Léxico: «merogueiro | merogo»

Dicionários fora dos dicionários


      Não estão nos dicionários, mas depois o país real conhece-as e usa-as diariamente, essa é que é essa: «É que numa das bancas da feira Isaltino [Morais] encontrou a fórmula para a vitória do candidato nestas presidenciais: “Merogueiro ‘prà’ próstata.” Porque se a coisa não vai lá com ervas medicinais, então não vai com nada. Mas se der resultado, daqui para a frente é sempre a subir!» («Gouviagra e Melo», Sónia Dias, Correio da Manhã, 14.01.2026, p. 22).

[Texto 22 260]


Léxico: «cereulide»

Recomecemos aqui


      «Nestlé est retombé dans des eaux très agitées depuis une semaine. A la suite d'une anomalie dans plus de dix de ses usines, notamment aux Pays-Bas et en Allemagne, liée à un problème de qualité sur un ingrédient d’un de ses fournisseurs, le géant suisse de l’agroalimentaire a procédé tout début janvier à un rappel volontaire de certains de ses laits pour nourrissons. La raison? La présence potentielle d’une substance d’origine bactérienne : la céréulide. Celle-ci est susceptible de provoquer chez les bébés des troubles digestifs, comme des diarrhées et vomissements» («Chez Nestlé, les rappels de laits infantiles virent au cauchemar», Olivia Détroyat, Le Figaro, 13.01.2026, p. 23).

      Apareceu, logo proponho  cereulide BIOQUÍMICA toxina peptídica termoestável produzida por certas estirpes da bactéria Bacillus cereus, responsável por intoxicações alimentares do tipo emético (com vómitos) associadas sobretudo ao consumo de arroz, massas ou leite contaminados; actua como ionóforo de potássio nas mitocôndrias, induzindo disfunções metabólicas e distúrbios gastrointestinais agudos, incluindo náuseas, vómitos e, em casos graves, danos hepáticos. 

      Quanto à etimologia, vem do latim científico [Bacillus] cereus, nome da bactéria em que a substância foi identificada, com o sufixo ‑ide usado para compostos químicos e bioquímicos.

[Texto 22 259]


Livro

      Já está disponível, desde ontem o meu livro, Em Português, Se Faz Favor.


Verbo «colocar»

Mais três colocações

      «Para este italiano, cabe aos políticos colocar em prática as decisões já acordadas, como o efectivo reforço do Fundo Europeu de Estabilização Financeira e maior governação a nível económico» («A figura. Mario Monti», João Villalobos, Público, 20.11.2011, p. 32).
      «A aldeia foi colocada à venda por um dos dois proprietários, irmãos, no sítio da Internet da imobiliária inglesa Sotheby’s» («Aldeia à venda em Marvão já tem um investidor interessado», Maria Antónia Zacarias, Público, 20.11.2011, p. 41).
      «Terá sido a indústria que produz animais para a utilização das suas peles a responsável pela introdução “acidental”, em Portugal, de uma espécie exótica que está a colocar em risco recursos marinhos e a sobrevivência de animais que já tinham o estatuto de espécie ameaçada» («O vison americano não serve só para fazer casacos, também ameaça a lontra e o toirão», Susana Ramos Martins, Público, 20.11.2011, p. 43).
[Texto 700]

Jornais

Fiquem a saber

      Um leitor queixou-se por ter encontrado no jornal o aportuguesamento «tuitava». O provedor do Público parece ter empregado toda a semana para ouvir a redacção. «Discutido o caso, a direcção explica que decidiu banir a palavra criticada por Diogo Coelho, “uma vez que a falta de uma correspondência gráfica evidente entre ‘Twitter’ e ‘tuitar’ compromete a sua compreensão por parte do leitor”. “Seria melhor”, considera Bárbara Reis, “ter escrito ‘twittar’, pois aí a ligação com Twitter, o nome do programa, ficaria melhor estabelecida”. Argumentando ser “cada vez mais difícil fugir a neologismos (“blogar”, “postar”, etc.)”, acrescenta que “certas formas de aportuguesamento não contribuem para a fluidez na comunicação”. Admitindo que “utilizar o Twitter”, “escrever no Twitter” ou “via Twitter” seriam as “fórmulas ideais”, conclui: “Não consideramos errado escrever twittar”» («Eu tuíto, tu twittas, ele escreve no Twitter...», José Queirós, Público, 20.11.2011, p. 55).
      Vão lá procurar a «correspondência gráfica evidente» entre, por exemplo, football e «futebol». Bem, mas quase logo no início do texto fica a conclusão: «Ficam os leitores a saber que, se voltarem a encontrá-lo numa notícia do PÚBLICO, estarão perante uma falha na edição ou na revisão do texto.»

[Texto 699]

O artigo inútil

Mais inutilidades

      «Diz agora o LAPD [Los Angeles Police Department], com uma convicção que pode ser manha, que RW, hoje com 81 anos, não é um suspeito» («Natalie Wood, morta», Miguel Esteves Cardoso, Público, 20.11.2011, p. 53).
      Para que serve o artigo indefinido nesta frase? Para nada, precisamente. Miguel Esteves Cardoso já devia ter reparado que os bons autores portugueses (e mesmo os maus) não abusam do artigo indefinido.

[Texto 698]

O inglês inútil

Para quê?

      «A polícia de Los Angeles, a famosa LAPD, reabriu o caso da morte de Natalie Wood (NW). Morreu afogada em 1981 depois de ter estado a bordo de um iate ao largo da ilha de Catalina, na Califórnia. Tinha 43 anos. Estavam com ela mais três pessoas: o marido, Robert Wagner (RW), com quem casara pela segunda vez, depois de uma discussão de meia-noite, bem bebida e ciumenta, por causa do actor com que NW na altura contracenava; Christopher Walken (CW), a segunda pessoa presente, que os outros dois homens dizem ter estado a dormir enquanto tudo aconteceu e, finalmente, o skipper do barco, Dennis Davern, que agora desmente o que disse na altura e alega que não foi um acidente» («Natalie Wood, morta», Miguel Esteves Cardoso, Público, 20.11.2011, p. 53).
      Susana Almeida Ribeiro, que contou ontem a história no «P2», não precisou da palavra inglesa: escreveu sempre «comandante» e «comandante do iate».
[Texto 697]

Léxico: «irracionável»

Ai Weiwei

      «Mas numa entrevista por telefone à Reuters, o artista diz-se pessimista quanto ao êxito do recurso. “Todo o procedimento, até agora, todos os passos, foram ilegais e irracionáveis”, afirmou já depois do pagamento. “Não recebemos nenhuma explica- ção, por isso é muito difícil para nós esperar que o nosso pedido para uma revisão administrativa obtenha uma resposta razoável.”» («Ai Weiwei paga 930 mil euros para contestar crime fiscal», Público, 16.11.2011, p. 22).
      «The whole procedure, up till today, every step has been illegal and unreasonable», lê-se no texto da Reuters. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «irracionável» significa que não tem fundamento, irracional. Para a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, e o velho Morais não atesta nada de muito diferente, contudo, irracionável é apenas o que é contrário à boa razão; desarrazoado; insensato, louco.
[Texto 681]

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