«Ter ganhado»

Em bom português

      «The Sense of an Ending, a novela de Julian Barnes que esta semana ganhou o prémio Booker, lê-se em duas horas. Levou um ano a escrever, disse o autor ao melhor telejornal do mundo — a Newsnight da BBC 2 — logo depois de ter ganho» («O Booker», Miguel Esteves Cardoso, Público, 21.10.2011, p. 41).
      Ter ganhado está mais conforme com os cânones da língua. «Eu só uso outro quando me engano», comentou aqui Montexto recentemente. Também há o contrário: quem acerte apenas quando se engana.

[Texto 596]

«Backbenchers»

Se não se importam

      «Cameron já ordenou aos líderes parlamentares para imporem disciplina partidária, mas o problema não deve desaparecer, pois a iniciativa surge ao abrigo de um novo procedimento que facilita a discussão de propostas apresentadas pelos deputados menos relevantes, como é o caso de Nuttall, os chamados backbenchers, que se sentam nos lugares de trás do parlamento» («Parlamento britânico discute referendo sobre saída da UE», Diário de Notícias, 20.10.2011, p. 25).
      Muito bem: se explicam o significado, podem usar estrangeirismos, tanto mais que não há em português um termo para dizer o mesmo.

[Texto 595]

Ortografia: «Salonica»

Assim está bem

      «Michael Staikos era, actualmente, o mais alto dignitário da Igreja Ortodoxa na Áustria. De origem grega, o metropolita ortodoxo — cargo hierárquico similar a arcebispo — estudou teologia na Universidade de Salonica» («Um defensor do diálogo ecuménico e inter-religioso», Diário de Notícias, 20.10.2011, p. 43).
      Houve uma altura em que, na imprensa, o topónimo era sempre grafado como esdrúxulo — que não é.

[Texto 594]

Cartas de Camões

Alguém sabe?

      Escreveu Camões numa carta: «Este soldo se paga no Tesouro, s. em talhadas de marmelada e púcaros de água fria, com uns debruns da vista da senhora sua irmã. Que, ainda que esta mercadoria seja defesa pelo senhor da fortaleza, nestas viagens da China, mais se ganha no furtado que no ordenado.» Ah, sim, também merece reflexão, acho eu, a anteposição do pronome ao verbo. O que me traz aqui, porém, é aquela abreviatura misteriosa: s. É assim que vejo em todas as edições — sem uma nota explicativa. Ah, esperem: num número da Lusitânia, o s tem um ponto antes e outro depois — .s. —, o que não complica nem simplifica nada. É mesmo abreviatura? Ou será mais uma gralha que passou de edição em edição?

[Texto 593]

Linguagem

A essência do não ser

      «Gostou da obra?» «Sim, gostei.» «Ele é conhecido por não ser bom tradutor do ***.»
      Não sei, mas não acham isto trágico? Conhecido por não ser bom tradutor... Habitualmente, é-se conhecido por aquilo que se é. Faz-me lembrar aquela anedota em que uma aluna pergunta à professora se uma pessoa pode ser castigada por algo que não fez. «É claro que não, Teresinha!» «É que eu não fiz o trabalho de casa...»
[Texto 592]

«Remate final»?

Não era preciso

      «Mas o remate final é forte: “Estas sardinhas atingirão a maturidade gustativa daqui a três ou quatro anos.” Estamos a comer as nossas sardinhas cedo de mais, como sempre» («As sardinhas de 2016», Miguel Esteves Cardoso, Público, 20.10.2011, p. 39).
      Já uma vez escrevi no Assim Mesmo que é cada vez «mais vulgar ouvir-se, na rádio e na televisão — na imprensa escrita ainda não vi —, “desfecho final”. Como se houvesse um “desfecho inicial”, um “desfecho médio” e um “desfecho final”. Um conselho: de vez em quando, experimentem consultar um dicionário». O «remate final», por ser sinónimo, é do mesmo jaez.
[Texto 591]

Analfabetismo diplomado

Agora processe-me

      «Os nossos professores comunicam regularmente com os encarregados de educação. Por favor se alguma situação lhe parecer estranha, ou se tiver alguma dúvida não exite em falar directamente com a professora no momento», escreveu a directora pedagógica. Alguns professores escrevem assim. Ou serão apenas alguns directores pedagógicos? A tróica não tem nenhuma solução para esta calamidade? Podemos reiniciar o sistema?
[Texto 590]

«Relator/narrador de futebol»

Sinais

      «O futebol é um terreno propício à metáfora e ao trocadilho, mas nem sempre as flores de estilo dão golo de letra», lembrou hoje Fernando Alves na sua crónica na TSF. «Não se pede aos narradores de futebol que leiam Samir Amin ou Lévi-Strauss, mas se há lugar onde a percepção do Outro deverá ser evidente, esse lugar é o futebol.»
      É impressão minha ou entre nós usa-se (sempre?) relator de futebol — e no Brasil, sim, narrador de futebol?
[Texto 589]

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