Verbo rever. Erros

Da Rússia, com ruído

      Antena 1, noticiário das 15 horas, José Milhazes: «Moscovo ‘tá, claro, a seguir atentamente todas as investigações que serão feitas pelas autoridades inglesas. E as autoridades russas ‘tão-se a dizer abertas a colaborar de todas as formas para que se deixe de pensar que a morte de Litvinenko [Александра Литвиненко] tenha sido obra dos serviços secretos russos ou por ordem das autoridades russas.» Nem quero falar da deselegância do «’tá-se» e «’tão-se», vou directamente ao rebuscado «[es]tão a dizer abertas». Uma forma menos tortuosa e mais elegante seria, por exemplo, «dizem-se abertas» ou «declaram-se abertas».
      Embora fale demasiado depressa, a dicção de José Milhazes não é das piores, convenho, mas desta vez, com o frio que está na Rússia, talvez tivesse a língua entaramelada. Por exemplo, a forma verbal «serão» é, mesmo depois de ter ouvido dez vezes a gravação, meramente hipotética. Se se tratasse de Evgueny Mouravitch, não tínhamos de nos mostrar tão exigentes, mas sendo um português, jornalista, não podemos — e o elidido «nós» não é um plural majestático, somos mesmo todos nós, ouvintes — fingir que está tudo bem. Com tudo o que de lábil a oralidade tem, é claro que o grau de exigência é diferente do que teríamos em relação à escrita, mas ainda assim há limites. E, a propósito, acabei de saber que, no início desta semana, um escritor, no lançamento de mais um livro, agradeceu enfaticamente a alguém que «reveu o texto». Este sim é um erro grave, imperdoável num escritor. Não é um lapsus linguae, é ignorância.

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Desfiar e desfilar

Outro rosário

      Jornal 2:, 28.11.2006, Alberta Marques Fernandes: «Outra obra sobre a história recente de Portugal é assinada por Almeida Santos. Em dois volumes, o ex-presidente da Assembleia da República desfila as memórias do processo de colonização e descolonização das antigas províncias ultramarinas. O autor diz que já é possível essa abordagem porque o tempo ajudou a arrefecer a História.»
      Deveria ter dito «desfia as memórias», isto é, narra, expõe em sequência, conta, pois que o verbo desfiar, em sentido figurado, significa isso mesmo. Se quisesse mesmo usar o verbo desfilar, em acepção semelhante seria intransitivo, e então diria, por exemplo: «Nesta obra de Almeida Santos, as memórias desfilam, apresentando um quadro do que tem sido a política portuguesa dos últimos trinta anos.» É parecido, sim, mas somente assim estaria correcto.
      Alberta Marques Fernandes tem uma óptima dicção e o timbre de voz é muito agradável. Contudo, na pausa gráfica, obrigatória, que antecede a frase «Em dois volumes…», não se deteve, dificultando a compreensão da frase. Por outro lado, é comum respirar ruidosamente antes de começar cada notícia, o que é desagradável. Vejamos o que diz João Paulo Meneses a propósito da respiração: «Resta dizer que são conhecidos vários exercícios práticos de relaxamento, a começar pela necessidade de estar bem sentado — falar ao microfone de pernas cruzadas ou com a cadeira desnivelada relativamente à mesa é caminho certo para respirações turbulentas» (Tudo o que se passa na TSF — … para um «livro de estilo», p. 114). Antes, escreve o autor: «Como se não bastasse, o microfone é cruel, porque amplia os ruídos…»


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Rua do Ouro

Rua Áurea!!!

      A concentração de misteres, lojas, estabelecimentos, etc. de feição comum por certas ruas na Lisboa antiga chegou até nossos, como se vê da rua dos Bacalhoeiros, dos Fanqueiros, da Prata, do Ouro, etc.
Rua do Ouro é, pois, nome tradicional, bem de Lisboa. Artificializou-se, porém, o chamadoiro toponímico em rua Áurea, preciosismo que nada justifica. Já houve quem notasse que, assim como se dizia em latim a Via Appia, assim também nós podemos dizer Rua Áurea.
      Argumento descabido, pois Appia ligava o seu nome a Ápio Cláudio, a Appius Claudius, que a mandou construir.
      Ora, o nome de rua do Ouro não se pode substituir em Áurea, porque nenhum Aurus a mandou fazer.
      Áurea é atributo: do Ouro é determinativo, com base histórica.
      Os novos-ricos da linguagem lisboeta que chamam Áurea à rua do Ouro podiam fazer o favor de chamar rua Argêntea à da Prata, rua Fanqueiral à dos Fanqueiros, rua Bacalhoeira à dos Bacalhoeiros, etc.


Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 3, 1950.


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Chapéu dos judeus

Imagem: http://www.jtsa.edu/
Discriminações

      Uma leitora pergunta-me se conheço o nome que se dá ao chapéu com que são representados os judeus da Idade Média. De facto, não encontrei o termo em português, se é que existe. Trata-se de um chapéu cónico, como os que se vêem na imagem, e era usado como sinal infamante, tal como a rodela (roda de feltro amarelo ou vermelho costurada nas vestes, no peito ou num ombro) e a estrela amarela. Sei é que esse chapéu cónico era designado pela expressão latina pileus cornutus, e assim é referido ainda hoje na historiografia. Os vocábulos usados em inglês e em alemão são meramente atributivos: Jewish hat e Judenhut, respectivamente.



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Descriminar e discriminar

Não confunda!

      «Descriminar, discriminar. O primeiro vocábulo quer dizer — lavar do crime, tirar a culpa. O segundo, dado como arcaico por Roquete, significa — discernir, distinguir, separar. O prefixo des exprime negação ou privação; portanto, descriminar por discriminar é erróneo.»

(Do Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa).

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 3, 1950.

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Pleonasmos

Da escrita à fala

      TSF, noticiário da meia-noite e meia, 26.11.2006, Bárbara Guevara: «Isto numa altura em que o Governo vai inaugurar a via tripla do IC19 até ao Cacém. Surge assim a problemática das acessibilidades à Grande Lisboa, com um tráfego médio diário superior a 100 000 veículos por dia. O IC19 só é superado pela ponte 25 de Abril como principal via de acesso à capital.»
      «Diário por dia»? Se a jornalista falasse de improviso, compreendia-se este pleonasmo tão evidente, ainda mais indesculpável pela proximidade entre os termos sinónimos. Com mais atenção poderá sempre evitar-se este defeitos de expressão.
      Com este post, passo a prestar mais atenção à oralidade. Usarei sempre gravações que transcreverei e arquivarei, para esclarecer quaisquer dúvidas. Bem podem invocar São Cristóvão (christos + pherein, «o que transporta Cristo»), patrono dos peregrinos e viajantes, mas também santo que preside aos erros da fala e aos abusos de linguagem.


«Pleonasmo
Ret.
O pleonasmo é uma forma de redundância que consiste em empregar numa frase termos do mesmo sentido (redundantes) ou em repetir uma ideia num enunciado:
descer para baixo; ver com os olhos; uma duna de areia; monopólio exclusivo.
Por vezes o pleonasmo é utilizado propositadamente para criar um efeito de estilo, de ênfase:
Eu vi com os meus próprios olhos!
O pleonasmo é uma noção gramatical; tautologia é a repetição de uma ideia.»

Olívia Maria Figueiredo e Eunice Barbieri de Figueiredo, Dicionário Prático para o Estudo do Português, Edições Asa, 1.ª ed., 2003, p. 349.

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Do ponto de vista

Um erro luxuoso

«Sob o ponto de vista…»

      Sob o ponto de vista metafísico, sob o ponto de vista político, sob o ponto de vista da arte pura, etc., etc. — eis um jeito de expressão que a todo o instante se exibe, ao cuidar-se de transcendentes problemas. Erro crasso! Emende-se para — do ponto de vista, ou no ponto de vista.
      Realmente, a gente vê as coisas dum ponto de vista, ou num ponto de vista, e não «debaixo» desse ponto de vista, «sob» esse ponto de vista.
      Se compararmos a expressão noutras línguas, vemos que em inglês se diz correcta e logicamente — from the point of view, e nunca under the point of view. Por outro lado, a Academia Espanhola criticou a expressão bajo este punto de vista, que emendou para desde este punto de vista.

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 3, 1950.

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Neologismo: portajar

Invenções

      A provar que a língua portuguesa não sofre do imobilismo de que alguns, desatentos ou desmemoriados, a acusam, eis aí, desde há algum tempo, o verbo «portajar», a significar estabelecer portagem em via rodoviária. Ainda tem, mas é quase sempre assim, uso restrito entre os burocratas, os políticos e os jornalistas, mas não lhe falta nada para vingar. O único perigo que poderá ter de enfrentar é a oposição de alguém que, ao vê-la empregada no texto da lei e não dicionarizada, a queira escorraçar, incitando à desobediência dessa mesma lei. Já aconteceu.

      «Segundo o porta-voz do movimento, José Carlos Barbosa, o estudo está “claramente mal feito”, pelo que, se o Governo não recuar na decisão de portajar a ligação entre Viana do Castelo e Porto pela A-28, as populações serão mobilizadas para «mostrar na rua a sua revolta e descontentamento» (Diário Digital, 22.11.2006).


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Pronúncia: «medíocre»

Não diga MEDIÚCRE!

      É: — me – o – cre.
      O o era breve em latim.

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 1, 1949.

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Particípio passado duplo

Cuidado com os temas!

      Apesar de considerar que os diversos temas, seis ou sete, tratados em cada emissão não têm muita articulação entre si, no que o telespectador perde, pois retém menos informação, acho que o programa Cuidado com a Língua! cumpre bem com o que deve ser um serviço público. De lamentar é as outras televisões não terem programas semelhantes, de divulgação e defesa da língua portuguesa. O meio, contudo, tem limitações. Pergunto a mim mesmo que utilidade pode ter tratar em televisão um aspecto da língua como o do duplo particípio passado. Não nos esqueçamos que o público-alvo não são os especialistas da língua. O ritmo a que tudo é tratado — e não estou a falar da voz off de Maria Flor Pedroso, que é excelente, bem colocada, que não nos deixa cansados como a de certos colegas seus da rádio, que falam a mata-cavalo — não é o mais adequado para falar da língua. É, ainda assim, de aplaudir, pois põe ao alcance de todos, quase imperceptivelmente, uma solução para dúvidas de sempre que nunca se preocuparam em resolver.
      Bem fariam os responsáveis da RTP se mandassem publicar nos principais jornais, semana a semana, a transcrição das várias emissões do programa. Entretanto, deixo aqui a transcrição do tema relativo aos particípios passados duplos.

      «Será que se diz morrido ou morto? E, da mesma forma, matado ou morto? Matar e morrer são dois bons exemplos de verbos com duplo particípio passado. Matar, ter, haver matado; ser, estar morto; e morrer, ter, haver morrido; ser, estar morto. A diferença está no verbo auxiliar com que se conjugam. Nós tínhamos matado o cordeiro quando… e não Nós tínhamos morto o cordeiro quando. Foi morto por uma bala e não Foi matado por uma bala. Se não tivesse morrido tão jovem e não Se não tivesse morto tão jovem. Apareceu morto na praia e não Apareceu morrido na praia. Existem muitos outros verbos com duplo particípio passado, ou seja, com um particípio passado regular e um irregular:

Acender: acendido/aceso
Dispersar: dispersado/disperso
Dissolver: dissolvido/dissoluto
Empregar: empregado/empregue
Encarregar: encarregado/encarregue
Ganhar: ganhado/ganho
Imergir: imergido/imerso
Imprimir: imprimido/impresso
Pagar: pagado/pago.»

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Pronúncia: «período»

Não diga PERIÚDO!

      É: — pe – o – do.
     O o era breve em grego e em latim.

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 1, 1949.


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A moda das palavras: «evento»

Imagem: http://www.hbo.com/

Associação de ideias

      Cada vez que passo por Envendos, a caminho dos enigmáticos montes Hermínios, lembro-me sempre de duas coisas: de a determinada altura (não avanço uma data porque, como dizia J. M. Barrie, não sou suficientemente novo para saber tudo) os Portugueses, ou pelo menos alguns, terem descoberto a palavra «evento», embora lidimamente portuguesa porque bem latina; e da série Os Sopranos, em que durante vários episódios vimos o casal Carmela e Tony a insistir para que o filho mais novo, AJ, frequentasse certo curso de «event planning». O adolescente enjoado e indolente abespinhava-se sempre e perguntava que raio era isso. Também eu tenho um ódio de estimação a esta palavrinha inofensiva. Certame, acontecimento, iniciativa… tudo menos «evento».


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Ordem directa

É escritor?

Não abuse da ordem directa!

      Fénelon confessou que tal construção exclui toda a suspensão do espírito, toda a expectação, toda a surpresa, e muitas vezes toda a cadência majestosa!

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 1, 1949.


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Pluralização de apelidos

Dou-lhe 20 valores

      Dá gosto ver num texto de Marcelo Rebelo de Sousa (ainda que possa ser, estamos entendidos, emenda de revisor) a pluralização de apelidos, matéria que já aqui tratei. Leia-se: «O PCP vai convidar o Partido Comunista da Coreia do Norte para um Encontro Internacional, em Lisboa. É nestas coisas que se vê que o PCP, às vezes, parece os Bourbons. Não esquece nada mas também não aprende nada» («PCP igual aos Bourbons», «Blogue», Sol, 11.11.2006, p. 70). Claro que aquele «Encontro Internacional» não tem de estar em caixa alta e uma vírgula antes da adversativa vinha a calhar. Vejam como escrevem os Italianos: «Erano nell’antica roccaforte dei Borboni…» «Estavam no antigo bastião dos Bourbons…» Repare-se que o singular é «Borbone». Entre nós, há alguma relutância (e ignorância) na pluralização dos apelidos. Contudo, parece que por vezes os jornalistas, escritores e tradutores o fazem inevitavelmente, como neste título do Diário de Notícias: «Loureiros escolhiam árbitros para o Boavista» (Carlos Rodrigues Lima, 6.09.2006, p. 24). Se em vez da família Loureiro fosse a família Bonaparte ou Habsburgo, dificilmente escreveriam «os Bonapartes» ou «os Habsburgos». Felizmente há revisores.


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Topónimo: Samatra

Sumatra, não!

      Os próprios Ingleses reconhecem que foram os Portugueses que lhes deram a conhecer o nome de Samatra!

Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 1, 1949.

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Toponímia portuguesa

Sic probo…

      É-me frequentemente solicitada ajuda e pedida bibliografia sobre toponímia, uma preocupação constante de tradutores e de revisores. Sobre topónimos portugueses há uma obra interessante. Na realidade, é uma obra contra outra obra. Com o título Toponímia Portuguesa (Um Exame a Um Dicionário), para não enganar ninguém, da autoria de A. de Almeida Fernandes, autor de vasta obra, e editada, em 1999, pela Associação para a Defesa da Cultura Arouquense, pode ler-se numa nota inicial (Esclarecimento): «Elaborar um dicionário onomástico português, como o executou o Dr. José Pedro Machado, é uma deficientíssima aventura, toponimicamente: primeiro, porque se ignora na quase totalidade a toponímia rústica, a qual as matrizes prediais podem informar, ainda que mesmo elas com deficiências; depois, porque nada é possível sem respeitar-se a lei toponímica lógica ou da congruência, o que não faz aquele autor, que parece ignorá-la de todo (e, com ele, e como ele, os mais “explicadores” ou “etimologistas”, infelizmente), porque a lei fonológica, isto é, a científica, embora indispensável, está longe de bastar. […] Apenas me ocuparei dos nomes que o autor registou. A minha finalidade não é, pois, substituir o Dicionário Onomástico daquele autor por outro de minha lavra, mas simplesmente mostrar os seus erros e equívocos […].» A obra tem umas compactas 576 páginas de muita erudição e fundamentada discordância.


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Apostila: «bilhética»

Ou melhor

      Uma consulente do Ciberdúvidas, citando uma notícia publicada no jornal O Primeiro de Janeiro, quis saber se a palavra «bilhética» existe, pois que a não encontrou em nenhum dos dicionários que consultou. O consultor responde que se trata de um neologismo, avança com as ocorrências do termo no Google e acaba com a seguinte observação: «O significado desta nova palavra parece ser “estudo e planeamento de sistemas de bilhetes”.» Ora, no contexto da notícia que a consulente cita, não é seguramente nem parece ser esse o significado, e isso todos podemos ver. «Nova bilhética na STCP. No dia 1 de Janeiro do próximo ano toda a rede da STCP estará equipada com o sistema intermodal. A partir de hoje arranca uma fase de transição que permitirá aos clientes aderir à nova bilhética sem contacto. O passe e as senhas tradicionais vão acabar.» O mero adjectivo («nova») e a referência a uma «bilhética sem contacto» sugerem que não se trata do «estudo e planeamento de sistemas de bilhetes», mas do próprio sistema e dos bilhetes em si.


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Ortoépia: «rapsódia»

Não profira rapzódia!

      O psi grego de rhapsodía e o português ps lêem-se como ps, e não como pz.


Vasco Botelho de Amaral, in A Bem da Língua Portuguesa, 
boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, n.º 1, 1949.

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Ortoépia: «obsoleto»

Faça o obséquio…

      A convicção com que Vasco Trigo, no Jornal 2: de ontem, pronunciou «obzoletos» faz-me temer o pior. A dúvida sobre se é com e aberto ou fechado sabia que pairava em algumas mentes, nunca sobre o valor do s. Em relação à rádio, João Paulo Meneses (Tudo o que se passa na TSF — … para um «livro de estilo», Editorial Notícias, 2003) diz em relação aos «pequenos erros»: «Podemos rectificar de imediato mas também deixar seguir: se tivermos em conta que qualquer rectificação funciona como um alerta (redobrado) do próprio erro, então nestas pequenas gralhas a correcção não é necessária» (p. 269). Contudo, é comum, na rádio e na televisão, os profissionais corrigirem, se se apercebem e sabem que estão a incorrer em erro, silabadas. Ora, nestes casos o ouvinte ou o telespectador não volta a ouvir o erro — ouve apenas a correcção. Referir o erro, estamos de acordo, seria agravar as consequências do erro. Sei que há professores que incentivam os alunos a escrever num caderninho os erros e, à frente, a forma correcta das palavras. Na minha opinião, esta é uma prática antipedagógica.
      Voltando a «obsoleto», a única sequência obs- em que o s vale por z, mas isso devido a um fenómeno de assimilação, que não ocorreu neste vocábulo, é em «obséquio» (e palavras da família deste), que devemos pronunciar /obzéquio/.


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Citação

«A paradox is truth standing on its head to attract attention.»

«Um paradoxo é uma verdade de pernas para o ar, para chamar a atenção.»
Nicholas Falletta

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Lexicografia. Desprevenido

Não é o mesmo

      «Nuno está desprevenido, mas a namorada chega, entretanto, ao local e faz o pagamento» («Caça a alta velocidade», Sónia Graça, Sol, 14.10.2006, p. 32). Nem todos os dicionários registam, no verbete relativo ao adjectivo «prevenido», a acepção de «munido de dinheiro». Os que o fazem, fazem-no de forma diversa.
      Vejamos. O Dicionário Houaiss regista-o numa subentrada como acepção particular: «prevenido adj. que traz dinheiro consigo. Não pôde acompanhá-los ao restaurante porque não estava p.» O Dicionário da Academia, por seu lado, numa técnica que me parece menos apurada, consigna, também como acepção: «prevenido, a adj. Que está preparado. ± PRONTO. ≠ DESPREVENIDO. Não estava prevenida para fazer a conferência por isso fez apenas uma breve alocução. Não pôde comprar a camisola pois não vinha prevenido com dinheiro suficiente
      A maioria dos meus leitores poderá não estar sensibilizada para esta problemática. Contudo, é da máxima importância para um estrangeiro que esteja a aprender português e para qualquer criança até certa idade. Para vocábulos incomuns, é, está bem de ver, importante para qualquer pessoa. Suponhamos agora que um estrangeiro ou uma criança portuguesa só têm, por infausto acaso, a mais recente edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Texto Editores (e só refiro este porque o tenho à minha frente, não por qualquer animosidade ou difidência): não ficariam esclarecidos. Uma personagem de uma obra de Robert Walser diz a propósito de determinada situação: «Isto aconteceu nos Cárpatos, o que pode servir de desculpa.» Muitas coisas terão de mudar em Portugal, e entre elas os dicionários.


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O regresso do latim

Órfãos da língua

      Não conhecer um pouco que seja de latim é como estimarmos muito o nosso nome mas não querermos saber quem foram os nossos avós. Podíamos pensar que o erro colossal que foi tirar o Latim do currículo do ensino secundário em Portugal ainda foi uma consequência de esta língua ter perdido importância no seio da Igreja Católica, após o Concílio Vaticano II. (A propósito, deve dizer-se que os textos conciliares não decretaram, como muitas vezes se afirma, que se não usasse o latim na Igreja. Na verdade, o que se pode ler naqueles textos é: «Linguae latinae usus, salvo particulari iure, in Ritibus latinis servetur»*, Sacrosanctum Concilium, 36,1.) Na Igreja, o latim caiu em desuso, pela valorização que se deu às línguas vernáculas; no ensino em Portugal, foi escorraçado como coisa inútil. O certo é que, noutros países europeus, o latim se manteve nos currículos escolares e é considerado nuclear, mesmo na Grã-Bretanha, em que a influência do latim no inglês é incomparavelmente menor do que a que teve nas chamadas línguas novilatinas. Talvez com a reintrodução, embora condicionada, do latim na missa o Governo português, e em especial o Ministério da Educação, abra os olhos e reponha o estudo desta língua nos currículos, reparando um erro que tão nefastas consequências tem tido para todo o ensino.
      Termino citando um magnífico texto de Jorge Silva Melo («E sem latim?», Mil Folhas/Público, 17.11.2006, p. 5) sobre o mesmo assunto: «“Não se pode viver sem Rosselini!”, berrava nas ruas o cineclubista apaixonado de Bertolucci. E sem latim, podemos?
      Podemos ignorar o carrilhão que nos atropela a conversa, passar incólume ao lado dos fundamentos daquilo que pensamos, seguir o nosso caminho sem ver as pedras que os romanos (os escravos dos romanos, claro) transportaram, podemos ignorar tudo o que nos fez viver assim, bastardos, neste eterno presente nascido esta manhã na revista do dia? Podemos viver sem latim?»


*«O uso da língua latina, salvo direitos particulares, seja conservado nos ritos latinos.»


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Diminutivos em -zinho

A minha receita

      Um vizinho ficou desempregado e com a indemnização quer estabelecer-se com um negócio. Talvez um barzinho, alvitrou. Já há muitos barezinhos aqui no bairro, disseram-lhe as mulherezinhas lá de casa.
      Vejamos se a Dona Gramática concorda. O diminutivo (ainda há menos de um mês ouvi um escritor — um escritor! — dizer «diminuitivo») de «bar» é inequivocamente «barzinho». Já o plural pode dividir as hostes. O sufixo -zinho, amplamente analisado, em especial por estudiosos brasileiros, é muito mais complexo do que o sufixo -inho. Na verdade, é como se fosse um adjectivo colado ao vocábulo primitivo. O processo de pluralização de palavras com este sufixo é o seguinte: separe, no singular, o sufixo do vocábulo primitivo: bar-zinho. Seguidamente, ponha ambos os elementos no plural: bares-zinhos. Por fim, elimine o s da palavra original, e eis o diminutivo pluralizado: barezinhos. Como botãobotõezinhos; balãobalõezinhos; papelpapeizinhos; anzolanzoizinhos; colarcolarezinhos; florflorezinhas; pastelpasteizinhos; coronelcoroneizinhos; mulhermulherezinhas.
      Chegámos aonde eu queria: já vejo muitas cabeças a dizerem que não. O que acontece é que, em Portugal como no Brasil, se verifica uma tendência para limitar o plural dos substantivos terminados em -r à terminação da forma derivada: colarzinho/colarzinhos; florzinha/florzinhas; mulherzinha/mulherzinhas. Contudo, esta é uma forma anómala — legitimada, porém, pelo uso —, que foge à regra culta. Certo é que, ao contrário de outros estudiosos da língua, José Manuel Castro Pinto, no seu excelente Novo Prontuário Ortográfico (Plátano Editora) adverte: «Seria purismo injustificado escrever mulherezinhas e amorezinhos, até porque o plural se forma instintivamente numa relação directa: mulherzinha > mulherzinhas» (p. 60 da 3.ª edição da referida obra). Não afirma, como outros fazem, que seria incorrecto escrever «mulherezinha», porque não seria. Digamos que o purismo está para o erro como um defeito para uma doença: não há uma diferença de grau, mas de natureza.



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Língua e ciência

A nossa língua franca

      Digno de ponderada reflexão é o texto de António Fidalgo, professor da Universidade da Beira Interior, a propósito do uso do português na ciência, publicado no dia 12 do corrente no Diário de Notícias («O vernáculo e a ciência em Portugal», p. 7), de que tomo a liberdade de extrair o último parágrafo:

     «Portugal já teve uma época em que as suas elites liam e escreviam em francês. A Geração de 70 foi educada no francês, tal como em francês foram formados os positivistas lusos do final da monarquia e do princípio da república. Dessa formação científica que passou para o povo? Pouco efectivamente. Não se repita agora o erro com o inglês. A cultura científica da sociedade portuguesa tem de ser feita em português, porque só pode ser feita em português. É em português que vivem e pensam os portugueses e será na sua língua que terão de se cultivar cientificamente, caso essa cultura não seja postiça.»


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Palavras homófonas

De outiva

      A partir de determinada idade, dir-se-ia, as palavras homófonas* deixam de constituir um problema. Pelo menos, para quem não é analfabeto funcional. (A propósito, comungo inteiramente da opinião de que nunca se deverá fazer dobragens em Portugal, pois em muitos casos as legendas serão as únicas palavras, tirando a correspondência, os talões do Multibanco e a omnipresente publicidade, que algumas pessoas lêem em toda a vida.) Ontem, alguém escreveu qualquer coisa como «[…] da reforma cluniacense, traduzida na riqueza mobiliária — na altura incalculável — dos cálices, báculos, crossas e relicários». Logo se afirmou que havia ali um erro indesculpável: a ortografia da palavra assinalada, no sentido que o contexto exige, é croça. Ora, não é assim ou não é tão simples. Ainda no último programa do Prof. José Hermano Saraiva (infelizmente sem legendas…), lá apareceu uma croça: a capa de palha que se usa no campo para se abrigar da chuva. Ou terá sido uma crossa? Foi uma croça, não há dúvida. Há um relativo consenso sobre a matéria.
      E no caso que cito, o do báculo episcopal, como deverá ser? Croça ou crossa? Aqui sim, há dúvidas. Se o étimo for o francês crosse, crossa deverá ser. Se for do baixo latim crocia, devemos grafar «croça». Domingos Vieira, que a dá como proveniente do baixo latim crucia ou crocia, regista a ortografia croça (ou coroça, como variante). O mesmo e pelas mesmas razões diz Plácido Barbosa, entre outros. Por outro lado, não podemos esquecer que há quem lhe dê como étimo o germânico krukkja, o que legitimaria igualmente a grafia croça. Enquanto não houver um conhecimento mais aprofundado do étimo, prefiro seguir — até para ser coerente com a preferência pela locução crossa da aorta**, que já me vi na contingência de ter de escrever — a forma registada no Dicionário Houaiss: crossa.


* Relembro a definição: palavras homófonas são aquelas que têm o mesmo som, mas se escrevem de forma diferente, como «à», contracção da preposição com o artigo, e «há», forma do verbo haver. Podemos distinguir, como fazem os Brasileiros, entre homófonas heterográficas (ou, entre nós, apenas homófonas), que são as palavras que se pronunciam da mesma forma, mas que se escrevem de forma diferente, como acento e assento; aço e asso; cem e sem; censo e senso; cerrar e serrar; cervo e servo; cessão e sessão; cinto e sinto; concelho e conselho; coser e cozer; era e hera; nós e noz; paço e passo; vós e voz; etc., e homófonas homográficas (ou, entre nós, homónimas), que são as palavras que se escrevem e pronunciam da mesma maneira, mas têm significado diferente, como amo (verbo) e amo (substantivo); canto (verbo) e canto (substantivo); cedo (verbo) e cedo (advérbio); conto (verbo) e conto (substantivo); rio (verbo) e rio (substantivo); saia (verbo) e saia (substantivo), etc.

** É curioso, na verdade, que ninguém tenha dúvidas em designar o arcus aortae como «crossa da aorta», pela semelhança, a curvatura, que tem com o báculo episcopal. Neste caso, parece não haver dúvidas de que o étimo é o francês.


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Léxico: liceidade

Esta serve

      Há palavras que, embora virtualmente pudessem ser usadas de uma forma mais generalizada, ficaram ligadas a determinadas áreas. É o caso deste vocábulo de que hoje quero falar: liceidade. Uma busca no Google permite-nos saber que a única área do saber em que se usa, e não muito, é no Direito e, curiosamente, mais no que se refere às questões da bioética.
      De um relatório-parecer sobre a reprodução medicamente assistida (3/CNE/93), extraio o seguinte trecho: «Do ponto de vista ético, os embriões excedentários criam o mais grave dos problemas da FIVETE e ZIFT. Calcula-se que, só em França, existam actualmente 10 000 embriões excedentários congelados. Para muitos deles já não subsiste um projecto parental. Os destinos possíveis são: destruição, dação a um outro casal infértil ou uso para experiências de investigação não em seu benefício (ver II, 3) Existe, a nível mundial, uma irredutível controvérsia sobre a liceidade destes destinos, baseada na diversidade de opiniões acerca do estatuto do embrião — tem ele, ou não, a mesma dignidade da pessoa humana plenamente desenvolvida? Merece, ou não, a mesma protecção e respeito?» Está — condição para Mário Crespo a aceitar como legítima, acatável — dicionarizada. Em francês também existe, e com um campo de aplicação semelhante ao português: «LICÉITÉ, subst. fém. DR. CANON. Caractère d’un acte permis par la loi. Toutes les conditions sont observées pour que le sacrement soit administré conformément aux exigences de la morale et du droit canonique. […] la licéité et la validité posent des conditions à la fois dans le ministre, le sujet et le sacrement (Théol. cath. t. 14, 1 1939, p. 635). Prononc. : [liseite]. Étymol. et Hist. 1907 dr. canon. (Lar. pour tous). Dér. du lat. licere « être permis »; suff. -(i)té*; cf. le m. fr. licitité (1530 PALSGR., p. 237 b), dér. de licite*.» E no italiano: liceità. «L’essere lecito, l’essere permesso: la l. di un’azione, di un comportamento chiave di ricerca: liceità» (In De Mauro, um dos melhores dicionários de italiano online).


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Gentílico: fueguino

Imagem: http://www.larc1.com/

Terra do Fogo

      Cara Ivette Ferreira: o natural ou habitante da Terra do Fogo designa-se «fueguino», por estranho que, à primeira vista, possa parecer, já que foi Fernão de Magalhães a dar o nome de Terra do Fogo a este fim do mundo. Contudo, «fueguino» vem de «Fuego» — Terra del Fuego —, como está bem de ver.

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Léxico: conversadeira

Imagem: http://www.santos.sp.gov.br/
Vai falando…

      Outrora, muito antes de existir quase tudo o que define o nosso quotidiano e de se começar a construir em altura, numa tentativa de encaixar o maior número possível de seres humanos no espaço mais pequeno, algumas casas tinham assentos de pedra ou de alvenaria junto às janelas — eram as conversadeiras. Tipicamente portuguesas, as janelas de conversadeiras foram levadas para outras paragens, como, por exemplo, para o Brasil. A imagem que ilustra este texto é do Mosteiro e Colégio de São Bento, em São Paulo, Brasil, activíssimo centro cultural. Quem sabe se Frei Gaspar da Madre de Deus, um dos maiores historiadores do Brasil, não se sentou ali. Curioso, por outro lado, é o mosteiro pertencer aos beneditinos, ordem cujas regras insistem tanto no valor do silêncio.
     E, porque conversa puxa conversar, a verdade é que, em tempo de conversadeiras ou de chat rooms, todos sabemos que há conversas e conversas. O nosso adagiário reflecte-o:

Conversa comprida faz quem quer.
Conversa de amigos, roubo de tempo.
Conversa é valentia.
Conversa fiada não bota panela no fogo.
Conversa não resolve.
Conversando é que a gente se entende.
Conversação escandalosa argúi zelo danado.
Conversar com quem sabe porque descansa a gente.


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Verbo «externalizar»

Vamos pôr tudo cá para fora

      O leitor Nuno Magalhães pediu-me que comentasse o seguinte texto de Vital Moreira, publicado no passado dia 9 no blogue Causa Nossa, sobre a legitimidade do verbo externalizar.

«Susceptibilidades

      O excelente Mário Crespo (SIC Notícias) não gostou de ver a palavra “externalizar” impressa num diploma legislativo, achando que ninguém entende o seu significado. Fica-lhe mal a observação. Mesmo se ainda não dicionarizado (mas quanto tempo demoram os neologismos a entrar nos dicionários?), esse termo segue o padrão de formação de verbos a partir de adjectivos na nossa língua (externo>externalizar), tal como o paralelo “exteriorizar” (de “exterior”), sendo hoje correntemente utilizado no âmbito da teoria da gestão, incluindo na administração pública (“nova gestão pública”), para designar a substituição de serviços administrativos pela contratação de serviços a entidades externas, ou seja, a entidades privadas, constituindo portanto um dos meios privilegiados para reduzir o peso da Administração Pública.»

      Embora Vital Moreira o tenha explicado cabalmente, é de realçar que o verbo, que é um neologismo, está regularmente formado (o nosso léxico tem cerca de quatro centenas de verbos terminados em -lizar) e, aparentemente, faz falta, uma vez que tem um campo de aplicação específico, o da economia e gestão, no qual não existe outro que expresse o mesmo conceito. Ainda recentemente se podia ler no Jornal de Negócios a seguinte definição de externalizar (que, esta sim, merecia figurar como abonação na próxima edição do Dicionário da Academia): «Externalizar quer dizer converter organismos em empresas (como na empresarialização dos hospitais), fazer parcerias público-privadas (como nas estradas, nas SCUT) ou privatizar (como vender empresas de transportes). A saúde é externalizável? E a educação? E as prisões? E...?» («O Estado que merecemos», Pedro S. Guerreiro, 31.03.2006). E sim, fica-lhe mal, a Mário Crespo, a observação.
 

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Verbo abusar

Até quando, Catilina…

      O leitor Hugo Xavier pergunta-me se é correcto o uso que actualmente se faz ― que alguns jornalistas fazem, melhor ― do verbo abusar na voz passiva («a criança foi abusada», especifica o leitor). Dá depois como exemplo uma notícia do Correio da Manhã publicada no dia 7 do corrente, citando algumas frases: «[…] deteve indivíduo de 52 anos por abusar de deficiente […]»; «[…] homem de 38 anos por abusar ex-namorada de 43 […]»; «[…] por abusar mulher de 15, deficiente […]». Vamos por partes: o verbo abusar não é susceptível de ser usado na voz passiva, pois é preposicionado*. Quanto aos outros três exemplos que aduziu, é diferente: o jornalista usou o verbo na voz activa, o que é correcto, e usou-o com propriedade. Contudo, somente a primeira («abusar de deficiente») está correcta, pois apenas nela se usa a preposição que rege obrigatoriamente este verbo.


* Mas o P. António Vieira escreveu: «Amizades […] que no mundo se usam, e também nas que se abusam fora do mundo.» Regência hoje desusada.


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«Topikar» e «paklé»

Imagem: http://i14.ebayimg.com/
Em Goa, de chapéu

      Até meados da década de 1990, via no Metro, com alguma frequência, um senhor baixo, com cerca de 80 anos. Era impossível deixar de reparar nele. Em plena Lisboa de fim de século, apresentava-se imaculadamente vestido com roupas dos trópicos. Não apenas calças e casaco caqui, o que apesar de tudo não é ainda hoje invulgar, mas também e exoticamente com o típico chapéu colonial introduzido pelos Ingleses nas suas colónias africanas e asiáticas. (E em Portugal fabricado pela Real e Imperial Chapelaria a Vapor de Costa Braga & Filhos, com instalações na Rua da Firmeza, no Porto.) Tão tipicamente ocidental, como se sabe, que na Índia os Ingleses eram conhecidos por topikar, numa alusão ao facto de usarem chapéu. O que, aliás, tem paralelo com os Portugueses, que eram designados em Goa por paklé (singular: pakló), o que se devia ao facto de usarem, quando houve o encontro de povos, chapéus ornados com penas (pak, em concani). Ainda hoje, época que prescindiu de qualquer ornamento ou protecção na cabeça, os goeses que se reúnem na Praça da Figueira tratam ― sem saberem porquê, muitas vezes ― os brancos por paklé.


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Léxico: «gelaba» e «xeique»

Ao lado

      «Mohamed Ouakalou é um jovem marroquino de 26 anos, vestido com uma Djellaba, túnica tradicional do Sul de Marrocos» («Acabou-se o jejum. Muçulmanos celebraram o fim do Ramadão no Porto», Nuno Escobar de Lima, Sol, 28.10.2006, p. 36). Pois é, mas os dicionários registam gelaba e jilaba. «A associação de mesquitas de Sydney suspendeu por três meses o sheik Taj Din al-Hilali’s» («Sheik australiano lança polémica», Sol, 28.10.2006, p. 72). Pois é, mas os dicionários registam xeque e xeique.


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Cule, evolução semântica


[…] aqui, estou metido num hotel, e quando discuto,
é sobre câmbios — e quando penso, é sobre coolies.

Eça de Queirós em carta a Ramalho Ortigão, 1873

O nosso cônsul em Havana

      Quando um tratado anglo-espanhol de 1817 tornou ilegal o tráfico de escravos, que afinal só já perto do fim do século, em 1886, acabaria, Cuba precisou de crescente mão-de-obra para as plantações de cana-de-açúcar que substituísse os escravos com que tinha podido contar durante mais de 300 anos. Foi precisamente nesta altura que se pensou levar os cules, primeiro de Hong Kong e depois de Macau. Como o porto de Macau era território português, a questão da emigração passou a constituir uma preocupação do Estado português. Quando Eça de Queirós, nomeado cônsul de 1.ª classe nas Antilhas Espanholas, chegou a Havana, em Dezembro de 1872, à falta de outros problemas ou interesses, passou a analisar a situação de quase escravatura que os cules sofriam.
      A palavra «cule» na Índia significa apenas um carregador ou trabalhador braçal. Encontravam-se, naturalmente, na base da escala social (mas acima, numa sociedade tão complexamente estratificada, dos intocáveis), e por isso a determinada altura começaram a emigrar. Quando Gandhi estava na África do Sul, a palavra «cule» tinha uma forte conotação de desprezo, e todos os indianos eram designados cules. Os ingleses que estavam na colónia, numa demonstração de crassa ignorância, também chamavam samis aos cules, que é uma palavra que vem do tâmil e significa patrão, mestre (é o swami do sânscrito).


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Semântica: pontífice

O fazedor de pontes

      De alguma maneira, com as jornadas inter-religiosas de Assis, o papel do Papa João Paulo II (Bento XVI, como se sabe, manifesta algumas reservas em relação a estes encontros) cumpriu-se integralmente. Como também é sabido, a Igreja Católica herdou — não forjou — o termo latino «pontifex» para designar o papa. Pontifex era o construtor de pontes romano (pontis facere), que, nos collegia fabrorum romanos, detinha a primazia. Apesar de tudo, convenhamos, no contexto social, um construtor de pontes não passava de um vulgar artífice. Por isso, na verdade, o pontifex maximus que os imperadores e os papas vão juntar aos demais títulos tinha origem na designação de um alto funcionário romano com funções sagradas — fazia sacrifícios nas pontes (facere in ponte), pois as pontes eram consideradas, na Antiguidade, locais sagrados. Havia simultaneamente oito pontífices em funções e ao principal era dado o nome de pontifex maximus. Vem a propósito lembrar que a ideia de ligação, conexão, é tão intrínseca à religião que este substantivo vem mesmo de religare, religar.



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Anglicismo: «cópia»

O legendador copista

      A romancista espanhola Rosa Montero foi entrevistada por Paula Moura Pinheiro na edição do programa Câmara Clara da última sexta-feira. Quando, a determinada altura, se falou de Herman Melville e dos escassos exemplares que terá vendido do fabuloso Moby Dick, Rosa Montero afirmou que teriam sido «diecisiete ejemplares». O legendador achou que escrever «exemplares» não denotaria todo o esforço que terá feito para fazer a tradução. Logo, vá de escrever que foram «dezassete cópias». Contudo, «cópia», nesta acepção, é um puro anglicismo. Escusado será dizer que alguns dicionários já acolhem este significado — mas por distracção ou falta de critério, decerto.


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Uso da vírgula

Bem me parecia

      «Di conseguenza, l’amore per antonomasia — vale a dire l’eterno e increato Iddio — deve per forza essere mistero in supremo grado: deve essere il Mistero per eccellenza.» Ou seja, para o tradutor português: «Consequentemente, o amor por antonomásia — quer dizer o eterno e o incriado Deus — deve forçosamente ser mistério em supremo grau: deve ser o Mistério por excelência.» Quase bem. Na verdade, falta uma vírgula após a expressão explicativa «quer dizer». À semelhança de outras, explicativas ou correctivas, como ou melhor, digo melhor, ou antes, quero dizer, aliás, digo, ou seja, por exemplo, isto é, etc., em que também se deverá usar pelo menos uma vírgula a isolar do resto da frase.


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Tradução: «tramcar»

Imagem: http://upload.wikimedia.org/
Americanos em Lisboa

«Chora, s. m. (de Shore, antr.). Carro de tracção animal para transporte colectivo, usado em Lisboa nos fins do século XIX e princípios do XX» (Grande Dicionário da Língua Portuguesa).

      Por coincidência, numa mesma semana, deparei-me com um problema de tradução que também obrigou um leitor a pedir-me ajuda. A palavra em causa é tramcar. O contexto, em ambos os casos, mostrava que não se tratava de um eléctrico. (Para um brasileiro, porém, seria sempre e só «bonde».) Era de um veículo a tracção animal que se tratava.
      Mais uma infausta vez, é da qualidade de dicionários bilingues que estamos a falar. O meu leitor usara uma edição, que não identificou, do Dicionário Inglês-Português da Porto Editora. Neste dicionário, como tradução do vocábulo tramcar regista-se apenas «eléctrico». Ora, a verdade é que sendo puxado por muares, uma ou duas parelhas, não são eléctricos. Estes veículos chamavam-se, em Portugal, americanos. Em Lisboa, a primeira linha, entre Santos e Santa Apolónia, abriu a 17 de Novembro de 1873. O último parágrafo d’Os Maias fala de uma corrida de Carlos e de João da Ega para apanharem um americano: «De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então, para apanhar o americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.» No Porto, a linha de americanos abrira mais cedo, a 9 de Março de 1872. Uns anos mais tarde, alguns destes americanos (fabricados, alguns, na Inglaterra pela Starbuck Car & Wagon Co. Ltd, Birkenhead) foram adaptados a eléctricos.
      Carlos do Carmo canta um fado, com letra de Ary dos Santos, «O Amarelo da Carris», através do qual ficamos a conhecer outro nome para este veículo de tracção animal: «O amarelo da Carris/já teve um avô outrora,/que era o chora./Teve um pai americano,/foi inglês por muito ano,/só é português agora.»

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Tradução: «pechina»

Imagem: http://www.brynmawr.edu/

Ainda os termos de arquitectura

      A propósito da dúvida do leitor Luís C. Martins, lembro-me de recentemente me ter aparecido uma tradução em que no original, espanhol, se usava o vocábulo pechina. Solução do tradutor? Deixar para o revisor… Claro, bem entendido, o tradutor sabia do que se tratava — mas qual a palavra portuguesa correspondente? Em espanhol, pechina, do latim pecten,-inis («Cada uno de los cuatros triángulos curvilíneos que forman el anillo de la cúpula com los arcos torales sobre que estriba»). Em catalão, petxina, com o mesmo étimo («Cadascun dels quatre triangles curvilinis situats entre els arcs torals, sobre els quals descansa directament l’anell de la cúpula»). Em francês, pendentif, do latim pendēns,-entis («Construction en triangle sphérique concave, entre les grands arcs soutenant une coupole, permettant de passer du plan carré au plan circulaire ou octogonal»). Em inglês, com étimo francês, pendentive («A triangular section of vaulting between the rim of a dome and each adjacent pair of the arches that support it»). Circunlóquios, só em último caso: parte triangular da abóbada que serve para sustentar a volta de uma cúpula. Uma só palavra: penacho. Ou, menos idiossincrático, pendente.

[Espanhol: pechina. Português: penacho ou pendente.]

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