Léxico: «armas de fogo longas e curtas»

Não só pelo tamanho


      «Mas entre 2018 e 2021 destruíram-se, em cada ano, mais de 30 mil armas, com especial destaque para as armas de fogo longas (espingardas e carabinas, por exemplo), que representaram o grosso das armas destruídas. Desde 2017 até ontem, foram destruídas mais de 169 mil armas de fogo longas, mais de 46 mil armas de fogo curtas (pistolas e revólveres) e mais de 18 mil armas brancas» («PSP destruiu mais de 325 mil armas em 14 anos», João Pedro Pincha, Público, 31.01.2026, p. 27). Há-de parecer que não há mais nada a dizer, mas a distinção técnica entre armas de fogo curtas e longas não se baseia apenas na aparência, mas na forma de uso. Assim, proponho ➜ arma de fogo curta arma de fogo portátil concebida para ser utilizada com uma só mão, sem apoio ao ombro, incluindo pistolas e revólveres; nos termos da legislação portuguesa, considera‑se curta qualquer arma de fogo cujo cano não exceda 30 cm ou cujo comprimento total não exceda 60 cm. | ➜ arma de fogo longa arma de fogo portátil concebida para ser utilizada com as duas mãos e apoiada ao ombro, incluindo espingardas, carabinas e fuzis; de acordo com a legislação portuguesa, é longa qualquer arma de fogo que não preencha os critérios legais de classificação como arma curta.

[Texto 22 365]

Léxico: «sala de crise | sala do risco»

Estamos sempre a tempo


      «As declarações geraram reação imediata por parte das empresas. Ana Figueiredo, CEO da Meo, assegurou que a operadora ativou desde o dia 28 de janeiro o seu plano de contingência, com mais de 1.500 técnicos mobilizados em “condições exigentes” e uma sala de crise em funcionamento 24 horas por dia”» («“O senhor Presidente da República está certamente muito mal informado.” Empresas de telecomunicações respondem às críticas de Marcelo Rebelo de Sousa», Nascer do Sol, 4.02.2026, 20h23).

      Enquanto a sala de crise é activada para gerir directamente uma situação de emergência e coordenar respostas estratégicas, a sala de situação, que levámos para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora em 8 de Setembro do ano passado, centra-se na recolha e análise contínua de dados, servindo de apoio técnico à decisão, mesmo fora de cenários críticos. Assim, proponho ➜ sala de crise espaço físico ou virtual activado durante uma emergência, onde se reúne o núcleo decisor de uma organização para coordenar respostas estratégicas, monitorizar impactos e definir medidas urgentes; pode dispor de acesso a dados em tempo real, comunicação interna e externa e instrumentos de apoio à decisão.

[Texto 22 364]

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P. S.: Não te faltam menos de doze salas no verbete «sala», Porto Editora. A maior ausência, a mais chocante, porque até recentemente a ouvi numa reportagem televisiva num pequeno estaleiro naval dos nossos dias que ainda usa técnicas artesanais, talvez seja a histórica ➜ sala/casa do risco espaço num estaleiro naval tradicional onde se traça, à escala real, o plano geométrico de uma embarcação com vista à execução das peças estruturais e auxiliares necessárias à sua construção.


Léxico: «pranchar»

Não falta em todos os dicionários


      «Outro serviço muito procurado por elas é conhecido como alisamento brasileiro: técnica que combina métodos desenvolvidos no Brasil — como escovar o cabelo, pranchar (com uma chapinha) com mechas muito finas — e produtos também do país» («Cabeleireiro chegou a Portugal com 750 euros e hoje atende 500 clientes por mês», Sérgio Nascimento, Público, 4.01.2026, 14h57).

[Texto 22 363]

Léxico: «bienalidade»

Quase banalidade


      «“O concurso para obtenção do grau de consultor referente a 2025 já devia estar aberto, mas o Ministério da Saúde mantém-se em total inércia, violando o princípio da bienalidade e impedindo cerca de 1500 médicos de acederem à progressão vertical na carreira”, lê-se no comunicado deste organismo enviado às redacções» («Presidente do internato alerta para falta de médicos graduados no SNS para formar especialistas», Daniela Carmo, Público, 28.01.2026, 13h04).

[Texto 22 362]


Léxico: «interorgânico»

Precisava dele


      «“Embarcámos numa missão para compreender esta comunicação interorgânica entre o rim e o coração”, disse Uta Erdbrügger, professora associada de medicina na Faculdade de Medicina da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, co-autora do estudo. “Descobrimos que há moléculas que comunicam entre o rim e o coração”» («Os cientistas poderão finalmente saber porque é que os doentes renais morrem de doença cardíaca», Allyson Chiu, Público, 3.02.2026, 7h05).

[Texto 22 361]

Léxico: «tempestade de ferrão»

Este ano, ficamos diplomados


      «A depressão Kristin, com especificidades, com precipitação e vento muito intenso, tem a ver com a geração de uma tempestade de ferrão ou sting jet. Segundo Pedro Matos Soares [especialista em clima], estes sting jet são relativamente raros em Portugal, mas já aconteceram em 2009 e depois em 2018, associado ao furacão Leslie» («Mau tempo. Sequências de tempestades são raras e a culpa é do anticiclone dos Açores», Rádio Renascença, 3.02.2026, 8h57, itálicos meus). Se apareceu, temos de acolher ➜ tempestade de ferrão METEOROLOGIA corrente de vento muito intensa e localizada, associada a alguns ciclones extratropicais em rápida intensificação, que desce de camadas médias da troposfera e atinge a superfície com rajadas extremas; o nome provém da forma em ferrão visível nas imagens de satélite, e o fenómeno, raro mas potencialmente destrutivo, é conhecido internacionalmente por sting jet.

[Texto 22 360]

Definição: «tragédia»

Falta a origem de tudo


      Pelo que vejo, falta uma acepção de «tragédia» no dicionário da Porto Editora. Onde está a tragédia como peça teatral na Antiguidade? Pois, não está, e devia ser a primeira acepção. Assim, proponho ➜ tragédia 1. LITERATURA peça teatral, geralmente em verso, cuja acção se caracteriza por um tom elevado e culmina num desfecho funesto, despertando sentimentos de piedade e terror; surgiu na Grécia Antiga como forma dramática ligada a personagens nobres ou heróicas, com estrutura frequentemente dividida em cinco actos. 

      Pois, cinco actos, a que correspondem fases como a exposição, o desenvolvimento, o clímax, a peripécia e o desenlace. Estrutura que é retomada muito depois, e já não somente no teatro: estou a pensar, por exemplo, na obra A Morte em Veneza, de Thomas Mann.

[Texto 22 359]

Definição: «onça»

Façamos a nossa parte


      «O preço do ouro atingiu esta segunda-feira um novo recorde acima dos 5.100 dólares por onça, o equivalente a 28,3 gramas» («Ouro, prata e platina batem novos recordes», Ricardo Vieira, Rádio Renascença, 27.01.2026, 00h01). 

      A minha avó tinha razão ao dizer que o que se faz de noite de dia aparece, querendo significar com isso que há certas tarefas que não se devem fazer à noite, em que se devia estar a dormir, não a trabalhar. Caro Ricardo Vieira, a equivalência apresentada — uma onça = 28,3 gramas — refere‑se à onça avoirdupois, não à onça troy, que é a unidade usada no comércio de metais preciosos e que equivale a 31,103 476 8 g. Também é caso para dizer que os dicionários têm alguma culpa disto, já que não distinguem claramente nem ordenam as acepções pela sua relevância e actualidade. Daí a minha proposta ➜ onça 1. medida de peso de metais preciosos, usada em cotação de ouro, prata e platina, equivalente a 31,103 g (onça troy / onça fina); 2. medida inglesa de peso, usada principalmente nos Estados Unidos e, de forma cada vez mais limitada, no Reino Unido, para produtos comuns; equivale a 28,349 g (onça avoirdupois); 3. peso antigo português, usado até ao século XIX, equivalente à décima sexta parte do arrátel, ou seja, 28,6875 g; 4. antiga moeda espanhola de ouro, cunhada entre os reinados de Filipe III e Fernando VII, com peso próximo de uma onça e valor de 329 reales; 5. antiquado pequeno pacote de tabaco em fio, de peso variável; 6. Cabo Verde medida agrária tradicional, equivalente a cerca de 1.089 m²; 7. figurado coisa de pouco valor, pequena, insignificante.

[Texto 22 358]

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