Livro

      Já está disponível, desde ontem o meu livro, Em Português, Se Faz Favor.


Verbo «colocar»

Mais três colocações

      «Para este italiano, cabe aos políticos colocar em prática as decisões já acordadas, como o efectivo reforço do Fundo Europeu de Estabilização Financeira e maior governação a nível económico» («A figura. Mario Monti», João Villalobos, Público, 20.11.2011, p. 32).
      «A aldeia foi colocada à venda por um dos dois proprietários, irmãos, no sítio da Internet da imobiliária inglesa Sotheby’s» («Aldeia à venda em Marvão já tem um investidor interessado», Maria Antónia Zacarias, Público, 20.11.2011, p. 41).
      «Terá sido a indústria que produz animais para a utilização das suas peles a responsável pela introdução “acidental”, em Portugal, de uma espécie exótica que está a colocar em risco recursos marinhos e a sobrevivência de animais que já tinham o estatuto de espécie ameaçada» («O vison americano não serve só para fazer casacos, também ameaça a lontra e o toirão», Susana Ramos Martins, Público, 20.11.2011, p. 43).
[Texto 700]

Jornais

Fiquem a saber

      Um leitor queixou-se por ter encontrado no jornal o aportuguesamento «tuitava». O provedor do Público parece ter empregado toda a semana para ouvir a redacção. «Discutido o caso, a direcção explica que decidiu banir a palavra criticada por Diogo Coelho, “uma vez que a falta de uma correspondência gráfica evidente entre ‘Twitter’ e ‘tuitar’ compromete a sua compreensão por parte do leitor”. “Seria melhor”, considera Bárbara Reis, “ter escrito ‘twittar’, pois aí a ligação com Twitter, o nome do programa, ficaria melhor estabelecida”. Argumentando ser “cada vez mais difícil fugir a neologismos (“blogar”, “postar”, etc.)”, acrescenta que “certas formas de aportuguesamento não contribuem para a fluidez na comunicação”. Admitindo que “utilizar o Twitter”, “escrever no Twitter” ou “via Twitter” seriam as “fórmulas ideais”, conclui: “Não consideramos errado escrever twittar”» («Eu tuíto, tu twittas, ele escreve no Twitter...», José Queirós, Público, 20.11.2011, p. 55).
      Vão lá procurar a «correspondência gráfica evidente» entre, por exemplo, football e «futebol». Bem, mas quase logo no início do texto fica a conclusão: «Ficam os leitores a saber que, se voltarem a encontrá-lo numa notícia do PÚBLICO, estarão perante uma falha na edição ou na revisão do texto.»

[Texto 699]

O artigo inútil

Mais inutilidades

      «Diz agora o LAPD [Los Angeles Police Department], com uma convicção que pode ser manha, que RW, hoje com 81 anos, não é um suspeito» («Natalie Wood, morta», Miguel Esteves Cardoso, Público, 20.11.2011, p. 53).
      Para que serve o artigo indefinido nesta frase? Para nada, precisamente. Miguel Esteves Cardoso já devia ter reparado que os bons autores portugueses (e mesmo os maus) não abusam do artigo indefinido.

[Texto 698]

O inglês inútil

Para quê?

      «A polícia de Los Angeles, a famosa LAPD, reabriu o caso da morte de Natalie Wood (NW). Morreu afogada em 1981 depois de ter estado a bordo de um iate ao largo da ilha de Catalina, na Califórnia. Tinha 43 anos. Estavam com ela mais três pessoas: o marido, Robert Wagner (RW), com quem casara pela segunda vez, depois de uma discussão de meia-noite, bem bebida e ciumenta, por causa do actor com que NW na altura contracenava; Christopher Walken (CW), a segunda pessoa presente, que os outros dois homens dizem ter estado a dormir enquanto tudo aconteceu e, finalmente, o skipper do barco, Dennis Davern, que agora desmente o que disse na altura e alega que não foi um acidente» («Natalie Wood, morta», Miguel Esteves Cardoso, Público, 20.11.2011, p. 53).
      Susana Almeida Ribeiro, que contou ontem a história no «P2», não precisou da palavra inglesa: escreveu sempre «comandante» e «comandante do iate».
[Texto 697]

Regência: «ansiar»

Já não sabemos ansiar

      «Victor Frutuoso diz que, há cerca de quatro ou cinco anos, houve um empresário holandês interessado em fazer um empreendimento turístico relacionado com a gastronomia, produtos biológicos, hotelaria de grande qualidade, “mas não teve sucesso no financiamento”. Agora, todos anseiam para que a história não se repita» («Aldeia à venda em Marvão já tem um investidor interessado», Maria Antónia Zacarias, Público, 20.11.2011, p. 41).
      Desconheço essa regência do verbo «ansiar» — como a jornalista ignora a regência correcta: ansiar + por. Bem, só erra na preposição.
      «Às vezes, só às vezes, abreviava essas leituras saltando períodos..., e, coitado! o avô estava já velho e não dava pelas inevitáveis lacunas dos artigos assim lidos. Eu ansiava por que ele me abandonasse o jornal para ler o folhetim» (Confissão Dum Homem Religioso, José Régio. Lisboa: INCM, 2001, p. 55).

[Texto 696]

«Plantar provas»

Uma evidência

      Um jornalista perguntou a Raul Soares da Veiga: «O que é que o seu cliente diz sobre as provas que alegadamente foram plantadas?» Ora consultem lá os dicionários que têm aí à mão. A acepção, que não me parece muito antiga entre nós, não está registada — e não faz mal nenhum, pois é mais um anglicismo semântico. Manchete recente do New York Times: «Mexico: Police Plant Evidence to Justify Illegal Entry, Panel Says».
[Texto 695]

Como falam os advogados

E não podia esforçar-se um pouco?

      Uma conversa técnica. Raul Soares da Veiga, um dos advogados de Duarte Lima, à saída de uma visita ao seu constituinte: «A conversa que temos com um cliente que é advogado é uma conversa um bocado diferente do que temos com um cliente que não seja advogado, não é? Falamos das coisas já sob o ponto de vista técnico, definindo as normas, os factos... Enfim, tudo isso tem uma certa implicação que não dá para vos traduzir em linguagem leiga porque nós não usamos linguagem leiga, não é?»
[Texto 694]

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