dos tempos”.»

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Disparates

Serviço público? Bah...

Malato está em pulgas: quer demonstrar ao País que sabe o que são estrangeirismos. A pergunta era a que palavras se referia o termo «galicismo». As hipóteses: a) inglesas; b) francesas; c) italianas. Depois de muito hesitar, pensar, repensar, o concorrente, um professor, escolhe a medo a hipótese b). Malato, que — ainda se lembram? — estava em pulgas para exibir os seus vastos conhecimentos, a uma pergunta do concorrente sobre que nome têm os vocábulos com origem no italiano, expõe a sua teoria: com origem no francês são galicismos; com origem no inglês, anglicismos. O resto não tem designação específica, são estrangeirismos.
Ao pobre de espírito que me chamou pobre de espírito (mas que continua a ler-me para aprender alguma coisa) por eu ter aqui clamado contra a estupidificação causada pela televisão, deixo-lhe este exemplo de «horário nobre». Repetido todos os dias.

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A propósito de «marginal»

Marginais e meliantes


      Deixem-me dizê-lo uma vez: o Dicionário da Academia também tem coisas boas. Uma delas é registar o substantivo «marginal» no sentido de estrada ou avenida ao longo de um curso de água ou do mar. Sempre me deixou perplexo que os dicionários a não registassem. Nem o Houaiss! Ora, tanto quanto sei, tal não implica que os tradutores não a usem e, mais ainda, não saibam traduzir os equivalentes noutras línguas. Dois exemplos. Duas personagens vão de automóvel. A determinada altura, lê-se no texto: «Nous prenons la route de la corniche.» Isto é canja para o tradutor: «Tomamos a estrada da cornija.» C’ést navrant. Noutra obra: «Following the coastal highway, he drove past the bridge road until he came to a white, expansive beach that was popular with windsurfers.» O tradutor, que também pensou «it’s easy as pie», verteu: «Seguindo a auto-estrada costeira, passou a estrada da ponte até chegar a uma extensa praia de areias brancas que era popular entre os surfistas.» Marginal soa-lhes a topónimo, tão topónimo como Estrada de A-da-Maia ou Estrada do Poço do Chão.
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A propósito de «vaipe»

Impulsos

Há tempos, Manuel Fialho Silva, autor do blogue Breve Tempus, afirmava: «Exemplos de palavras que todos sabemos o que significam, mas que não existem oficialmente: “— Deu-lhe um vaipe”». Demonstrei-lhe, então, que não era bem assim, pois não apenas os dicionários não registam todos os vocábulos, como escolhera mal o exemplo, pois pelo menos o Novo Dicionário de Calão de Afonso Praça registava-o*. Na verdade, também o Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora o regista, embora, estranhamente, o diga do género feminino: «Vaipe, substantivo feminino. Coloquial. Mudança súbita de comportamento; reacção inesperada; impulso.» Se volto à questão é porque um leitor me pergunta se se conhece o étimo de «vaipe». Desconheço. Contudo, sem afirmar que seja o francês vape**, redução de vapeur, a verdade é que podemos aproximar os vocábulos, pois uma das acepções de vape é «état d’excitation (de l’esprit)». Fica a ideia.

* «Vaipe — Impulso; reacção inesperada; mudança súbita de atitude; acção repentina. [Deu-me um vaipe e saí porta fora.
** Também vape é do género feminino, tal como vapeur. Este, embora tenha como étimo o latino vapor, masculino, adoptou, por analogia, o género das palavras francesas terminadas em -eur.

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Legendas

Imagem: http://www.labutaca.net/films/24/lamalaeducacion.htm

Mala traducción…

Vi apenas uns minutos do filme Mala Educación, de Pedro Almodóvar, que passou no sábado na RTP. Não sei quem foi o responsável pela tradução e legendagem. O que vi não me agradou. Só um exemplo: quando Paca/Paquito (Javier Cámara) apresenta, no teatro, Zahara (Gael García Bernal), diz, como é da praxe, entre outras coisas, «a continuación les presento». Para minha surpresa (isto é só uma figura de retórica, pois na verdade não me surpreendeu nada), na legenda podia ler-se: «a continuação», etc. Não é nada de novo para mim: no mais simples, e em especial nos diálogos, é que se percebe até que ponto o tradutor domina a língua de partida.
Não sei mesmo se vale a pena ver um filme estropiado pelas legendas. É claro que com a esmagadora maioria da população a não saber interpretar uma simples notícia, legendar os filmes é inevitável — mas porque não põem a traduzir quem sabe? É que parece que traduz quem precisa de legendas…

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Machreq ou Machereque?

Eis a questão



      Cara Luísa Pinto: eu nunca propus que se deviam traduzir os topónimos estrangeiros. Como todos os leitores, tem o direito de me ler, não de me tresler. O caso de Machreq é, providencialmente, muito simples. Provavelmente leu-o numa obra francesa. Sim, porque se tivesse sido numa inglesa, teria lido Mashreq ou Mashriq ou Mashrek. Ora, isso só significa que as várias línguas têm de transliterar para o alfabeto latino o topónimo árabe, já que desconhecemos esta língua. E para esse fim, podemos recorrer à norma internacional ISO 233. Se eu escrevesse a palavra árabe مشرق, a leitora não saberia se estava a insultá-la, se, por exemplo, a dar-lhe uma informação, não é? A verdade é que acabei de escrever o topónimo em causa. O topónimo significa «Levante», por oposição ao Magrebe (em árabe, المغرب), «Poente», e abrange, pelo menos numa das acepções, o Oriente árabe: Iraque, Síria, Líbano, Palestina, Egipto e parte da Líbia.
      No fundo, a verdadeira questão é se aceitamos as transliterações de outras línguas ou se procedemos à transliteração para a nossa língua, e não, evidentemente, se respeitamos o endotopónimo*. Já tenho tido oportunidade de ler, em alguns textos oficiais, em língua portuguesa, da União Europeia o topónimo transliterado como «Machereque». Prática que devemos seguir — para nos entendermos e mais tarde podermos afirmar que temos uma tradição.

* Sobre o conceito de endotopónimos e exotopónimos, ler o excelente artigo «Traducir (o no) los topónimos», de Miquel Vidal, no n.º 100 de Punto y Coma, pp. 57-62.

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Glossário: armas

Armas e partes de armas antigas

Alabarda f. Arma formada de uma haste comprida de madeira, que termina por um espigão de ferro, atravessado por uma lâmina também de ferro e em forma de meia-lua.
Alaroso m. A pêndula maior de um fraldão da armadura.
Almofre m. Ant. Parte da armadura de malha, que cobria a cabeça, e sobre que era posto o elmo.
Amina f. Cota de malha, feita de ferro ou aço, usada pelos guerreiros da Idade Média.
Anasal ou anassal m. Parte do capacete que protegia o nariz.
Aríete m. Antiga máquina de guerra, para arrombar portas e muralhas: o aríete era uma trave terminada por uma peça semelhante a cabeça de carneiro.
Arnês m. Antiga armadura completa.
Babeira f. Peça de armadura antiga, que resguardava a boca, barba e queixo, fazendo parte do elmo.
Bacinete m. Peça da armadura que cobria a cabeça; à maneira de elmo.
Barbicacho m. Mil. Peça de armadura que sustentava o capacete ou elmo por debaixo do queixo.
Barbote m. Peça de armadura antiga, que cobria a barba.
Barbuta f. Capacete ligeiro, sem viseira e que deixa o rosto a descoberto.
Bardão m. Couraça do cavalo.
Barguicha f. Peça importante de antiga armadura que defendia as partes genitais.
Bastida f. Antiga máquina de guerra muito alta, sobre rodas. Trincheira de paus.
Balista f. Máquina de guerra com que arremessavam flechas, pedras, etc.
Bastilha f. O mesmo que fortaleza.
Bodoque m. Bola de barro cozido, que se atira com a besta.
Bombarda f. Máquina de guerra para arremessar pedras.│2. Peça de artilharia que arremessava grandes balas de pedra.
Borguinhota f. Ant. Espécie de carapuça, cervilheira de malha, defensiva da cabeça.
Brafoneira f. Parte da armadura que resguardava a região superior do braço e os ombros.
Brocha f. Peça de armadura antiga, para abrochar as peças.
Canevás m. Pano de cânhamo.│Peça deste pano nas antigas armaduras.
Capelina f. Peça da armadura antiga que resguardava a cabeça.
Catapulta f. Antiga máquina de guerra movida por cordas torcidas, que servia para arremessar pedras, virotes, etc.
Cervilheira f. Armadura defensiva da cabeça, espécie de capacete sem aba.
Chacra f. (do sânscrito chakra). Arma indiana de arremesso, constituída por uma roda de aço, furada, com a parte exterior muito afiada.
Cimeira f. Elmo.│2. Ornato que enfeita o cimo de um capacete.
Cobre-nuca m. Nas antigas armaduras, parte do capacete que cobria a nuca.
Codal m. Ant. Mil. Peça da armadura, formando parte do braçal e servindo para proteger o cotovelo.
Coracina f. Peça de armadura antiga que, na couraça, reforçava o peito do soldado à altura do coração.
Cossolete ou cossoleto ou corselete m. Armadura leve para o peito.
Cota f. Vestimenta que usavam sobre a armadura os cavaleiros antigos.
Cota de armas loc. Vestidura que levam os reis de armas nas funções públicas, nas quais está bordado o escudo real.
Cota de malha loc. f. Armadura defensiva e em forma de camisa feita de malhas ou pequenos anéis de metal entrelaçados.
Cotão m. Cota grande, vestimenta de cavaleiros antigos.
Cotari m. Espécie de punhal indiano.
Cotoveleira f. Parte da armadura que protege o cotovelo.
Coura f. Ant. Gibão de couro com que os soldados resguardavam o corpo; o m. q. couraça.
Couraça f. Armadura de aço para as costas e o peito.
Coxote m. A parte da armadura que fica acima das grevas e sobre as coxas.
Elmete m. Morrião, elmo.
Elmo m. Armadura antiga para a cabeça, espécie de capacete cilíndrico ou pontiagudo, que cobria a cabeça e o rosto, com uma abertura para os olhos.
Empolgadura f. Buraco em cada um dos extremos do arco da besta onde se enfiam as pontas da corda.
Engargantar v. Emperrar a bala no cano da arma de fogo antes de chegar à culatra.
Enlaçadura f. Cada uma das peças que enlaça o elmo.
Ensarilhar v. Apoiar no chão as coronhas (das armas), unindo-as na parte superior.
Erício m. Trincheira eriçada de paus de ferro na Roma antiga.
Escarcina f. Espécie de alfange usado pelos Persas.
Escorva f. Parte da arma em que se põe a pólvora que comunica fogo à carga.│2. Porção de pólvora, para comunicar fogo à carga das armas ou tiros de mina.
Escovilhão m. Grande escova em forma de cilindro, para limpar as bocas dos canhões.
Espaldar m. Peça de armadura.
Espaldeira f. Peça de armadura que protegia o ombro.
Espata f. Ant. Espada larga de dois gumes e sem ponta.
Espoleta f. Nome dado antigamente às escorvas das bocas de fogo.
Estarcão m. Ant. Cota de armas.
Estramazão m. Ant. Antiga e larga espada de dois gumes.
Exostra f. Ponte corrediça, que se estendia das torres móveis até às muralhas, e pela qual passavam os soldados que iam combater uma praça.
Falárica f. Ant. Espécie de lança, em cuja ponta se punha estopa embebida em substância inflamável para lançar fogo a casas, torres, etc.
Falcata f. Arma antiga, formada de uma haste, encimada por uma espécie de foice.
Falcato m. Sabre romano, em forma de foice.
Falda f. Parte plana do guarda-braço da antiga armadura, cobrindo por trás a omoplata e defendendo parte da frente do peito, sobretudo do lado esquerdo.
Fraldão m. Grande fralda que cobria o busto na parte inferior da armadura.
Frictor m. Peça de cobre, que serve para incendiar a escorva, nas bocas de fogo.
Frondíbalo m. Antiga máquina de guerra, que lançava grandes dardos.
Gálea f. Elmo; capacete de guerreiro.
Gargalheira f. Parte da armadura que protege a garganta.
Garrucha f. Mecanismo com que se armavam bestas.
Geso m. Espécie de lança pesada e comprida dos Gálios.
Gibanete m. Ant. Armadura antiga, couraça de ferro ou de malha de aço.
Gibão m. Vestidura antiga que se usava a cobrir o corpo até à cintura, por baixo do pelote, como hoje o colete.
Gládio m. Antiga espada curta e de dois gumes.
Gocete m. Peça da armadura antiga.
Goiva f. Ant. Agulha que servia para desimpedir o ouvido da peça de artilharia.
Gola f. Peça da armadura que protege o pescoço.
Gorjal m. Ant. Parte da armadura que defendia o pescoço. O m. q. gorjeira.
Gradelhas f. pl. Peça de armadura antiga, peça de malha mais rala, como grades miúdas.
Gorjeira f. Ant. Parte da antiga armadura, para defesa do pescoço.
Grevas f. pl. Parte das antigas armaduras, que revestia as pernas.
Hurdício m. Ant. Grade de madeira com que se protegiam as muralhas.
Joelheira f. A parte da armadura que protege o joelho.
Lanada f. Varredouro de peles de ovelha com que se limpa o interior das peças de artilharia.
Laudel m. Antiga vestidura de guerra.
Lazarina f. Arma de fuzil antiga, comprida e de pequeno calibre.
Loriga f. Espécie de saia de malha com lâminas de aço e que fazia parte da armadura dos guerreiros.
Lorigão m. Grande saia de malha; grande loriga.
Malha f. Trança de metal com que se faziam armaduras na Idade Média.
Mangote m. Parte da armadura, que revestia os braços.
Manopla f. Espécie de luva de ferro, que fazia parte das antigas armaduras dos gladiadores.
Manta f. Antiga máquina de guerra. O m. q. mantelete.
Mantelete m. Capa curta com que os cavaleiros cobriam o capacete e o escudo. Abrigo ligeiro para ataque e defesa das praças-fortes.
Meia-cana f. Peça das antigas armaduras, que cobria a parte anterior da perna, descendo até ao joelho.
Ortiga f. Ant. Tiro de peloiro de pedra.│2. Canhão de 19 palmos que atirava peloiros de pedra.
Panceira f. Ant. A parte da armadura com que os guerreiros resguardavam o ventre.
Partazana f. Alabarda grande.
Pavês m. Escudo comprido que protegia o corpo do combatente até ao ombro, com a parte interior côncava, semicilíndrica.
Pelouro m. Bala de pedra ou metal que se empregava em algumas peças de artilharia.
Pelta f. Pequeno escudo, em forma de crescente, usado outrora pelos guerreiros trácios e outros povos antigos. │2. Lança comprida, alabarda.
Piastrão m. Parte dianteira da couraça, que cobre o peito.
Rebraço m. Ant. Parte da armadura, que defendia o braço.
Rodela f. Escudo redondo, broquel.
Sambuca f. Antiga máquina de guerra que consistia numa espécie de ponte levadiça manobrada com cordas, que era baixada da torre de assédio sobre a muralha da lugar inimigo.
Teiró m. Parte da fecharia de algumas armas de fogo.
Tonelete m. Parte da antiga armadura, que descia da cintura ao joelho.
Virol m. Heráld. Rolo de fitas, entrançado, que ornava os capacetes nos torneios, e donde saíam os paquifes, que se conservavam na ornamentação dos escudos.
Virote m. Travessa de ferro os corpos das antigas espadas.│2. Vara de madeira, de secção quadrada, e que faz parte da balestilha.

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«Epá», mais uma triste vez

Só mais esta

«A coincidência de datas (consulta e aniversário) só merece um comentário de Bruno Nogueira: “Epá que maravilha.”» («Uma ida ao dentista como prenda de anos», Emanuel Rodrigues, 24 Horas, 31.1.2007, p. 43). Como o jornalista afirma que o humorista é que o escreveu no seu blogue, vamos ver. É mesmo: Bruno Nogueira escreveu «epá». É pena. Já a falta de vírgula corre por conta do jornalista, porque o humorista escreveu: «Epá, que maravilha.»

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Glossário: palavras com étimo chinês

Anchaci m. Juiz provincial na China.
Barcalão m. Homem nobre na China.
Braçalão m. Alto dignitário, no Sião e na China.
m. Ant. O imperador da China, na Idade Média.
Cabisondo m. Sacerdote, bonzo da china e do Japão, mais autorizado em dignidade e grau entre os outros.
Cache m. Moeda chinesa.
Canga f. Suplício usado na China. O m. q. ganga.
Capisondo m. Oficial das alfândegas, na China.
Caulim ou caulino m. Substância terrosa (argila) com cheiro a barro, constituída por caulinite associada a outros minerais, muito empregada na indústria de louças de porcelana e ainda na preparação do alumínio.
Chaém m. Antigo magistrado de alta jurisdição na China.
Champaulu m. Embarcação chinesa.
Chandeu m. Espécie de feira, mercado, arraial ou romaria, na China.
Chau m. Nome do papel-moeda na China.
Chi ou ché m. Medida linear na China.
Chifanga f. Cadeia, prisão, casa de custódia, na China.
Chifu m. Espécie de regedor ou alcaide, entre os Chineses.
Chistira f. Espécie de esteira de palha, fabricada na China.
Chumbim m. Magistrado judicial na China.
Chumpim m. Tenente-general do exército chinês.
Cluva f. Espécie de corvo-marinho da China.
Colao m. Título dos ministros assessores do imperador da China, a que os Portugueses deram o nome de mandarins.
Colau m. Casa de pasto, na China.
Colir m. Funcionário que na China exercia as funções de censor.
Compim m. Na China, dignidade militar; comandante do exército de uma província.
Conchal, conchali ou conchalim m. Antigo magistrado judicial, entre os Chineses.
Conchuim m. Embarcação do Estado, na China, para transportar mandarins em serviço.
Condri m. Peso de ouro que servia de moeda na China: tinha 7 ½ grãos do peso de Portugal.
Conquão m. Chefe da fazenda provincial, na China.
Conquial m. Categoria de antigos sacerdotes chineses que viviam em clausura nos pagodes.
Continão m. Magistrado, espécie de promotor de justiça, nos antigos tribunais chineses.
Copu m. Tela estimada na China.
Coxão m. Religioso budista na China.
Cuchimioco m. Letra de câmbio, que alguns sacerdotes chineses dão para o outro mundo, por dinheiro que lhe dão os devotos.
Cunge m. Título nobiliárquico na China.
Dachém m. Balança chinesa de aço.
Dopo m. Arraial do comandante em acampamento militar na China.
Faitião m. Barco chinês, para carga e passageiros.
Fanqui m. Nome que os Chineses dão depreciativamente aos Europeus.
Fão m. Antigo peso da China.
Fene m. Moeda chinesa que vale a centésima parte de um tael.
Ferúcula m. Espécie de desembargado nos antigos tribunais de Nanquim, capital da província de Jiangsu.
Ganga f. Suplício na China. O m. q. canga.
Guedé m. Pequena embarcação usada na China.
Haitagim m. Na China, presidente do Tribunal da Fazenda.
Hajul m. Peixe da China.
Hobo m. Ameixoeira da China.
Hopo m. Na China, administrador da alfândega.
Iamém m. Repartição pública, na China.│Residência de mandarins.
Ichão m. Medida itinerária da China, que equivale a doze léguas antigas de Portugal.
m. Na China, hospedaria oficial.
Itau m. Comandante chinês.
Labão m. Militar chinês. O m. q. loção.
Lampa f. Seda da China.
Lanchuem m. Embarcação chinesa ligeira.
Lapá m. Espécie de trompa chinesa formada por três tubos.
Latane f. Casa de jogo, na China.
Lauié m. Tratamento de respeito que se dá aos velhos na China.
Laulé f. Ant. Pequena embarcação dos mares da China.
Lautiá m. Tratamento equivalente a senhor e que se dá aos altos funcionários chineses.
Lentocim m. Inspector de celeiros públicos na China.
Li s. 2 gén. Medida itinerária da China, variável segundo as épocas e os lugares.│m. Moeda da China, de estanho ou cobre.│m. Tratamento que se dá na China a certas pessoas.
Libanco m. Cárcere, cadeia na China.
Lipu m. Na antiga China, tribunal ou ministério dos ritos e cerimónias.
m. Instrumento de música chinês, de percussão, de cobre, da forma de um grande tambor e que é tocado com um maço de pau, variedade de gongo.
Majongue m. Espécie de jogo chinês com pedras de marfim, há anos em voga no Ocidente.
Monteu m. Espécie de magistrado judicial, na antiga China.
Moxa f. Med. Mecha de algodão ou de cotão que os Chineses colocam acesa sobre a pele, para a cauterizar.
Nautarel m. Na China, antigo empregado superior de alfândega.
Pacapio m. Termo de Macau. Lotaria chinesa, espécie de loto. O m. q. pacó-pio.
Paolu m. Queima-perfumes dos templos búdicos chineses, cuja tampa, perfurada para dar passagem ao fumo odorífero, tem por botão ou punho uma quimera ou leão búdico.
Pepa, peipá ou pipá f. Espécie de guitarra, usada pelas damas chinesas.
Peretanda m. Cavaleiro que, na antiga China, tomava parte em guardas de honra.│Espécie de carregador, entre os antigos Chineses.│Corregedor, algoz, carrasco, entre os Chineses.
Piambre m. Espécie de andas ou liteira, usada antigamente na China.
Pingue m. Medida de capacidade chinesa, que vale 560 litors.
Ponchaci m. Ant. Homem nobre na China.
Sanchu m. Aguardente de arroz, na China.
Sapatião m. Barco ligeiro e pequeno, na China.
Sauguate m. Doce de fruta, na China.
Siampão m. Pequeno navio chinês, de vela e remos.
Sigiputão m. Sacerdote de uma seita chinesa.
Sutate m. Bebida chinesa, também usada na ex-Índia Portuguesa, preparada com determinada variedade de feijões, anil, casca de laranja, etc.
Tacó m. Feijão da China; o m. q. tacós.
Tafu f. Bebida chinesa, preparada com certa espécie de feijões.
Taifó m. Adaga chinesa curta e muito afiada.
Ta-lou m. Nome chinês de um fundente vítreo usado para a esmaltagem das porcelanas e essencialmente constituído por silicato de chumbo com uma percentagem de cobre.
Tangram m. Quebra-cabeças de origem chinesa constituído por sete peças (conhecidas por tans), obtidas a partir de um quadrado. Ver aqui.
Taó m. Embarcação chinesa.
Taocu m. Tamboril chinês, atravessado no seu diâmetro por um pau que serve para pegar no instrumento.
Tiau m. Cerimónia praticada pelos Chineses depois da morte dos seus parentes, e que consiste em colocar o retrato do defunto sobre o altar, levantado na casa que ele habitava, e diante do qual os parentes e os amigos vão prostrar-se a prestar homenagem.
Tiém m. O ser supremo, na doutrina de Confúcio.
Tienzu m. Tamborete ou assento dos oficiais da corte, na China.
Toci m. Certo cargo público na China.
Tofu m. Alimento produzido pela coagulação do leite de soja.
Topaz m. Ant. Intérprete chinês.
Tufão m. Designação chinesa dos ciclones tropicais que ocorrem nas regiões ocidentais do oceano Pacífico; são designados furacões no oceano Índico e ciclones no mar da Arábia e na baía de Bengala.
Tutão m. Antigo e principal dignitário da corte da China.
Tuxinau m. Espécie de reitor dos pagodes da China.
Upo f. Espécie de beleguim na China.
Xuxiapom m. Nome dado à residência do soberano entre os Chineses dos tempos antigos.






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Legendas


Diarreia mental

Fui ontem à antestreia do filme Cartas de Iwo Jima, o novo filme de Clint Eastwood. Relata a história, como já todos saberão, da decisiva batalha de Iwo Jima, uma ilha japonesa, entre os Estados Unidos e o Império Japonês durante a Segunda Guerra Mundial. A minha batalha na confortável cadeira do cinema foi com os erros infames das legendas. «Fazê-lo-ei», «benvindo» (e não é o da Fonseca, garanto), «evacuar soldados» e muitos, muitos outros. Má sorte não saber japonês. Profissionalismo é uma palavra vã em Portugal.

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«Pastorear» e «pastar» (I)

Imagem para este texto de Bandeira


Tenham paciência


      Até à 4.ª classe era compreensível — mas depois disso?... «His father raised and sold animals from village to village, while Hasan grazed the sheep.» O tradutor não teve dúvidas: «O pai criava e vendia animais de aldeia em aldeia, enquanto Hasan pastava as ovelhas.» Mas quem pastava — o pastor ou as ovelhas? E que faz o tradutor? Toca flauta pastoril? Até o cão fica perplexo...

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Eh pá, outra vez

Pois não aprendem

«(barbeiro e caçador crónico): É pá, fui aos tordos neste fim-de-semana e não vi um» («Conversas de barbearia», Tomás de Montemor, Notícias Magazine, 28.1.2007, p. 76).

«1.º garoto — Eh pá! Vamos “reinar” ao cinema. Eu faço de “có-bói”. Dou-te uma pêra e tu ficas K. O.» (Vasco Botelho de Amaral, Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa, edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946, p. 91).

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Tradução do espanhol

Deixa-me rir

«Yo gateaba por la casa, escurriéndome entre faldas y medias veladas, sin entender por qué pasaban del lloriqueo a la euforia en un segundo.» O tradutor é muito bom, mas veja-se como verteu a frase: «Eu gatinhava pela casa, deslizando entre saias e meias tapadas, sem compreender por que razão passavam do choro à euforia num instante.» Alguns leitores já me têm perguntado se os casos de tradução que apresento são reais. São sempre reais, é a minha resposta. Pelo menos enquanto não houver um sindicato da classe, com um código de ética que nos proíba de falar do trabalho que esteve na nossa «jurisdição», falarei. Até para ilustração dos próprios — que sei que me lêem. Quanto ao resto, só tem que ver com abnegação minha e nenhum receio de embaixadas homicidas. De qualquer modo, espero que partilhem a filosofia de Epicteto — Se disserem mal de ti com fundamento, corrige-te; de contrário, dá uma gargalhada.
Ah, sim, já me esquecia: medias veladas são… Digam-me os leitores o que acham que são.

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Verbo «evacuar»

Intestino fatal

Uma funcionária (ou seria, meu Deus!, uma professora?) de uma escola do Algarve, a propósito do sismo, foi mostrar ao repórter, aos saltinhos e a rir, o botão que premiu para que os «professores e os alunos se evacuassem». Com sua licença, deveria ter acrescentado… Vejamos o que regista o Dicionário de Verbos e Regimes, de Francisco Fernandes (Editora Globo, São Paulo, 36.ª ed., 1989, p. 332):

«Evacuar. Transitivo — Expelir, fazer sair do corpo. “Evacuar humores.” (Constâncio)│Despejar, esvaziar, sair de (algum lugar): “Os confederados evacuam a posição.” (Rui, C. Inglaterra, 240.) “Evacuar a praça.” (João Ribeiro.)│Intransitivo — Expelir as matérias excrementícias: “O remédio fê-lo evacuar consideravelmente.” (Aulete.)│Pronominal — Sair espontaneamente: “Com o tratamento evacuaram-se os humores.” (Idem.)»

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Ortoépia: «saudação»

Troque de dicionário

Um leitor, José P. Martins, diz-se «espantado» por ter ouvido ontem à noite, no primeiro comentário oficial do PS aos resultados do referendo, o Dr. Vitalino Canas pronunciar «sau-dação», «quando todos sabemos que não é essa a pronúncia-padrão». Discordo de si, posso?, caro leitor. Os melhores dicionários portugueses — e sim, viu bem: não é o caso do Dicionário da Academia — registam a pronúncia deste vocábulo (e de saudade e saudar) com sinérese e com diérese, ou seja, com prolação do ditongo (sau) ou das duas vogais (sa-u), pois ambas são admissíveis. É como lhe sugiro no título: uma vez que não pode retroagir, trocando de professora da escola primária, ao menos troque de dicionário.

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Tempo e clima

Mau tempo no canal

Na RTP-1, os preparadíssimos Pedro Magalhães e José Alberto de Carvalho conjecturavam que tinha sido o «clima» a impedir maior afluência às urnas. Em Pirescoxe, Jerónimo de Sousa lamentava que o «tempo», e em especial o «tempo agreste», diminuísse a participação dos cidadãos no acto eleitoral. Na verdade, os Antigos usavam o vocábulo «clima» para designar o «ângulo» (τό κλίμα, em grego) formado pela órbita do Sol com um determinado local da Terra, a chamada latitude. Daí passou a significar a «situação geográfica» e, mais tarde, «zona terrestre, região», como alguns dicionários ainda hoje registam. É nesta última acepção que o P. António Vieira, como outros autores dos séculos XVI e XVII, emprega a palavra: «[…] e nas mesmas províncias e climas, onde nada lhe he estranho» (História do Futuro, VI). Só mais tarde o significado de «conjunto de condições meteorológicas de uma dada região» surgiu.

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Informação


Para os amantes da língua espanhola — e devíamos ser todos, para conhecermos melhor a nossa própria língua —, deixo aqui a hiperligação para a Fundación Español Urgente.

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Sumatra ou Samatra?

Caro Diário de Notícias

      «A rainha Sofia não compareceu à cerimónia por estar de regresso de uma viagem à Indonésia, onde visitava os centros de cooperação espanhola às vítimas do tsunami na ilha de Sumatra» («Corpo de Erika Ortiz cremado em Madrid», Sónia Correia dos Santos, Diário de Notícias, 9.2.2007, p. 24). Já uma vez aqui tinha referido a ortografia deste topónimo, mas em abstracto. Agora, a oportunidade de eu escrever algo mais e a jornalista estropiar a ortografia surgiu finalmente. Vou socorrer-me, mais uma vez, do que escreveu sobre a matéria Vasco Botelho de Amaral na obra Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa: «Lembrarei o caso de Samatra. Os Portugueses designavam assim aquela ilha da Indonésia, à qual o mesmo Camões chamou, em Os Lusíadas, a “nobre ilha”.
      Os nossos antigos escreviam Çamatra, com o c cedilhado inicial (hoje abolido), e posteriormente usou-se o s, mas sempre na sílaba figurou um a. (Por exemplo, João de Barros, nas Décadas, “descreve a situação da Ilha Çamatra”.)
      Apesar de a tradição portuguesa nos dar, portanto, a sílaba inicial Sa…, não será difícil ler-se em mapas, em livros, em revistas, em jornais, a escrita Sumatra, com Su…!      Mesmo naqueles casos em que as vicissitudes históricas reflectem mudança de dominador, aconselha a moral das línguas se não substituam levianamente os chamadoiros geográficos» (p. 75). «Não se percebe, aliás, porque é que nós somos tão solícitos em imitar os estrangeiros, e não imitamos os seus nacionalismos de linguagem. Veja-se, por exemplo, se os Ingleses dizem Cidade do Cabo, à portuguesa. É o dizem! Cape Town, e só Cape Town. Fazem eles muito bem» (p. 76).


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Barbarismo: «biópico»

Falta de palavras


      Como não são apenas os jornais de referência que influenciam a língua que se vai falando, cito hoje uma frase do 24 Horas (3.2.2007): «O actor [Johnny Depp] está em conversações para vir a interpretar o papel de Freddie Mercury num filme biópico sobre os Queen, que deverá ser produzido por Robert de Niro.» Quantos leitores daquele jornal saberão o que significa o barbarismo «biópico»? Em inglês, é uma amálgama, a partir de bio(graphical) + pic(ture). Em português não é nada nem é necessário. Bem dizia Vasco Botelho de Amaral: «Infelizmente, não é só a introdução desordenada de vocábulos estranhos que se verifica nas páginas dos jornais e nas emissões radiofónicas. A estrutura da Língua, o jeito característico da sintaxe portuguesa vai-se todos os dias alterando em subordinação às construções estrangeiras» (Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa, edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946, p. 125).

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À deriva

Ou seja?...

À pergunta sobre como vê a cidade de Lisboa, António Mega Ferreira declarou no programa Palavra de Honra, da TSF: «À deriva, à deriva. Lisboa está completamente à deriva.» O entrevistador perguntou por nós: «O que é que isso quer dizer concretamente?» A propósito desta mesma locução — à deriva —, já Vasco Botelho do Amaral escreveu: «O caso de à deriva é simbólico. Esta locução bárbara do nosso dialecto jornalístico corresponde em português escorreito a — ao sabor das ondas, à mercê das ondas. Outras vezes aparece à deriva com os sentidos seguintes: ao som da água; ao sabor da corrente, ao grado da corrente, ao impulso da maré; ao deus-dará, à toa, ao reboque, ao acaso, sem destino, à ventura, etc.» (Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa, edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946, p. 133).

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«Bizarro» é galicismo?

Depende

      Por vezes, lemos que o vocábulo «bizarro» é um galicismo na nossa língua, devendo ser evitado. Ora, a verdade é que em certas acepções constitui galicismo, mas não noutras. José van den Besselaar, na obra que já aqui citei, lembra que este adjectivo significava, originariamente, «iracundo, furioso»; depois, «fogoso, brioso» e, mais tarde ainda, «luzido, elegante, loução». É nesta acepção, lembra ainda este autor, que Vieira emprega a palavra na História do Futuro: «exercitos tão notaveis por seu numero e grandeza, como bizarros por seu luzimento». O sentido de «excêntrico, esquisito, estranho» é uma inovação do francês, que se poderá datar do início do século XVI, a qual acabou por entrar em todos os idiomas da Europa, inclusive em italiano, língua do étimo. Nesta língua, bizzarro, que inicialmente era apenas «iracondo, collerico», por influência do francês passou a ser também: «che colpisce per stranezza e originalità, fuori dal comune, stravagante: temperamento bizzarro, gusti bizzarri, mio nonno è un vecchietto bizzarro
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Conjunção «apenas»

Ciberdúvidas corrigido


      Na passagem do antigo para o novo Ciberdúvidas, as perguntas arquivadas poderão ser as mesmas, mas as respostas são outras. Por exemplo, a uma pergunta sobre o uso da conjunção «apenas» em português (consulente Andreia Dutra, resposta em 7.4.2006), a resposta do antigo Ciberdúvidas, através do consultor R.G., foi: «A frase "Apenas cheguei a casa, telefonei-lhe" certamente poderá ter algum contexto em que seja possível [e, portanto, correcta]. Não me parece é que possa ser equivalente a "Assim que cheguei a casa, telefonei-lhe", "Logo que cheguei a casa, telefonei-lhe" ou "Mal cheguei a casa, telefonei-lhe", por exemplo.» No Ciberdúvidas renovado, a mesmíssima pergunta já recebeu (e só espero que a consulente ainda seja viva) estoutra resposta: «Pode, sim. Para além de advérbio com o significado de "somente; unicamente; exclusivamente" e "dificilmente; só; mal", apenas também pode ser uma conjunção precisamente com o significado que lhe atribuem os espanhóis na frase que nos é apresentada: "logo que; assim que; mal".»
      Gosto mais do novo Ciberdúvidas; pelo menos neste caso, a resposta é mais correcta. Aliás, o consultor poderia ter abonado a sua resposta com alguma frase de um autor português. José van den Besselaar, estudioso da obra do P. António Vieira e organizador de uma edição crítica e comentada da História do Futuro, escreve no opúsculo «Achegas para o estudo lexicológico da obra vieiriana»: «Apenas: Este advérbio emprega-se ainda hoje em dois sentidos diferentes: a) = “somente”; b) = “custosamente, dificilmente”. A segunda acepção é a original, sendo ainda de uso corrente em frases do tipo: “Apenas cheguei a casa, recebi um telegrama”, onde “apenas” tem o valor conjuncional de “logo que”. Registamos aqui quatro passos em que “apenas” tem o sentido de “custosamente, dificilmente” (cf. à peine, em Francês):
HF IX 307 [isto é, edição crítica de a História do Futuro, Capítulo IX, p. 307] “apenas se acha cousa que não seja contradição da verdade”; XII 1064 “apenas dão passo que não seja com o remo na mão”; X 58 “Cousa maravilhosa he, e que apenas se póde entender, como…”; XII 1035-1036 “[gente] que, por ser tão pouco conhecida e apenas nomeada nos escritores,…”»
      Talvez se possa tão-somente condenar, como a propósito do uso do substantivo «medidas» faz Vasco Botelho de Amaral na obra Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa (edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946), o castelhanismo que a abusada repetição, nas traduções, constitui. A quem discordar só resta debater a questão com o imperador da língua portuguesa — em espírito ou em obra.


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Léxico: foróptero

Imagem: http://en.wikipedia.org/

Assim vejo bem!

Não estará registado em muitos dicionários, mas, mais simples ou mais complexo, manual ou electrónico, é usado todos os dias. Chama-se foróptero ou refractor (em inglês, phoropter ou phoroptor*) e é um instrumento de trabalho de oftalmologistas e optometristas. O foróptero contém lentes de graduações diferentes, que podem ser movimentadas para o campo de visão. O médico vai-nos fazendo perguntas sobre a nitidez com que vemos as letras na escala de Snellen (e para isso convém saber de cor a tabela antes de entrar no consultório. Estou a brincar) conforme as lentes vão sendo experimentadas.

* Na realidade, trata-se de mais um caso de derivação imprópria, como outros que já aqui referi: Phoroptor é a marca registada de um refractor da Reichert, Inc., antiga Leica.

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Informação

Continuando o meu papel de divulgador, gostava de deixar aqui uma hiperligação para o Corpus Lexicográfico do Português, trabalho que muito prestigia a Universidade de Aveiro. Ver aqui.

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Expressão «pro bono»

Prò boneco

«A Plataforma Artigo 65, movimento cívico que apadrinha o direito à habitação, está a recrutar advogados para trabalhar pro bono na área da defesa à habitação» («Advogados para uma causa», Sol, 3.2.2007, p. 38). O universo de leitores do Sol (230 mil leitores? Hum…) há-de ser muito heterogéneo, naturalmente, mas desconfio que somente uma escassa minoria saberá descodificar cabalmente a mensagem. Se mesmo em ambientes universitários (se a comparação for boa…) uma triste maioria ignora, por exemplo, o significado da abreviatura latina v. g., tão comum, não espero que os leitores do Sol sejam diferentes. A estrita obrigação do jornalista — na verdade, é esta parte que mais interessa — era explicar o que significa a expressão pro bono. Fazendo-o, cada seria mais improvável poder suspeitar-se com razão que os leitores não sabem. Pro bono (por pro bono publico) significa «para o bem» (público). Usa-se habitualmente, como no excerto da notícia citada, em relação aos advogados que trabalham voluntariamente a favor de uma causa, isto é, não cobram honorários.

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Se apassivante

Se

Aflita, uma professora telefonou-me: «Como se deverá escrever: “Convoca-se as professoras” ou “Convocam-se as professoras”? Numa acta escrevi da primeira forma, mas agora estou com dúvidas. Lembrei-me do on francês.» São poucos os estudiosos em Portugal a afirmarem que é indiferente. A língua portuguesa, já aqui o escrevi uma vez, tende sempre para a concordância. Ora, nesta frase o sujeito é professoras — plural. Logo, para o plural deverá ir o predicado. Optar pela primeira forma significa considerar que o se destas expressões é pronome indefinido sujeito, e não é claramente assim. O se é uma partícula apassivante, ou seja, torna passivo o verbo, como se se dissesse «as professoras são convocadas».

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Tradução do inglês

E onde é isso?

«Tal como no resto da União Europeia, o número de muçulmanos residentes nos dez países membros mais recentes (Chipre, República Checa, Estónia, Hungria, Látvia, Lituânia, Malta, Polónia, Eslováquia e Eslovénia) é difícil de precisar, essencialmente por causa da imigração ilegal.» Quem discorda de semelhante afirmação? Mas onde fica a Látvia? Já não estranhava que alguns tradutores escrevam «Beijing», «Burma», «Anvers», etc. «Látvia» nunca tinha visto. Já agora, porque não em letão: Latvijas Republika?
«As with the rest of the EU, the number of Muslims residing within the ten newly acceded states (Cyprus, the Czech Republic, Estonia, Hungary, Latvia, Lithuania, Malta, Poland, Slovakia, and Slovenia) is difficult to pinpoint primarily because of illegal immigration.»
A propósito, já está em linha o Dicionário de Gentílicos e Topónimos.

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Pronúncia: distocia

Abortos linguísticos

Em conversa com uma fisioterapeuta, desta vez não a propósito de pólipos mas de partos, lá tive de ouvir mais um abastardamento da língua: /distócia/. Quem sabe se ela não escreve mesmo assim, com acento agudo? Já vi. Isto faz-me lembrar uma pergunta que certa vez uma consulente fez ao Ciberdúvidas: «Lista de palavras falsas esdrúxulas.» Isto é que é doçura… A merecer a resposta que teve: «Tal lista depende da ignorância de cada um!» O vocábulo «distocia» é grave; logo, pronuncia-se /distocia/. (Já aqui falei, também a propósito da linguagem médica, dos compostos em -emia, que são sempre graves.) Vem do grego, sim, como o seu antónimo, «eutocia», mas através, provavelmente, do francês, e nesta língua não há proparoxítonos. Claro que há excepções, pelo que dou a palavra a Vasco Botelho de Amaral (sempre tão referido e sempre tão pouco divulgado): «Cabe notar [o autor di-lo a propósito do vocábulo «Oceania»] que em português houve sempre hesitações na acentuação de palavras em ia, principalmente quando se trate de sufixo.
A terminação -ia em grego é tónica; e no latim, átona. E aconteceu até que umas palavras se fixaram como graves e outras como esdrúxulas. Por exemplo, temos em português: filosofia, homilia; mas, por outro lado, ficou-nos história.
Isto não se dá só com os nomes comuns. Por um lado, diz-se Hungria, Normandia, Lombardia, Berbéria, Alexandria, Antioquia, Turquia, Samaria. Por outro, temos Áustria, Itália, Suécia, Somália, Dalmácia, Capadócia, Fenícia, Ásia, etc.» (Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa, edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946, pp. 77-8).

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Jogo de palavras

Imagem: http://sailorinthedesert.blogspot.com/

Novo-riquismo linguístico

Muitas muçulmanas francesas usam lenço na cabeça. Não o funéreo chador (do persa چادر, que aparece transliterado, consoante a língua, como chaddar, chuddar, tchador, tschador…) negro das oprimidas mulheres afegãs, que as cobre da cabeça aos pés, mas colorido e moderno. Como são ricas, chamam-lhe — improváveis leitoras de José Sesinando — «tchadior», numa referência ao estilista Christian Dior.

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Semântica: gandaia

Não é bem assim...

«Então porque é que os patinhos amarelos surgem na capa de uma das mais prestigiadas revistas americanas, a “Harper’s” (Janeiro)? A resposta vem em 22 páginas de texto da autoria de Donovan Hohn. E que texto, meu Deus! Uma extraordinária reportagem de investigação sobre uma odisseia marítima que serve também de trave mestra de um poderoso ensaio a um tempo filosófico e ecológico. E, ainda, um estupendo elogio à arte da gandaia (vasculhar as praias à procura de objectos lançados pelo mar) («20 mil patinhos à deriva», Miguel Calado Lopes, Expresso/Única, 20.1.2007, p. 92). Dito assim, até parece que esta é a definição de gandaia: vasculhar as praias à procura de objectos lançados pelo mar. Mas não é, e qualquer dicionário o confirma. A gandaia é a procura no lixo de coisas que tenham algum valor — na praia ou nutro sítio qualquer. Também significa, e o étimo espanhol, gandaya, é esta ideia que exprime, andar daqui para ali, sem ocupação. Daí, em português, as acepções de ociosidade, vadiagem, mandriice. Aqui em Benfica — um pouco longe da praia, convenhamos — há um gandaeiro que aparece assiduamente à boca da noite. Empurra um carrinho de mão também ele construído de despojos e, previdente, vem munido de uma lanterna para esquadrinhar o lixo que encontra junto dos ecopontos.

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Tradução do espanhol

Benfazer mas mal obrar

Há tempos, chegou-me esta frase: «El Osiris, Señor de los Muertos, el Ounofer o Bienhechor, reina en un limbo pálido, gris, debajo del suelo en el Oeste, hacia el Poniente.» O tradutor português entendeu vertê-la assim, para vergonha de todos nós: «Osíris, Senhor dos mortos, Uennefer ou Bienhechor, reina num limbo pálido, cinzento, debaixo do solo no Oeste até Poente.» Para quem tem somente umas tinturas da matéria, claro que «Bienhechor» é tão estrambótico como «Uennefer» — e vá de deixar ir assim. Pode ser que o leitor não perceba. Com sorte, talvez o revisor repare. Não, não, estas últimas reflexões não as atribuo à consciência do tradutor. Na verdade, trata-se tão-só de ignorância. Sim, temos mesmo o vocábulo «hechor» em português, não sabia, caro leitor? Só falta encontrar no mesmo léxico o «bien» e macheá-los. Sim, «hechor» está — premonitoriamente, diria eu — no glossário sobre equinos e asininos. É o burro que se reserva para fecundar éguas, destinadas à criação de burras. Hechor de hechar, lançar o burro às éguas.

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Informação


O Fundo Antigo da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) está agora disponível online, aqui. É constituído por um acervo histórico e literário de obras — 70 mil páginas digitalizadas — maioritariamente publicadas antes de 1945.

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Verbo «colmatar»

Lacunas

      Recentemente, um leitor lamentava o uso que actualmente se faz do verbo colmatar, com significados tão distantes dos que os dicionários registam e a própria etimologia autoriza. Contudo, já Vasco Botelho de Amaral, na obra Subtilezas, Máculas e Dificuldades da Língua Portuguesa (edição da Revista de Portugal, Lisboa, 1946), registava outros desvios, mostrando-se tolerante. Leia-se.

«“O inimigo fez uma infiltração nas nossas linhas, mas foi imediatamente colmatada.”
Infiltração colmatada” — repito para vincar bem a ruga semântica.
Vejamos as andanças elásticas desta palavra. Colmare, em italiano, é encher até ao cúmulo, acumular, e colmata, terreno atulhado, aterro. Consta que do nome dos aterros que se faziam na Toscana passou a palavra ao francês, colmatage, colmater. Posto que a sua acepção simples esteja em aterro, terraplenagem, o certo é que o galicismo colmatagem ganhou, em terminologia militar, o significado de aterro por depósito lodos, depósito este que constitui, ou constituía, bom obstáculo ao avanço das tropas inimigas. Ora, tendo presentes todos os matizes de significado de colmatar, colmatagem, a nossa imaginação admite a elasticidade de “infiltrações imediatamente colmatadas”. Mas a verdade é que se tem de reconhecer, no fundo deste género de estilo militar, a necessidade de, nos comunicados, se usar de linguagem um tanto imprecisa, vaga ou, pelo menos, linguagem um pouco sibilina, como convém ao segredo das operações castrenses.
Os dicionários portugueses, e a maior parte dos estrangeiros, não nos dão estes sentidos de colmatar, colmatagem, de colmater, colmatage, etc. E até achei inocente este comentário que vem em Cândido de Figueiredo — “Em vez de colmatar, e deriv., mais português é atulhar, entupir”.
Inocente, porque mal pensava o Mestre, no seu tempo, na esperteza dos comunicados de guerra futuros onde se falaria de “infiltrações colmatadas”. Se se dissesse “infiltrações atulhadas ou entupidas”, lá se ia a elasticidade preciosa da colmatagem…» (pp. 161-2)
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